Como o fim do Orkut vai apagar uma pedaço da memória do basquete brasileiro

O Orkut está subindo no telhado. Segundo o próprio Google, o desligamento das máquinas está marcada para o dia 30 de setembro, a próxima terça-feira. Junto da nossa primeira rede social, morrerá também declarações de amor no mural alheio, fotos constrangedoras e um pedaço da memória do basquete brasileiro.

Pouca gente sabe. Ou melhor, ninguém sabe, mas ao longo de 2010 o ex-jogador Wlamir Marques se dedicou a escrever uma autobiografia nesta rede social. É ou não é o cara mais 2.0 do basquete brasileiro?! E se a gente pensar que ele foi convocado para uma seleção brasileira pela primeira vez em 1953, aos 16 anos, então temos um verdadeiro HD de memórias do baquete nacional escrito com esmero, cuidado e – o melhor – sem edição!

Pois é, antes de você salvar aquelas fotos toscas da época do colégio (ou ter a certeza de apagá-las pra sempre!), passe no perfil do Wlamir Marques. Como se não bastasse as mais de 150 páginas (o cara tem 60 anos só de baquete, afinal de contas!), as postagens são entremeadas por comentários de leitores/seguidores que interagiam com o Wlamir à medida que ele escrevia as memórias. É muito S2. Saca só:

Que nada amigão, eu escrevo no máximo dois capítulos por dia, é que nem novela. Muitas vezes tenho vontade de não parar, mas chega o cansaço mental e sou obrigado a dar um tempo. Depois a memória não chega de uma vez, chega aos poucos. Confesso que gosto muito de contar histórias, porque não contar a da minha vida? Isso ficará para os meus netos e bisnetos, isso se eles se interessarem em saber.

O texto começa em São Vicente, onde o tenro Wlamir ouve pelo rádio a derrota da seleção de 1950, em pleno Maracanã, no dia de seu aniversário de 14 anos. Fala de campeonatos estaduais intercolégios cujas finais eram disputadas no ginásio e estádio do Pacaembu, na década de 50/60. Imagina você, um moleque de 15 anos do interior/litoral indo jogar a final do futebol neste estádio na cidade de São Paulo? Coisas que se perderam no tempo e que podem ser revividas nas memórias deste cara que é o jogador mais vitorioso da história do basquete (sem esquecer do Amaury, claro). E segue até praticamente os dias de hoje.

Mas ele disputou, sei lá, quatro Olimpíadas, outros tantos Mundiais e Pan-Americanos, teve uma passagem vitoriosa pelo Corinthians… É tanta memória que fica impossível descrever tudo em um post só. O que a gente vai tentar fazer no blog Homens Brancos Não Sabem Blogar é, de tempos em tempos, recortar um trechinho dessa memória (sim, amigos, eu já salvei a minha cópia) e publicar por aqui.

Certa vez, eu fui a uma sessão de autógrafos do lançamento de uma biografia que certo jornalista escreveu sobre o Wlamir. Perguntei a ele se o livro que estava sendo lançado era tão bom quanto a autobiografia que ele escreveu no Orkut. “Não… esse aqui é legal, foi outra pessoa que escreveu. Tá meio incompleto. O que eu escrevi no Orkut são minhas memórias de fato”.

Pois as memórias de Wlamir Marques vão se perder no dia 30 de setembro. Corra, leia, imprima, salve. Isso é a memória do basquete brasileiro, veiculada na mídia mais improvável possível: uma rede social decadente. Não deixa de ter um pouco da cara do basquete brasileiro.

Enfim, tá dada a dica.

Foto: Reprodução/Facebook



O blog Homens Brancos Não Sabem Blogar (HBNSB.com) existe desde 2010, escrevendo sobre basquete brasileiro, europeu, curiosidades e, principalmente, NBA. O nome é uma homenagem a este clássico esquecido do cinema basqueteiro: White Men Can't Jump.