Como ir da decisão da Libertadores para a Série D? Só o São Caetano explica

Imagine um clube que disputa a final da Copa Libertadores da América, ganha o primeiro jogo fora de casa por 1 a 0, abre o placar na volta, diante de um estádio lotado pela sua torcida, toma a virada, perde nos pênaltis e fica com o vice. Essa história já é bizarra assim, não é mesmo? Agora imagine que, 12 anos depois de ficar no quase na principal competição de futebol entre clubes na América do Sul, este time está rebaixado para a quarta divisão do Brasileirão. Esse é o São Caetano.

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A receita para esse tombo é bem clara: menos receita, presidente que não sai do cargo há quase 20 anos, domínio de empresários, interferências nos trabalhos dos treinadores e jogadores sem compromisso com o clube. Assim, em 12 anos, o Azulão virou pó.

O time do ABC foi a grande sensação do futebol brasileiro entre 2000 e 2004, mas o projeto ambicioso que levou o clube pequeno fundado apenas em 1989 ao papel de segundo melhor time da América do Sul começou muito antes. Quando Luiz Olinto Tortorello, irmão do fundador Jayme Tortorello, assumiu a prefeitura de São Caetano do Sul pela segunda vez, em 1997, o Azulão era um time que disputava a Série A3 do Paulistão e não marcava presença em nenhuma divisão nacional.

O clube tinha pouco mais de sete anos de idade e pretendia ser a imagem de São Caetano no esporte. Tortorello imaginava que a cidade ganharia visibilidade nacional através das competições e dos bons resultados. Nos primeiros anos, o Azulão havia patinado entre a segunda e a terceira divisão estadual, não conseguia se firmar como um clube pronto para disputar contra os grandes da elite.

A partir de 1997, o projeto ganhou impulso. Apostando em jogadores desconhecidos que se destacavam em outros times das divisões inferiores, mas com um potencial financeiro maior, o São Caetano atraía o que de melhor havia na concorrência. Os salários bons e em dia ajudaram o Azulão a montar elencos bons para as divisões que disputava.

Depois de uma péssima campanha no quadrangular final de 1997, o Azulão conseguiu o acesso à Série A2 no ano seguinte, como campeão. Ainda em 1998, disputou pela primeira vez, graças a um convite, a Série C do Brasileirão. Subiu logo de cara, como vice-campeão, após perder o título para o Avaí. Em 1999, falhou nas tentativas de chegar às elites paulista e nacional.

Chegou o ano 2000. O time tinha jogadores experientes, mas totalmente desconhecidos do grande público. Mas apostou na contratação do atacante Túlio Maravilha, que havia sido campeão brasileiro com o Botafogo cinco anos antes. Deu certo, ele foi artilheiro e o São Caetano foi campeão paulista da Série A2. Com o sucesso, Túlio voltou ao clube carioca.

Mas o Azulão não dependia de Túlio. Tanto que, no semestre seguinte, fez história e chegou à final da Copa João Havelange, que representou o Brasileirão naquele ano. Beneficiado pelo regulamento da competição, organizada às pressas pelo Clube dos 13 para resolver o impasse judicial que marcou o rebaixamento do Gama em 1999, o Azulão partiu do Módulo Amarelo, uma espécie de Série B, a vice-campeão brasileiro.

Não era segredo que Tortorello queria exatamente isso, colocar o São Caetano em evidência nacional. Mas tudo saiu muito rápido. O estádio Anacleto Campanella, pertencente à prefeitura da cidade, estava em obras durante a Copa JH justamente para receber o Paulistão da elite no ano seguinte. Acabou recebendo a Libertadores da América.

Com o vice-campeonato, conquistado após eliminar Fluminense, Palmeiras e Grêmio, o São Caetano só não conseguiu superar o Vasco em uma final cheia de controvérsia, remarcada após a queda do alambrado de São Januário. No ano seguinte, aplicando a mesma receita, o Azulão repetiu o vice no Brasileirão após perder a decisão para o Atlético-PR.

Se na primeira Libertadores, em 2001, o São Caetano parou no Palmeiras nas oitavas de final, no ano seguinte o time fez história e chegou à final. Pegou o Olimpia, que vivia seu centenário, venceu por 1 a 0 fora de casa. Parecia que espantaria de vez a sina de vice-campeão que já estava atrelada à imagem do clube. Afinal, o Azulão também fora vice do Módulo Amarelo da Copa JH, além dos vices nacionais da elite.

Quando o Olimpia virou o jogo no Pacaembu e levou para os pênaltis, caía de vez o sonho mundial do São Caetano. O time esteve a um passo de enfrentar o Real Madrid no Mundial Interclubes, no Japão. Torcedores do clube contam que Tortorello já buscava patrocínios para bancar uma viagem da torcida ao país oriental para a disputa do título mais importante que o clube poderia conquistar. Mas o nervosismo do time, aliado ao mau comportamento do técnico Jair Picerni, expulso da beira do campo ainda no primeiro tempo, quando o Azulão vencia por 1 a 0, derrubou esse projeto.

