Já tirou sua camisa verde e amarelo do armário?

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Eu confesso que ainda não tinha batido, e realmente ainda não bateu, um dia antes do início da Copa, aquele sentimento comum de se colorir de verde e amarelo os carros, casas, janelas, camisetas e tal. Mas lembro com muito orgulho, quando ainda era criança no Ford Landau preto do finado amigo do meu pai, meu pai também já se foi, cheio de bandeiras por todos os lados e nós passeando pelas ruas de Sampa, Avenida Paulista, buzinando e felizes por exaltar nossa brasilidade, de camisa e tudo.

É, mas agora não, e não sou anti-copa ou anti qualquer coisa, têm gosto pra tudo. Não gosta? Mude o canal. Mas mesmo assim não sinto aquele desejo sincero de colocar meu verde e amarelo para fora, not yet. Morei uma década nos EUA e sempre tive na parede do meu quarto uma bandeira enorme verde e amarela do Brasil, a qual exibia com muito orgulho para todos meus visitantes gringos, é, mas agora não. Porém, agora as coisas estão um pouco mais complicadas para mim. Tenho quatro filhos, três de 9 anos.

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João, Antonio, Maria e a pequena Giulia, de 7 anos. Os meninos adoram futebol e o Corinthians, e acabam de ser campeões jogando bola pelo time do clube. A Giulia também gosta, a Maria um pouco menos, mas todos adoram os álbuns e as figurinhas. Completamos três em casa, um deles somente na troca e no bafo, para orgulho da família. Imagino como deve estar a excitação deles de ver o Brasil, o país deles, sediando a Copa do Mundo de Futebol.

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A estreia no novo estádio do Corinthians. Como posso explicar que o pai esta desanimado pela falta de respeito de nossos políticos, com a falta de respeito no trânsito, insegurança, com a falta de respeito com nós mesmos de aceitarmos tudo isso? Simplesmente não posso explicar. Não há argumento para eles. É futebol! é Copa! E é Brasil, pai!

Difícil…mesmo assim resistia. Ontem, com o carro parado no farol e os quatro no banco de trás, o vendedor se aproximou, com chapéu, corneta, bandeira e sei lá mais o que verde e amarelo. Eles pediram pra comprar. Eu recusei. “De jeito nenhum”, disse. Quando gritaram que um amigo meu estava no carro ao lado, abaixamos os vidros e o vimos. Meu amigo percebeu as brincadeiras, chamou o vendedor e pediu duas bandeiras que prendem no vidro da janela. Uma ficou para ele e a outra de presente para nós.

Eles foram à loucura. Que sorte! (devem ter pensado). As meninas vibraram como um gol de Copa. Eu entrei na brincadeira. Disse que tinha vergonha, coloquei o capuz. Vou me esconder, pois ainda não estava pronto. Eles gargalharam. Prendemos a bandeira na janela do carro. Eles comemoraram orgulhosos. Cantoria, gritos, Brasil  e seguimos, agora como mais um carro que aderiu ao verde e amarelo. Mesmo que ainda sem estar pronto…

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