Pelé: Nascido para jogar futebol

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Vinte e três de outubro de 1940. Três Corações, Minas Gerais. Nasceu Edson, o menino-Deus do futebol mundial. A categoria e habilidade com a bola pareciam hereditárias. O pai de Pelé, Dondinho, era um excelente cabeceador. A paixão pela bola começou cedo na família dos Arantes do Nascimento. Em 1945, eles se mudam para a cidade de Bauru, no interior do estado de São Paulo. Lá, Edson criou a própria equipe, chamada 7 de Setembro. O primeiro contrato foi com o Ipiranguinha, time de várzea da cidade.

Com a bola no pé, o jogador estava longe de ser tímido. Corria e, de repente, parava, inventava uma saída. Ele era diferenciado. Os olhos de Waldemar de Brito, ex-jogador do Brasil na Copa de 1934, perceberam isso. Foi ele quem levou o garoto Pelé, com 15 anos, ao Santos Futebol Clube. Em 1955, a Vila Belmiro era a casa do jovem jogador, que não se intimidou diante da grande oportunidade.

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Pelé era o destaque entre os juvenis da equipe. A primeira chance dele no time titular veio quando Vasconcelos, ponta-de-lança titular do Santos, machucou-se. E o garoto aproveitou muito bem. No ano seguinte, tornou-se o artilheiro do campeonato paulista ao anotar 17 gols, feito que se repetiria pelos próximos 11 anos ininterruptos. Até hoje, um recorde no futebol brasileiro, quase impossível de ser quebrado.

A primeira vez que Pelé vestiu a camisa da seleção foi na derrota para a Argentina, no Maracanã, por 2 a 1. Contudo, o único gol brasileiro foi marcado por ele. Chegou a Copa do Mundo de 1958. Torcedores, imprensa, todos queriam Pelé na lista. Ele era o artilheiro do campeonato paulista com 58 gols, marca que jamais foi superada. Ninguém mais duvidava da habilidade e muito menos do oportunismo dele no campo de jogo. Ele era um jogador anônimo entre os grandes jogadores do futebol mundial. Nos dois primeiros jogos, ficou na reserva. Já na terceira partida, ele foi escalado como titular, ao lado de Garrincha. O primeiro gol nas Copas saiu na partida seguinte, diante do País de Gales.

Na semifinal, o Brasil venceu a França por 5 a 2 com 3 gols do craque brasileiro. Na final, contra a Suécia, o placar e a categoria do jogador se repetiram. O futebol mundial encantou-se com o que viu. Um garoto fez milhões de brasileiros mais felizes naquele 29 de Junho de 1958.

Na vitória de virada contra a Suécia, o talento e a coragem de um menino, quase homem, deixaram boquiabertos torcedores e especialistas do mundo inteiro. Com a frieza que só os craques têm, Pelé aplicou um calculado chapéu dentro da área adversária. Os olhos do público só conseguiam enxergar uma camisa em campo… E dela jamais se esqueceriam.

Os seis gols na Copa da Suécia abençoaram o menino e sua camisa 10. Quatro anos mais tarde, em 1962, na Copa do Mundo do Chile, Pelé marcou um gol na estreia brasileira. Porém, no jogo seguinte, contra a Tchecoslováquia, machucou-se sozinho e deixou de brilhar na conquista do bicampeonato mundial pelo Brasil, título liderado por Garrincha.

O reconhecimento de seu talento surgiu no rosto singelo do goleiro tcheco, Schroif, que, ao perceber que o craque brasileiro não conseguia mais sequer andar, carregou-o nos braços até o lado de fora das quatro linhas.

Pelé estava se transformando em um alvo dentro de campo. Na Copa de 1966, na Inglaterra, ele sofreu com isso diante de Portugal. Os zagueiros adversários preferiam abatê-lo a enfrentá-lo. Sem Pelé, a seleção brasileira fez uma péssima campanha e voltou mais cedo para casa.