De lá para cá, o Azulão viveu ainda dois anos bons. Teve uma goleada histórica por 5 a 0 contra o Internacional na última rodada do Brasileirão de 2003 e garantiu uma vaga na Libertadores do ano seguinte. Após Picerni, demitido pelo vice na competição continental, passaram pelo São Caetano nomes como Mário Sérgio, Tite, Muricy Ramalho, Nelsinho Baptista, Emerson Leão, Cuca, Levir Culpi, Dorival Júnior e Antônio Carlos Zago.

O São Caetano teve, na fase boa, jogadores como Gilberto, Mancini e César, que defenderam a seleção brasileira, além de nomes como Mineiro, Edílson, Warley, Fabrício Carvalho, Lúcio Flávio, Robert, Rubens Cardoso, entre tantos.

O Azulão finalmente foi campeão no Paulistão de 2004, mas tudo começou a desmoronar no dia 27 de outubro de 2004, quando o zagueiro Serginho teve uma parada cardíaca em campo durante o jogo contra o São Paulo, no Morumbi, pelo Brasileirão. O jogador teve sua morte decretada pouco tempo depois em um hospital próximo ao estádio. Na ânsia por uma punição diante de todo o abalo sofrido pela opinião pública, o Azulão chegou a ser ameaçado de exclusão do campeonato e rebaixamento à Série C.

Acabou perdendo 24 pontos por ter escalado Serginho sabendo dos problemas cardíacos constatados no exame médico feito no jogador durante as seis últimas partidas antes da morte do zagueiro. Muitos atribuem a queda do Azulão somente a esse detalhe, mas quase dois meses depois, o prefeito Luiz Tortorello morreu aos 67 anos de idade após uma longa internação que coincidiu com o período em que o São Caetano era manchete no Brasil inteiro.

A partir daí, assume o total controle do clube o presidente Nairo Ferreira de Souza. Quem acompanhava o futebol em São Caetano via que a presença do dirigente antes era discreta em comparação ao prefeito. Todos na cidade comentavam as ações de Tortorello pelo clube, mas Nairo aparecia mesmo era nos jornais dando entrevistas como representante da direção.

Em dezembro de 2003, o AD São Caetano virou São Caetano Futebol Ltda, e Nairo passou a dominar as ações. A partir daí, os investimentos ficaram menores, mas o clube continuava ostentando um bom patrocínio de camisa e salários em dia. Foi assim que, sob comando de Dorival Júnior, o Azulão foi vice-campeão paulista em 2007. Mas o time havia sofrido com o baque do rebaixamento para a Série B no ano anterior.

Rebaixamento que nunca mais conseguiria reverter. O Azulão ainda fez boa campanha na Copa do Brasil de 2008, chegando às quartas de final, mas não brigava pelo acesso. Protagonizou vexames, como ser goleado pelo Grêmio Barueri no Paulistão. Brigou contra a queda para a Série C, mas escapou por pouco, em 2011.

Em 2012, após uma campanha ruim no Paulistão, o São Caetano conseguiu finalmente montar um bom time para a Série B, sob comando de Sérgio Guedes. Com uma campanha muito boa, o treinador acabou demitido sem explicação, deixando espaço para várias teorias da conspiração que afirmavam ser uma ingerência de Nairo sobre o time, e que o treinador não teria aceitado imposições do presidente nas escalações.

Nairo contratou Emerson Leão, que já havia passado rapidamente pelo clube em 2006, e o treinador manteve o trabalho em uma boa direção, conseguindo resultados que aproximavam o Azulão do G-4. Mas, do nada, Leão também foi demitido após um aproveitamento de quase 70%.

Sobrou para o auxiliar Ailton Silva, que por pouco não conseguiu subir o time. O São Caetano empatou em pontos com Atlético-PR e Vitória, mas acabou derrotado pelo critério de desempate, número de vitórias e ficou na segunda divisão.

A partir daí, nada mais funcionou. O time contratou Rivaldo, que pouco jogou. Perdeu, por lesão, o goleiro Luis no começo do Paulistão. O time não se encontrava mais. Começaram a surgir os primeiros rumores de atrasos salariais. O São Caetano foi rebaixado no Paulistão poucos meses depois de quase voltar à elite do Brasileiro.

Para completar o 2013 “maravilhoso”, caiu também na Série B, após lutar contra a zona de rebaixamento durante toda a competição. Mais crise, menos investimentos, até fornecedor de material esportivo o clube deixou de ter. Ameaças de greve, reclamações de salários não pagos. Definitivamente, o São Caetano não era mais o mesmo.

De volta à Série A2 depois de 14 anos, o clube só se salvou do rebaixamento porque uma combinação de resultados ajudou na última rodada, quando o time tomou um 3 a 1 em casa do arquirrival Santo André. Na Série C, o esperado pelos mais pessimistas aconteceu: o time foi rebaixado com uma rodada de antecedência.

Assim, com toda essa história, você aprende como ir do topo da América ao fundo do poço brasileiro em 12 anos. Mas, lembre-se, o modelo que ruiu tinha sido capaz de fazer o caminho de ida em apenas cinco anos.



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.