Opinião: O apelido de “Imortal” se tornou nocivo ao Grêmio

Grêmio
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Nunca desiste, nunca abandona. Sempre acredita e luta até o fim. Estes são os motivos de o Grêmio ter sido apelidado de “Imortal” por sua torcida. Justificável em alguns momentos da história do clube, o modo carinhoso de se referir ao time tem sido mais prejudicial do que benéfico ao Grêmio nos últimos anos.

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Desde que Zinho, Marcelinho Paraíba e companhia derrotaram o Corinthians, em São Paulo, na decisão da Copa do Brasil de 2001, o Grêmio não conseguiu mais erguer um troféu importante.

Pior do que isso, foi rebaixado para a Série B e só conseguiu subir depois de muito esforço. Apesar de pouco para o tamanho do clube, o feito foi alinhado ao auto-proclamado “alguém que nunca se entrega”. Entretanto, ao mesmo tempo, maquiou a dificuldade que a equipe tem em se colocar novamente como um dos mais respeitáveis times do país.

Se contarmos, conseguimos levantar pelo menos três ocasiões claras em que o Grêmio sucumbiu em momentos decisivos por causa do lado psicológico. O apelido de “Imortal”, atualmente, faz com que o clube encare grandes disputas com o pensamento de que é “obrigado” a provar que tem sangue quente correndo nas veias.

Na Libertadores de 2007, o Grêmio penou para chegar à final. No caminho eliminou São Paulo, Defensor-URU e Santos. Nas três fases, teve de, no segundo jogo, reverter o placar adverso do primeiro. Quando pisou em La Bombonera para enfrentar o Boca Juniors-ARG, porém, se perdeu em si mesmo, tentando não demonstrar que aquela equipe de azul e amarelo o intimidava. O final foi catastrófico: perdeu ambos os jogos, sem marcar um gol sequer.

No Brasileirão do ano seguinte, toada parecida foi observada. Quando o primeiro turno virou, o Grêmio chegou a ficar 11 pontos na frente daquele que viria a ser campeão no fim das contas, o São Paulo. Inevitável associar a queda de rendimento do time à “obrigação” que ele mesmo se impôs de comprovar que não estava ali, na liderança, por acaso.

Este ano de 2014, mesma coisa. Quando o Grêmio estava mal das pernas, sofrendo para se manter no meio da tabela de classificação, parecia estar tudo bem, a força de vontade de chegar no topo iria prevalecer uma hora ou outra.

Mas foi só golear o maior rival no Gre-Nal e figurar como um dos favoritos ao G-4, que o barraco desabou. Duas derrotas consecutivas, para concorrentes diretos, justificam isso. E de novo a torcida teve de engolir as piadas e suportar a vergonha de ver o “Imortal” ter de botar o rabinho entre as pernas, morrer na praia.

Claro que é importante ter essa postura mais imponente no futebol. Aliás, em qualquer coisa. Mas quando isso vira prerrogativa para as atitudes que são tomadas, fica um contexto meio sem sentido. Principalmente porquê pressão demais atrapalha. Ainda mais quando quem faz a pressão é o próprio pressionado.

O Grêmio tem perdido para si mesmo há muito tempo. Precisa esquecer o que ele acha que é, ou o que ele um dia foi (por méritos, claro), para começar a pensar no que é bom que ele seja. Faz parte da evolução natural da espécie.

Foto: Getty Images



Tudo o que preciso é um papel e uma caneta. Apaixonado por esportes desde 1900 e bolinha: de futebol, basquete, tênis, rugby...