Até 1966 Pelé já tinha conquistado, com a camisa 10 do Santos, 6 campeonatos paulistas, 5 campeonatos brasileiros, 2 Copas Libertadores da América, 2 Campeonatos Mundiais Interclubes, além de 4 torneios Rio-São Paulo. Ele jogava ao lado de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pepe e outros. Eles transformaram o time da Vila Belmiro em sinônimo de um futebol arte. Até hoje, o time mágico do Santos é lembrado aonde quer que esteja. Era uma verdadeira seleção. Uma máquina de jogar bola que era vista, inclusive, por torcedores de times rivais.

A figura do maior camisa 10 de todos os tempos do futebol teve grandes momentos emblemáticos, como no dia 19 de novembro de 1969. Naquela noite 35 mil torcedores estavam presentes no Maracanã e dezenas de milhares atentos no rádio e na televisão. O jogo era Vasco e Santos. Aos 33 minutos do segundo tempo, o zagueiro vascaíno René cometeu pênalti. Era a chance do Rei do futebol entrar definitivamente como o maior jogador da história. Faltavam poucos minutos para Pelé marcar o milésimo gol da carreira. O mundo parou para ver e ouvir as narrações do milésimo gol do maior jogador de todos os tempos. Após converter a cobrança, dezenas de jornalistas invadiram o gramado querendo uma palavra do Rei.

Com a maestria de sempre, usou o pé direito para colocar a bola no canto esquerdo do goleiro Andrada. A frase que diria minutos depois – “Pensem no Natal, pensem nas criancinhas” – mostrava um homem preocupado em usar, de alguma forma, toda a magnitude que o havia transformado em uma pessoa de dimensão única.

A disputa da Copa do Mundo do México em 1970 era aguardada com muita expectativa. Além de Pelé, outros grandes atletas do futebol mundial também participaram da competição, como o alemão Franz Beckenbauer e o italiano Rivera. Porém, a seleção brasileira não tinha apenas Pelé em campo. Jogadores como Gérson, Rivellino e Tostão também faziam parte do elenco de ouro do Brasil. Logo na estréia, 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia. Nos dois jogos seguintes, novas vitórias: 1 a 0 contra a Inglaterra e 3 a 2 diante da Romênia. Na fase seguinte, uma grande goleada por 4 a 2 sobre o Peru mostrou ao mundo qual seleção ganharia o campeonato. Na semifinal, um duelo de gigantes: Brasil e Uruguai. Um confronto de duas seleções bicampeãs do mundo. Vitória brasileira por 3 a 1, de virada.

No dia 21 de junho de 1970, 107 mil torcedores estavam no estádio Azteca. A Taça Jules Rimet teria, finalmente, um dono. A partida entre Brasil e Itália revelou ao mundo o primeiro país tricampeão mundial de futebol. Com um placar de 4 a 1, sendo o primeiro gol de Pelé, a seleção brasileira mostrou a todos o verdadeiro futebol arte. Palmas para o futebol do espetáculo. Palmas para o Brasil. Palmas para Pelé. Em uma época que se jogava defensivamente, o futebol ofensivo do Brasil foi coroado.

Em 1975, com 34 anos, Pelé recebeu uma proposta milionária para jogar nos Estados Unidos, mais precisamente no New York Cosmos. Ele aceitou. O desafio principal era ajudar os americanos a popularizarem o futebol. E ele conseguiu. A média de público dos estádios norte-americanos passou de 8 mil para 21 mil pessoas. Em 1977, o Rei deixou o futebol.

Pelé será lembrado eternamente como o maior jogador de futebol de todos os tempos. Além disso, o Rei do futebol é considerado o “atleta do século”. As brilhantes e inesquecíveis jogadas nos clubes que passou e nas Copas que disputou nunca serão esquecidas pelos amantes do esporte. Os gols mais incríveis e bonitos feitos por ele estarão para sempre na memória de muitos torcedores. Privilegiados são aqueles que viram o craque jogar e comemorar de um jeito que ficou marcado no esporte: socando o ar com o místico número 10 nas costas.