Opinião: A cada capítulo, o Atlético-MG pagou uma conta. Hoje, a dívida é zero

O torcedor atleticano nunca primou pela sorte. Apesar de ter comemorado o título brasileiro em 1971 e visto vários bons times em campo ao longo das décadas. Desde então, foram doze participações em semifinais de Brasileiros e mais três vice-campeonatos.

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Números expressivos, mas que passam desapercebidos em função da perda de contato com as taças. Com o tempo, se apequenou, foi rebaixado para a segunda divisão e por pouco não caiu em outras oportunidades.

O Galo não era mais respeitado, tampouco temido.

Alguém lá em cima parece ter pensado em uma recompensa para esse torcedor a partir de 2013. O atropelamento sobre o São Paulo na Libertadores era o começo, mas mal sabia o atleticano que dali para frente ele passaria por uma série de batismos dramáticos.

Contra o Tijuana aos 47 do segundo tempo, Victor não só defendeu o pênalti de Riascos, mas também deu um chute na bola e no medo da torcida, curiosamente com máscaras da morte naquela noite.

Diante do Newell’s Old Boys, a primeira virada. Os 2 a 0 sofridos na Argentina pareciam irreversíveis, até que provavelmente o tal alguém lá de cima mandou apagarem os refletores do Horto. Impossível fugir da piada pronta: o apagão iluminou o Galo. O resto ficou com São Victor, intransponível na marca fatal.

Para a decisão frente ao Olímpia, a sensação era de que as lições das fases anteriores haviam sido aprendidas. Mas é preciso seguir a história. Dois a zero fora, virada em Belo Horizonte. Ah, e Victor garantindo nas penalidades.

O Clube Atlético Mineiro chegava a seu título maior, 42 anos depois de sua primeira grande conquista e recuperava o prestígio perdido.

Talvez fosse possível dizer que o atleticano pudesse ficar mais 42 anos sem ganhar nada depois de tudo o que aconteceu, mas mal sabia ele que havia mais contas a serem acertadas.

Porque esse mesmo atleticano ainda convivia com certos fantasmas do passado, mais precisamente dois times: Corinthians e, sobretudo Flamengo, quase tão odiado quanto o Cruzeiro. E o tal alguém lá de cima pensou tudo direitinho.

Aliás, esse cara deve ser um roteirista de primeira linha. Achou que o sofrimento deveria terminar gradualmente, e assim o fez, pinçando detalhes dos primeiros capítulos, temperando com ingredientes extras.

Corinthians em Itaquera. Dois a zero. Placar revertido, Victor nos pênaltis, classificação. Não. Nos capítulos a seguir, os 2 a 0 viram 3-0 nos primeiros minutos em BH. Após o gol de Guerrero, o “eu acredito” parecia ter ido pro espaço, até que Guilherme justificou os 6 milhões de euros investidos nele em 2011, mais juros e correção, e comandou um épico 4 a 1.

Ali, o fantasma da final de 1999, das semifinais de 1994, das quartas de 1990 e 2002 (aquele 6×2 vergonhoso), da Copa do Brasil de 1997 e da Libertadores de 2000 era exorcizado. Enfrentar o Corinthians em um mata-mata significava derrota na certa. Não mais. E quanto ao próximo adversário, tratava-se do mesmo, porém de maneira mais cruel.

O Atlético-MG dos anos 80 era fortíssimo e apresentava credenciais para ser o melhor time do Brasil. O problema era justamente o Flamengo. Na final do Brasileiro de 1980, a primeira cicatriz. Em dois jogos épicos, o Galo amargou o vice ao perder por 3-2 no Maracanã, tendo vencido a partida de ida por 1-0.

No ano seguinte, a redenção poderia vir na Libertadores, quando após dois empates, no Rio e em Minas, ambos decidiriam uma vaga na fase seguinte em campo neutro, no Serra Dourada. Aí, o então árbitro José Roberto Wright, para os atleticanos algo pior do que Hitler com a camisa do Cruzeiro, expulsou de maneira no mínimo controversa cinco jogadores, a ponto de encerrar a partida e classificar os rubro-negros.

O que poderia ser apenas uma decepção passou a ser um ódio incontrolável por parte do torcedor alvinegro, que tinha tudo para lavar a alma seis anos depois na semifinal do Brasileiro, mas voltaram a parar no Flamengo, naquela época em pior momento. Sem contar uma tamancada de 4 a 1 na Copa do Brasil de 2006, e o gol olímpico de Petkovic no Mineirão em 2009. Uma sina colossal.

Mas lembremos do tal alguém la de cima, o roteirista que planejava terminar esta saga da forma mais emblemática. Ele conseguiu. Evidentemente, abriu com os 2 a 0 contra, e, claro, fora de casa, para assim se superar diante do atleticano quase 100% redimido.

Seguindo a linha do pensamento, o visitante abre o placar. E se desta vez não houve Guilherme, mas sim a força de toda a massa, que fez o Flamengo, sempre impiedoso, se acovardar e também buscar quatro bolas na rede.

A noite de 5 de novembro é um marco nos 106 anos do Atlético Mineiro. Em outros momentos, o atleticano não acreditaria. Acreditou porque o que era do passado, está no passado. Acabou. Não há mais freguesia, não há mais fantasmas. Em pouco mais de um ano, o Galo lembrou a todos que é grande.

Fez novamente o torcedor sorrir e se orgulhar do time que ama. A história ganhará mais um capítulo, o da final diante do Cruzeiro, a primeira entre os rivais em um torneio nacional.

E a cada capítulo, o Atlético-MG pagou uma conta. Hoje, a dívida é zero.

Foto: Getty Images



Estudante de jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie e alucinado por futebol.