Meu jogo inesquecível: o dia em que Branco virou ídolo

Eu tinha apenas seis anos em 1994. E, para mim, o mundo começava ali.

Recordações antes dessa Copa do Mundo são praticamente nulas na minha mente. Conheço gente que se lembra da festa de aniversário de 1 ano, de episódios quando engatinhava… Não é meu caso.

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Meu jogo inesquecível de Copa: Brasil x Itália em 1994

Mas daquele Brasil x Holanda em Dallas eu me lembro muito bem. Estava na minha terra natal, no interior do Rio de Janeiro. Família reunida na casa dos avós. Baldes de pipoca, camisas da Seleção. Clima tenso na sala porque a Laranja Mecânica, que naquele dia jogou de branco, era adversário forte.

Mas forte mesmo era Romário, que abriu o placar. Forte era o franzino Bebeto, autor do segundo gol, e meu xará Mattheus, que acabara de nascer e se tornou o bebê mais famoso da história das Copas graças à comemoração histórica de Bebeto, acompanhado por Romário e Mazinho.

Mesmo com o empate dos holandeses, não desanimei. Talvez pela ingenuidade infantil, acreditava mesmo na virada. O clima ficava mais tenso na casa da vó. A família, que não é fanática por futebol, roía as unhas. Eu era uma pilha de nervos. E se o Brasil perder, pai? O mundo vai acabar?

BRAZIL V HOLLAND

Não ia. Mas o jejum de 24 anos sem títulos ficaria ainda maior, embora eu, que “acompanhava” ao vivo o Mundial (em 90, com apenas 2 anos, não me recordo de nada), poderia esperar. Mas e meu pai? Tios? Avô? Quantas Copas torceram e viram o Brasil fracassar? O mundo talvez fosse acabar mesmo.

A Holanda era forte, sim. Mas forte mesmo era Branco, aquele lateral que não chegou aos Estados Unidos cheio de moral e virou herói depois daquele jogo. Graças a um canhão que habitava sua perna esquerda. Graças às traves do estádio Cotton Bowl. Graças a tudo.

Branco fez história e era um dos grandes jogadores do time do meu pai, rival do meu. Mas naquele dia o camisa 6 do Brasil se tornou meu ídolo também.

Tivemos trabalho para juntar as pipocas que voaram dos baldes. O Brasil estava na semifinal e iria enfrentar a Suécia. Mas para mim, a Copa poderia acabar ali, após aquele Brasil x Holanda. Eu já me sentia campeão.

Eu tinha seis anos em 1994. E, para mim, o mundo começava ali.

Branco and Marc Overmars

Fotos: Getty Images



Jornalista, editor do Torcedores.com. Passagens pelos jornais Metro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Marca Brasil, Agora São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário do Grande ABC.