Na Copa da Vila Madalena, o que menos importa são os jogos

– Senhor, por favor não abra a cerveja aqui no táxi, já tive problemas – determinou, educada e firmemente, o motorista que atendeu meu chamado pelo aplicativo e veio me buscar em casa.

Contrariado, resmungando que se fosse para não beber eu iria de carro, aceitei:

– Então vamos rapidinho para não esquentar muito, porque já estou atrasado para o jogo.

– Não se preocupe, eu ligo o jogo aqui – completou, ligando a telinha do DVD no que seria o quase inacreditável Espanha 1 x 5 Holanda.

Este foi o último momento do dia em que o que mais importava ao meu redor era a partida de futebol da Copa do Mundo.

Cheguei na Vila Madalena às 16h e pouquinho, tomando uma Sol mexicana meio quente – homenagem à vitória de horas antes. Encontrei meu amigo, que também curte bastante o futebol, no bar Posto 6: eu só tinha perdido o chute do Snjeider em cima do Casillas.

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O lugar aos poucos enchia, e tornava-se muito Holanda, exceto por um casal recém-chegado do aeroporto, com malas e tudo, na mesa ao lado. Eles eram espanhóis, tadinhos. Brilharam durante 30 minutos e agonizaram os outros 60 mais acréscimos, aproveitados com honra e méritos pelas mesas de simpatizantes cor de laranja e de holandeses – homens; raríssimas mulheres, nem se anima, molecada.

Na minha mesa, já tínhamos a companhia de três felizes e festivas mexicanas, duas das quais haviam perdido a vitória diante de Camarões pois seu vôo atrasara (surpresa). Elas falavam de caipirinhas, de sapatos para dançar, dos planos de viagens pelo Brasil nas próximas semanas, de como acessariam o WiFi em seus iPhones, de que quitute gordo pediríamos para comer. Tudo, menos o jogaço que passava na tevezona ali ao lado.

Quando vi, me distrai também. Entrei na conversa e comecei a conhecer melhor aquelas pessoas animadas que dividiam a mesa do bar comigo. E deixei o jogo pra lá por um instante. O melhor jogo da Copa!!!

Aí precisou o Robben humilhar Casillas – meu amigo bem definiu como brincando de vivo ou morto naquele levanta e cai desesperado do arqueiro espanhol – para eu me dar conta de que estava mais interessado no bar do que na partida. Na Vila Madalena dominada por gringos e brasileiros em espírito de farra, o que menos importa é o jogo da Copa.

Precisou o Robben humilhar Casillas para eu me dar conta de que estava mais interessado no bar do que na partida.

Então, tudo ficou claro: conforme o tempo passava e a Vila enchia, mais o clima de festa se estabelecia, e menos valor os jogos em si tinham.

Os brasileiros, numa espécie bizarra de caça à gringas e tentativa de viver um carnavalzinho fora de época, meio que apenas sendo brasileiros e xavecando geral, mas alguns naquela pegada exagerada de segurar a moça pelo braço e tentar arrancar beijo.

As brasileiras, produzidíssimas e lindas, posicionavam-se pelas calçadas da rua Aspicuelta, já quase interditada de gente antes de começar o jogo do Chile. Com saltos agulha, cabelos longos soltos, saias e calças justas, perfumadas, vivendo uma verdadeira balada (daquelas caras para entrar), mas gratuita e a céu aberto, em um espetacular desfile meio patriota, meio ostentação.

As brasileiras, produzidíssimas e lindas, protagonizam um espetacular desfile meio patriota, meio ostentação

Eu mudei de bar. O posto 6 é muito caro, a conta deu R$ 350,00 em duas horas, então subimos uma quadra e sentamos no Ponto X – bem mais buteco, bem mais em conta, bem mais o que gosto, bem mais futebol. Levamos as mexicanas conosco, chegaram dois amigos brasileiros, duas amigas novas brasileiras, a noiva do meu amigo e uma espanhola (que teve que ouvir, claro). Já era uma mesa grande enfornada no cantinho do buteco com a TV pegando meio mal. Roots.

Vimos o começo avassalador do Chile enquanto conhecíamos dois jovens de Nova Iorque (que respondem à pergunta ‘de onde você é?’ com a cidade de onde são, não o país, mas isso é outro texto). Eles tinham acabado de conhecer e tirar foto com Steve Nash, a lenda do basquete. O nova-iorquino nem bem disse oi, já sacou o telefone para mostrar a foto. Go figure.

Nisso, porções de contra-filé gordurentas foram devoradas, debates sobre uma boa balada de samba na região se concluíram, Busca Vidas foram tomadas, e a Australia já dominava o jogo que tinha diminuído para 2 x 1. Bem, este último acontecimento já não importava muito para quase ninguém.

As gringas decidiram a qual samba ir, as brasileiras dispensaram o samba (que teria muita gente desengonçada que não sabe dançar) e decidiram dar uma volta pela Vila, e logo a mesa ficou pequena de novo. O jogo estava acabando, Beausejour marcou o gol derradeiro, o apito final soou, e o sono bateu. Para um trintão, é difícil manter o pique de jogos universitários e tomar tanta cerveja em dias consecutivos.

Saí do bar por volta das 22h e me deparei com a cereja do bolo: uma multidão impressionante, daquelas que você tem que andar de lado e se espremer todo para atravessar. A festa ainda estava em ascensão, gente chegando, quase ninguém com camisa de qualquer seleção, a maioria com produção de balada mesmo, e um clima de miscigenação, flerte, diversão no ar.

Uma Fan Fest sem o padrão Fifa, com gente bonita e pouco interessada no futebol

Comendo um X-Tártaro no Hamburguinho ali perto, observando gente de vários países mais chegando do que saindo, concluí que a Vila Madalena, e especificamente a rua Aspicuelta, transformou-se em uma divertida esbórnia internacional em clima de jogos universitários (Juca, Economíadas, Jurídicos, Engenharíadas, etc).

Uma Fan Fest sem o padrão Fifa, com gente bonita e pouco interessada no futebol. Na Copa da Vila Madalena, a bola fica de lado, e o protagonista é a festa.

Foto: Getty Images