Repórter do Fox Sports lamenta ‘blindagem’ e respostas ensaiadas de jogadores

O Torcedores.com ouviu com exclusividade Vagner Martins, repórter do Fox Sports no Rio Grande do Sul. Em bate-papo, ele falou dos motivos de ter escolhido o jornalismo como profissão, as dificuldades do início da carreira e sobre o comportamento dos torcedores nas redes sociais e nos estádios de futebol. Outro assunto abordado foi sobre a interferência da assessoria de imprensa de clubes e atletas no trabalho dos repórteres que cobrem o dia a dia do esporte bretão.

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“Quando iniciei na reportagem era possível parar os jogadores no pátio ou no estacionamento dos estádios, ligar o gravador e fazer a entrevista. Era muito bom. Você podia criar suas próprias matérias e chance de um furo era muito maior”, afirmou Martins, que também teve passagens pela rádio e TV Bandeirantes, de Porto Alegre, e Rádio Pampa (atual Rádio Grenal).

O jornalista também elogiou a iniciativa da torcida mista no último Gre-Nal, quando um espaço do Beira-Rio foi compartilhado por torcedores gremistas e colorados.

”Foi muito legal. Tive a chance de cobrir esse evento no setor misto do Beira-Rio. O ambiente criado ajudou muito e eliminou a raiva. A sensação de paz tornou o jogo numa festa”, disse.

Leia a entrevista completa:

Torcedores.com: Por que escolheu fazer jornalismo?

Vagner Martins: Sabe aquela criança que cresceu jogando futebol de botão, narrando e jogando sozinho? Eu era assim. Cheguei a tentar a carreira de jogador de futebol, mas não tinha potencial para ser profissional. Quando era pequeno ganhei um rádio de pilha do meu avô. Passei minha infância e adolescência ouvindo transmissões esportivas. A magia do rádio me fascinou e nunca tive dúvidas em relação a minha profissão.

Torcedores.com: Conte um pouco sobre o seu início de carreira. Quais as dificuldades encontradas?

Vagner Martins: Meu primeiro emprego foi em uma rádio FM, filiada a Jovem Pan. Meu primeiro boletim foi escrito e carregado de muita tremedeira. A insegurança é o maior inimigo. Depois que você adquire confiança tudo fica mais fácil. Minha primeira chance no radiojornalismo esportivo foi em 2001, em uma rádio do interior, a rádio Osório. Comecei direto sendo repórter de “goleira”. Pra quem não sabe repórter de goleira é o profissional que fica atrás do gol dando os depoimentos detalhados após a narração. Não foi muito difícil, pois eu ouvia muito e tudo parecia sair ao natural.

Torcedores.com: Qual o momento mais marcante vivido como repórter esportivo?

Vagner Martins: Sem dúvida, a Copa do Mundo. Indescritível a sensação de ter transmitido jogos em estádios como Beira-Rio e Maracanã.

Torcedores.com: Como foi trocar a Band no final de 2013 pelo Fox Sports?

Vagner Martins: Na Band/RS aprendi tudo que sei hoje. Foi nesta casa que virei repórter de rádio e televisão. Foram 10 anos de aprendizado profissional e pessoal. A formação do meu caráter como pessoa tem muito a ver com a minha passagem pela Band. Dez anos lá dentro me ensinaram muito sobre a profissão e sobre relações pessoais. Sou muito grato a essa verdadeira faculdade. A proposta da Fox foi um reconhecimento de tudo que eu vinha fazendo como repórter na Band. Estou muito satisfeito e certo que ficarei um bom tempo na nova casa.

Torcedores.com: Qual a sua opinião sobre a blindagem da assessoria de imprensa dos clubes em relação aos jogadores de futebol? O atual formato de entrevistas coletivas está esgotado?

Vagner Martins: Quando iniciei na reportagem era possível parar os jogadores no pátio ou no estacionamento dos estádios, ligar o gravador e fazer a entrevista. Era muito bom. Você podia criar suas próprias matérias e chance de um “furo” era muito maior. Entendo o lado dos clubes. Limitando o número de entrevistas fica mais fácil de controlar o que é dito. É uma proteção ao clube. Mas no geral as coletivas estão muito chatas. Perguntas repetitivas e entrevistados que ensaiam as respostas. Não tem jeito. Cabe ao repórter ser criativo e correr atrás de pautas interessantes.

Torcedores.com: Você já sofreu violência física de torcedores nos estádios?

Vagner Martins: Não. Apenas xingamentos. É chato, mas levo na boa. Aqui a rivalidade é muito grande. Já sei que quando vou na Arena posso ser chamado de colorado e quando vou ao Beira-rio posso ser chamado de gremista. Felizmente o número de pessoas que reconhecem o nosso trabalho é muito maior que o número de pessoas que te ofendem.

Torcedores.com: Vários profissionais da imprensa costumam reclamar da grosseria de alguns torcedores nas redes sociais. Recentemente, o locutor Jota Júnior, do Sportv, cansado com a falta de respeito de quem pensa de forma divergente, anunciou que estava se desligando do Twitter e do Facebook. Você já foi alvo dos mal-educados? Já pensou em deixar as redes sociais?

Vagner Martins: Muito. No começo eu discutia e xingava também. Mas o efeito é o mesmo. o número de pessoas que interagem na boa é muito maior. Tenho uma regra: Me xingou? Block! Na hora. Depois que adotei essa prática fiquei mais tranquilo.

Torcedores.com: Qual foi a sua sensação ao reportar torcedores rivais unidos (torcida mista) assistindo ao último Gre-Nal? A ideia deve ser copiada por outros clubes?

Vagner Martins: Foi muito legal. Tive a chance de cobrir esse evento no setor misto do Beira-Rio. O ambiente criado ajudou muito e eliminou a raiva. A sensação de paz tornou o jogo numa festa. Entendo que as direções deveriam aumentar de forma gradativa o espaço para torcida mista no próximos grenais. O grande problema são os marginais infiltrados nas organizadas.

Torcedores.com: Quais recomendações você dá aos futuros jornalistas?

Vagner Martins: Que sejam dedicados e que tenham postura profissional. O jornalista precisa ser respeitado como pessoa em primeiro lugar. Ler e ouvir os mais experientes é fundamental para ter sucesso.

Torcedores.com: Para finalizar, o Inter vai brigar pelo tricampeonato da Libertadores? Quais as suas expectativas para a dupla Gre-Nal no Campeonato Brasileiro?

Vagner Martins: O começo do Inter não é nada animador. Mas em 2006 e 2010, quando foi campeão, o time também não convenceu nas fases iniciais. Hoje eu não apostaria no Inter na Libertadores. Ainda é cedo para projetar o Brasileirão, mas a dupla Gre-Nal sempre entra para brigar na ponta de cima. O Inter já está na fila a mais de 30 anos e deverá investir muito para chegar ao título. O Grêmio está formando uma base boa. No início do ano a torcida ficou preocupada com o corte de gastos e com a redução da folha salarial, chegando a temer o rebaixamento. Mas a onda passou e a política da nova direção me agrada.

Foto: Reprodução



Rafael Alaby é jornalista diplomado pela FIAM (Faculdades Integradas Alcântara Machado), com passagens pela Chefia de Reportagem de Esportes, da TV Bandeirantes, em São Paulo e site KiGOL. Pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte (FMU)