Baú da TV: O ano em que Galvão trocou a Globo por uma emissora pequena

Galvão Bueno já deixou a Rede Globo para narrar por uma emissora pequena. Isso não é novidade para quem já vivia o esporte em 1992, mas para as gerações que vieram depois, ainda pode ser um fato que pouca gente conhece sobre a carreira do locutor esportivo mais conhecido do Brasil.

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A Rede OM Brasil era uma emissora de Curitiba, no Paraná, pertencente ao empresário e político José Carlos Martinez. O ideal dele era fazer uma grande rede de televisão fora do eixo Rio-SP. Afinal, Globo, SBT, Record, Band e Manchete eram todas dessas regiões.

galvão na rede omPara ampliar o nível de conhecimento da emissora junto ao público, a Rede OM decidiu investir nos esportes. Comprou os direitos exclusivos de transmissão da Copa Libertadores e fez um convite a Galvão Bueno para não apenas ser narrador, mas também diretor de esportes e apresentador na nova emissora.

A estreia de Galvão na Rede OM aconteceu no dia 1º de abril, no duelo entre São Paulo e Criciúma pela Libertadores, no Morumbi. A ocasião foi amplamente divulgada pela emissora. Nos principais jornais daquele dia, havia o anúncio da partida com o slogan “O jogão do Galvão!”.

Com a bola rolando, Galvão foi saudado no ar algumas vezes. Seu início na OM foi com uma goleada do Tricolor paulista em cima da equipe catarinense, surpresa do ano anterior ao conquistar a Copa do Brasil. O São Paulo venceu por 4 a 0.

Enquanto isso, no fim de semana seguinte, a Rede Globo fazia seu primeiro GP do Brasil de Fórmula 1 sem Galvão. Ficou com Cléber Machado a missão de narrar a corrida em Interlagos. A temporada que o narrador ficou fora da emissora coincidiu com um ano de muitas dificuldades enfrentadas pelo maior nome brasileiro na categoria na época, Ayrton Senna. O piloto corria com uma McLaren muito inferior às Williams que dominaram o campeonato.

O desfalque de Galvão deixou a Globo sem um titular declarado. Aquele ano em especial seria complicado sem o principal nome da narração esportiva da emissora. 1992 era ano olímpico. Cléber Machado, Oliveira Andrade e Luiz Alfredo se revezaram em alguns dos principais momentos esportivos daquela temporada.

Enquanto isso, Galvão Bueno levava sozinho aos torcedores, principalmente os são-paulinos, as emoções da Copa Libertadores da América. O time de Telê Santana avançava na competição com cada passo mostrado pela Rede OM. Em São Paulo, o sinal da emissora chegava por meio de uma parceria com a TV Gazeta, um canal tradicional, mas apenas local até então.

O sucesso das transmissões da Libertadores colocava a Rede OM à frente de SBT, Manchete, Band e Record. A cada avanço do Tricolor na competição, a audiência da emissora paranaense crescia um pouco mais. Os números ganharam anúncios do canal nos jornais novamente.

audiencia rede om

Na grande final, no primeiro jogo entre Newell’s Old Boys e São Paulo, disputado na Argentina, a Rede OM conseguiu ultrapassar a Rede Globo no Ibope entre 22h45 e 23h, e das 23h47 às 23h59. Apesar de a liderança não ter sido conquistada na média do jogo, ou durante mais tempo, aquilo já representava um feito histórico para a emissora.

No duelo de volta, o São Paulo bateu o Newell’s nos pênaltis e ganhou a primeira Libertadores de sua vida. E o torcedor que não esteve naquele Morumbi lotado em 17 de junho de 1992, mas viu o jogo pela televisão, com certeza viu com a narração emocionada de Galvão Bueno pela Rede OM. A audiência chegou a 34 pontos.

Na Globo, Cléber Machado narrava a histórica vitória de Senna em Mônaco segurando Mansell e sua Williams nas voltas finais. Luiz Alfredo fez o jogo que valeu a medalha de ouro inédita nas Olimpíadas de Barcelona ao vôlei brasileiro, com o time masculino comandado por José Roberto Guimarães.

Sem a Libertadores, a Rede OM se virava como podia com outros eventos esportivos. Chegou a transmitir, inclusive, o Campeonato Nacional de Rodeios para todo o Brasil. Galvão Bueno participou até da transmissão de um evento de lutas chamado “Os Campeões do Ringue” na emissora, apresentado pelo já falecido narrador Carlos Valladares.

Mas, enquanto crescia com o esporte e filmes eróticos que chegaram até a ter a exibição vetada em São Paulo, a emissora começava a se afundar em uma crise.

No mês de agosto, enquanto as Olimpíadas de Barcelona aconteciam na tela das outras emissoras, a Rede OM tinha seus donos envolvidos em um escândalo. José Carlos Martinez foi acusado de receber cheques “fantasmas” durante as investigações da CPI do PC Farias, que mais tarde culminaria com o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Para piorar, o dinheiro teria sido usado para pagar uma dívida com o SBT pela compra da TV Corcovado, que levava o sinal da OM para o Rio.

As dificuldades financeiras que vieram depois disso provocaram demissões no Jornalismo e denúncias de salários atrasados. No departamento de esportes, nenhuma mudança acontecia. Galvão seguia no comando e a área representava 60% do faturamento total da emissora, conforme informou a Folha de S.Paulo em 15 de novembro daquele ano.

O avanço dos problemas praticamente acabou com o projeto da Rede OM. Com as expectativas indo por água abaixo, a emissora teve que trocar de nome para se desvencilhar dos escândalos e da fama de cheques sem fundos distribuídos a funcionários e diretores. Em 1993, virou CNT. Em São Paulo, CNT/Gazeta, parecia que duraria até o ano 2000.

Antes disso, Galvão deixou a direção de esportes e o canal. Acertou seu retorno à Globo no dia 2 de março de 1993, como informou no dia seguinte a Folha de S.Paulo com reportagem de Flávio Gomes. A matéria inclusive chegou a dizer que o narrador negociou antes com a Rede Manchete para liderar as transmissões da Fórmula Indy. Prevaleceu a proposta da Globo, que garantia ao locutor as mesmas bases contratuais que ele tinha um ano antes, quando trocou a emissora pela OM.

Na primeira entrevista como narrador da Globo em sua segunda passagem, que dura até hoje, Galvão disse que a OM ficou devendo a ele cerca de 3,5 milhões de dólares. O locutor afirmou ainda que o pacote de transmissões comprado pela emissora carioca para a temporada de 1993 foi fundamental para sua escolha.

A emissora transmitiria a Liga Mundial de Vôlei, eliminatórias para a Copa do Mundo, Copa América, torneios europeus. Retomou, ainda, a Libertadores após um ano vendo a competição só pela OM. A volta de Galvão à F1 aconteceu no GP da África do Sul, em 14 de março.

Era a volta definitiva do narrador à emissora onde daria voz a dois títulos mundiais de futebol da seleção brasileira, várias medalhas olímpicas, vitórias de Senna, Barrichello e Massa na F1, além de vários outros momentos. Mas, na história, fica sempre a página do ano em que Galvão Bueno deixou a Rede Globo.



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.