Opinião: A vida é muito curta pra não deixar o sol bater na pele

Tarde quente, de festa, muitas crianças na piscina. O grupo de meninas adolescentes chega, ocupa mesas e cadeiras, olha dum lado, do outro, conversam umas com as outras. Tiram short, saia, sapatos, óculos escuros, não as camisetas, e entram na água daquele jeito: o tecido cobrindo o corpo de biquíni. O tecido se molha, gruda na pele, mas está lá pra todos os efeitos, cobrindo, como se não deixar a pele à mostra fosse esconder o corpo.

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Fiquei chateada. Me vi com 15 anos, logo depois de um estirão de crescimento, de uma encorpada que me deixou grandalhona, de pernas, bunda e principalmente peitos enormes. Eu era tão bonita e de repente me recusei a usar biquíni, então todas as minhas fotos em praia ou piscina mostram uma adolescente de maiô, como se aquele pedaço de pano não fosse permitir que alguém adivinhasse meu corpo – só na minha cabeça mesmo. Minha mãe argumentava (da mesma forma que eu argumentaria hoje) “mas vai ficar de braço e perna morenos e barriga branca?!” – ela mesma uma grande usuária de biquíni, sempre), mas o que é barriga branca perto da vergonha do corpo? A barriga só eu ia ver mesmo.

Eu me revi com uma vergonha imensa de mim e do meu corpo, perdida sem saber se acreditava na fala dos adultos que tentavam me dizer que eu era bonita (“ai, só falam pra me agradar”) ou se acreditava no que meus olhos diziam e que as brincadeiras dos colegas reforçavam: eu não era bonita não, era estranha. Cabelo estranho, corpo estranho, roupas estranhas, vida estranha.

A mulher de 39, hoje, depois de tanta modificação no corpo ao longo de 20 anos, tenta falar pra moça de 15 que quer usar maiô:você É bonita. Você é e será bonita, não importa o que vão te dizer. Você não é estranha – não mais que as outras moças da sua idade, essas que riem da sua cara.

Mas a moça de 15 não está lá pra ouvir mais, já virou fumaça, pozinho de memória.

As moças de 15 crescem, ficam adultas e várias delas serão as mulheres que vão pra piscina ou pra praia enroladas em toalhas, receosas de mostrar o corpo, deixá-lo livre. Muitas serão julgadas porque não tem o corpão-padrão, o corpão-certo, o corpão-prescrito, outras serão justamente por terem. Muitas delas ficarão receosas em frequentar academia de ginástica ou praticar atividades físicas que exponham muito o corpo – natação, corrida, hidroginástica. Muitas vão enfrentar temperaturas inclementes em provas de rua usando mangas longas, camisetões, calças, várias vão desfrutar menos dos benefícios da atividade, preocupadas com o corpo que se movimenta em frente a olhos alheios e que é visível, que pode ser percebido. Várias, escoladas na dureza da vida diante do olho alheio e da métrica moral alheia, também julgarão, também reproduzirão vida afora o julgamento impiedoso de si e de outras, qualquer que seja o motivo. Porque não é exatamente sobre o corpo gordo ou magro ou alto ou baixo a coisa toda, mas é sobre o outro.

Se você, homem ou mulher, lida com meninas repita a elas sempre que elas são bonitas, que seus corpos lhes pertencem. Diga a elas e diga às outras, mas faça também um esforço pra que o julgamento do corpo tenha na sua vida e na vida delas o espaço que merece:nenhum. A moça da casa ao lado, a mulher da novela, a desconhecida na rua, todas elas devem ser donas de seus corpos e devem se sentir assim. Os impiedosos tempos de vaidade fit documentada em perfis de Instagram pedem mais generosidade com os outros e com nós mesmos. Mais empatia, mais amor, por favor.

E você aí: esqueça a toalha, a canga, a roupa em volta da piscina. Corra de short, se esquentar se exercite só de top e short. Deixe o sol bater, deixe o sol entrar.

Crédito da foto: Getty Images



Sou bibliotecária, mãe, leitora, projeto mal-acabado de rabiscadora, de nadadora e de corredora também. Acho que a vida sem movimento - do corpo ou da mente - vale mais a pena.