Entrevistas de Piquet são um manual contra o politicamente correto

Se hoje o mundo da Fórmula 1 é dominado pelos pilotos treinados por assessorias de imprensa fortíssimas, dão poucas declarações “fora da linha” traçada por quem cuida das suas imagens, e impera a lei do politicamente correto ao falar de rivais e companheiros, há no passado da categoria alguém que destoava completamente disso: Nelson Piquet.

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O tricampeão mundial nunca teve medo de ser polêmico, mal interpretado, provocar rivais, companheiros de equipe, diretores, cartolas, jornalistas, narradores. Enfim, Piquet não tinha papas na língua e nem temia as consequências de suas palavras.

Um dos maiores exemplos é a entrevista concedida por Piquet à revista Placar de agosto de 1986. O papo com o repórter Lemyr Martins pareceu bem descontraído e rendeu frases épicas que dizem muito sobre a personalidade do tricampeão.

  • “Eu me fechei, particularmente. Agora, sobre automobilismo falo à vontade. Pode me perguntar tudo. Quer saber sobre as fofocas da Williams? Eu falo.”
  • “Eu não falo com Mansell, traço minha própria tática de corrida e fico gozando os dois. São uns babacas. Não dou a mínima informação”
  • “Se ele (Mansell) tivesse se comprometido com outra equipe, o interesse da Williams em me fazer campeão seria outro. Mas o babaca pediu alto demais, fez exigências absurdas, depois abriu as pernas, e resolveu ganhar o que a Williams ofereceu”
  • “Eu não conhecia Ayrton Senna antes de vir para a Europa. Eu tenho minha vida, meus hobbies. Só porque somos brsileiros deveríamos ser amigos? Não tenho nada contra nem a favor”
  • “Claro que tive amigos. Lauda foi um. Gostava de Niki, um cara tricampeão mundial que sabia tudo, não esnobava ninguém. Como é que vou ser amigo dos franceses? Prost é cheio de frescura. Keke, muito confuso. Imagine anunciar, no meio da temporada que vai deixar de correr. Isso é coisa de cantor. Pura bobagem. […] Mas como é que vou conversar com René Arnoux? Um panacão. QI 12, eu acho”
  • “Como todo mundo sabia que o Niki Lauda ia parar, levantamos o boato de que eu iria para o lugar dele na McLaren. E enquanto Ecclestone discutia com o Ron Dennis, eu me acertava, na moita, com Frank Williams”
  • “Bom, para quem é acusado de mal-humorado, já falei bastante. Demais. Para terminar, moro em Mônaco, tenho um barco e um avião. Fim.”

Mesmo nas entrevistas após o fim da carreira, Piquet continuou soltando o verbo. O narrador Galvão Bueno foi um dos alvos do tricampeão, que reclamou do excesso de “adivinhações” nas transmissões da Globo.

E ainda disse que tem “desgosto” ao ouvir Galvão falar.

No Roda Viva, da TV Cultura, em maio de 1994, Piquet voltou a disparar, agora contra o austríaco Gerhard Berger.

“O Berger é o cara que mais me impressiona na Fórmula 1. Porque nunca foi nada e ainda está na Fórmula 1 com um dos maiores salários”, disse.

Em entrevista à jornalista Marília Gabriela, Piquet atacou o francês Alain Prost, quando falava sobre o velório do piloto brasileiro, morto em acidente no GP de San Marino de 1994. Prost foi chamado de “demagogo” por Piquet por ter ido ao funeral após anos de brigas entre os dois.

Um verdadeiro manual do politicamente incorreto na Fórmula 1.



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.