Política e paixão pela seleção: misturar os dois faz mal à saúde

“Não torcerei pela seleção na Copa, pois isso é apoiar toda essa sujeira que o governo fez”.

Cara, você sabe do que você está falando? Tem ideia mesmo, ou está só repetindo algum discurso que leu no muro das lamentações Facebook sem sequer saber o que está por trás?

Esse papo é antigo, vem desde 1970, quiçá antes. Mas naquela Copa, o Brasil estava metido numa ditadura de fato (não essa que tentam dizer que estamos, mas que permite, por exemplo, você reclamar livre e abertamente do governo e do que quiser), onde reunir cinco pessoas na rua poderia ser considerado um ato subversivo. Torcer contra a Seleção, e tornar isso público, podia ser motivo prum coronel mal humorado mandar uma patrulha bater na sua casa.

Em praticamente todas as Copas que vi (não sou velho, de 86 para cá), sempre teve esse papo de torcer contra a Seleção por ser contra o governo. Hay amarelinha, soy contra, basicamente. Por diversos motivos, mas o mais batido era o de ligar o time ao governo, como se o presidente tivesse convocado os jogadores. Vi em 90 (somando a galera que odiava o líbero do Lazaroni), em 94 (além do pessoal que torcia contra o esquema do Parreira), vi em 98 (juntando com a galera anti-Nike), em 2002 (na época os petistas, achando que o Lula precisava disso para vencer a mais barbada de todas as eleições), em 2006 (dessa vez os tucanos, pelo mesmo motivo), 2010 (idem 2006) e agora 2014.

E como a história nos mostra, a Copa e as eleições nunca andaram lado a lado, a não ser pelo fato de, coincidentemente, o país eleger o presidente no mesmo ano que o Mundial ocorre. Perdemos a Copa em 1998 e FHC foi reeleito. Em 2002, com o Penta e o Vampeta rolando pelo Itamaraty, trocamos o comando para o Lula, que venceu de novo em 2006, mesmo depois do Henry nos mandar pra casa. Em 2010, o Dunga fez seu sucessor Felipe Melo e o Lula fez a sua, a Dilma. Mas o Lula ganhou. O Brasil perdeu a Copa.

Para 2014, Dilma dispara em todas as pesquisas de opinião como favoritaça-aça-aça e o Brasil também tem o time a ser batido na Copa. Semelhança ou coincidência? E o que a Copa tem a ver com isso?

Não sou hipócrita. Fui, sou e serei sempre a favor dos protestos – aqueles que mostrem os problemas, não os que destroem, arrasam, picham, vandalizam, queimam, agridem os problemas. É a hora, sim, para mostrar ao mundo a insatisfação do povo. Porém, boa parte desse “povo” insatisfeito está, sim, levada pelo tom político e é contra por ser do contra e pronto. E quem diz que torcerá contra por causa do governo. Desculpe, mas o passado mostra que quem pensa assim não passa de um babaca. Sim, babaca. Não tem outro termo.

Não estou defendendo o governo. Estou chamando de babaca. É diferente.

Todos os problemas que a Copa apresentou, não foi ela quem criou, mas foi ela quem expôs para o mundo. Se não fosse a Copa, o mundo não saberia que o sistema brasileiro é tão corrupto e incompetente como sempre se pensou. Só nós saberíamos. A burocracia atrasa e trava tudo, mas não começou com a Dilma. Começou com Cabral (o navegante, não o governador, embora…), lá atrás, e até hoje não conseguimos expurgar esse câncer de nossa estrutura.

Todo mundo sabe, e não é de agora, que apenas o setor privado anda com “relativa” rapidez nesse país (atenção para o relativa). O que precisa de licitação, de controle de tribunal, de assinatura de governo, de briga em câmara de vereadores/deputados, de ok de governador, de DINHEIRO PÚBLICO, demora. Sempre foi e sempre será. E a Copa mostrou isso para o mundo. Um segredo nosso, que ela escancarou. Ponto para a Copa. Daqui em diante, todo presidente que falar pra fora “o Brasil é isso e aquilo e vamos fazer bonito no evento XYZ”, o pessoal que estiver ouvindo vai pensar “imagina na Copa…”.

Uma recente matéria do UOL mostrou como esta cadeia está contaminada desde o topo. E mesmo os sete anos que nos separam do anúncio não foram suficientes para estancar o derrame de incompetência e atraso de nosso sistema. E não é só a Copa, mas as Olimpíadas estão aí provando isso. Daqui dois anos o Rio de Janeiro receberá 28 “copas do mundo” simultaneamente e não tem instalação pronta nem pro ping pong!

Repito: a burocracia não começou com a Dilma, não começou com o governo FHC.

A Copa não tem culpa. A culpa é de quem pediu para fazê-la (e não que aceitou, como dizem. Pediu, mesmo.), sabendo que o Brasil não teria condições para realizar com o tamanho pensado. Com menos sedes, talvez fosse melhor. O que levou a criar uma Copa monstra com 12 sedes, só quem fez é que pode responder por isso. Se tivessem proposto algo menor, e também se tivessem batido o pé para algumas exigências absurdas da Fifa, seria bem melhor e já estaria pronto – ou mais perto disso.

Mas o cenário real é que teremos o último teste no estádio da abertura da Copa sem a capacidade máxima. Acho que pela primeira vez na história isso vai acontecer. O cenário real é que não temos aeroportos prontos para a demanda que vamos receber. E lembro que o Ricardo Teixeira, quando perguntado, ainda em 2007, sobre o que era mais importante para a Copa, respondeu “aeroportosaeroportosaeroportos”. Ele já foi a algumas Copas, devia saber do que estava falando.

O cenário real é que não teremos nenhuma obra pronta das prometidas do tal legado, tirando os estádios, ainda assim com alguns a concluir. Trem bala, monotrilho, ferrovias… nada. A culpa não é da Copa. É de quem não fez. E muito menos da seleção. Não tem nenhum engenheiro, arquiteto, projetista, peão de obra ali naquele time. Só jogadores de futebol.

Governo federal, os estaduais e municipais. Pegue os projetos não concluídos na sua cidade e veja de quem de fato é a culpa pela obra inacabada a tempo. Se você achar o nome Neymar da Silva Santos Júnior em alguma dessas obras, eu me calo. Mas se estiver lá o seu governador/prefeito/presidente, bom, você entendeu…

Se você não torce pela seleção por questão de estilo de jogo, afinidade com outro futebol ou país, descendência familiar, não gosta do Felipão, não curte futebol e o barulho dos dias dos jogos… qualquer uma dessas coisas é legítima. Questão de gosto, ature as gozações no churrasco e vamos em frente.

Mas culpar a seleção pelo sistema estragado, burocrático, engessado e atrasado que temos no Brasil desde 22 de abril de 1500 é coisa de babaca. Ou burro.