Opinião: O São Paulo de Milton Cruz já é melhor que o de Muricy

Palmeiras
Foto: Lucas Uebel/Getty Images

Foram apenas dois jogos. Um contra a rebaixada Portuguesa e outro contra o bem organizado, porém tecnicamente fraco RB Brasil. Certamente o placar de 3×0 nas duas ocasiões não iludiu a torcida, que ainda não confia no desempenho do time em partidas decisivas. Todavia, o São Paulo de Milton Cruz conseguiu mostrar sinais de reação ao principal gargalo do time no ano: a transição da defesa para o ataque. Por esse motivo, mesmo sem brilho e em apenas duas partidas, é possível declarar que já é uma equipe superior ao São Paulo de Muricy Ramalho.

Sem poder contar com Luís Fabiano e Alan Kardec, contundidos, além de Boschilia e Ewandro que estão com a seleção sub-20, Cruz teve dificuldades para montar a estratégia ofensiva do time, e optou por colocar mais um homem no meio-campo, escalando Alexandre Pato centralizado no ataque. Ainda que não tenha sido um autêntico Camisa 9, Pato foi (em ambas as partidas) uma espécie de referência na área, e correspondeu marcando “gols de centroavante” tanto na quarta-feira, quanto no sábado.

Em seu primeiro compromisso sem Muricy à beira do campo, o São Paulo enfrentou uma Portuguesa fadada ao rebaixamento em jogo válido pela última rodada da primeira fase do Campeonato Paulista. Já classificado, Milton Cruz escalou um time praticamente reserva no 4-3-3, com Centurión aberto pela esquerda e Cafu pela direita:

Esquema SP x Portuguesa

 

O destaque para essa formação foi a linha de três jogadores na faixa central. Rodrigo Caio foi o mais defensivo dos três volantes e realizou partida segura na marcação, enquanto Thiago Mendes também jogou defensivamente, embora tenha se apresentado vez ou outra ao ataque. Porém o nome do jogo foi Hudson, que comandou o time e articulou o ataque, se aproximando dos homens de frente e apoiando as investidas de Bruno pela direita. Foi premiado com o gol que fechou a conta do jogo.

 

Já na partida válida pelas quartas-de-final contra o RB Brasil, Milton Cruz deslocou Hudson para a lateral direita e voltou com o resto do time titular (considerando que Reinaldo ganhou a posição de Carlinhos, e Lucão a de Dória). Mas ao invés de escalar Centurión no ataque ao lado de Pato, como Muricy muito provavelmente teria feito, o treinador interino preferiu manter o terceiro homem no meio-campo, promovendo a estreia de Wesley com a camisa tricolor, enquanto Michel Bastos e Ganso jogaram mais adiantados e Pato era o único atacante de ofício:

Esquema SP x Red Bull

 

No comando da faixa central esteve Wesley, com ótima movimentação, assim como o participativo Michel Bastos, responsável por voltar para ajudar a desafogar o jogo e depois se apresentar para atacar pela ponta esquerda. O próprio Hudson, pela lateral direita, manteve bom ritmo de jogo e também contribuiu para que o time não sofresse tanto na passagem da defesa para o ataque.

O jogo não foi fácil, mas o time soube amornar o adversário. O desenho tático se assemelhou bastante ao 4-3-2-1, variando para 4-2-3-1 com Wesley na direita e, no segundo tempo, já com a partida encaminhada, para um 4-4-2 defensivo. A principal diferença para o jogo contra a Portuguesa foi ter dois meias bem avançados e centralizados ao invés de atacantes aberto pelas pontas. O esquema favoreceu o jogo de Ganso, muito mais adiantado do que nos últimos jogos.

Esse posicionamento avançado e sem tantas obrigações defensivas era o que todos queriam ver. Até o ex-cotado para assumir o São Paulo, Vanderlei Luxemburgo, declarou que o escalaria bem avançado e protegido pelos jogadores de marcação, citando o exemplo de Alex no Cruzeiro multicampeão de 2003.

Não foi uma noite de Alex, mas certamente foi a melhor partida do camisa 10 são-paulino no ano, compensando a pouca movimentação com gol, assistência e lances de destaque, como o belíssimo corta-luz que colocou Hudson sozinho dentro da área, no segundo tempo. A tese de que Ganso não é o Pirlo brasileiro e rende muito mais se jogar encostado no ataque, foi mais uma vez comprovada hoje.

 

 

O ponto positivo em ambos os jogos foi escalar a linha de três no meio-campo, criando a proteção para que um deles pudesse “carregar o piano” pro ataque. Curiosamente ou não, Hudson foi o jogador mais importante do time contra a Portuguesa. Do mesmo jeito, Wesley foi o ponto de equilíbrio do São Paulo contra o RB Brasil.

Outra vantagem de jogar com a linha de três foi que os laterais puderam subir ao ataque sem desguarnecer tanto a defesa, uma vez que havia a cobertura dupla. Isso fez com que os zagueiros tricolores jogarem sem nenhum grande risco de exposição, como passou Rafael Tolói, por exemplo, na situação do gol contra o San Lorenzo (o que não exime sua a falha grotesca), e em tantas outras situações de exposição da zaga ao ataque adversário por conta do mau posicionamento dos laterais e dos volantes.

O ponto baixo foi a participação de Souza e Denílson, que mesmo no esquema novo, ainda travaram bastante a transição, especialmente no primeiro tempo. Ficou a sensação de pode haver mais fluidez no meio com Rodrigo Caio e Thiago Mendes, ou ainda com Hudson e Wesley jogando juntos na linha de três volantes, alternando as responsabilidades e dificultando uma possível tática de anulação do adversário.

Houve críticas quanto ao fato de um time que tem marcado poucos gols, jogar com três volantes e em casa. Entretanto, é preciso entender que acima de qualquer crítica, o problema do time do São Paulo em 2015 é a transição, que compromete todos os setores. O time titular ideal para Muricy tinha Denílson e Souza com a missão de desafogar o jogo e um Ganso hora como terceiro volante, hora como meia recuado, mas nunca podendo jogar encostado no ataque. O resultado era uma lentidão sem fim dentro de campo.

Um time lento na transição facilita o trabalho defensivo do time adversário. Contra times bem montados, como o Corinthians, isso significa dizer que era moleza para os corinthianos marcarem pressão e roubarem a bola no campo de ataque para pegar o sistema defensivo desmontado; e contra times de qualidade técnica inferior, significa dizer que era muito cômodo para o adversário se fechar e deixar o São Paulo fazer seu jogo burocrático e lento, com muito passe lateral e nenhuma profundidade; daí tanto sufoco em jogos que deveriam ter sido mais fáceis, incluindo as duas partidas contra o San Lorenzo.

Ao contrário disso, o time com três volantes marcou seis gols em dois jogos, derrubando o argumento de que ofensividade/retranca significa número de atacantes/volantes em campo. Tudo é questão de haver funções e posicionamentos bem definidos, além de escalar os jogadores certos para cumpri-los.

Por fim, o time não foi brilhante e passou longe de apresentar um futebol que o credencie como favorito no Paulistão, e menos ainda na Libertadores. Porém, é um recomeço menos assustador do que se esperava. É claro que os jogadores ainda apresentam vícios do “muricybol”, mas são marcas que ficarão para trás, se o time continuar no caminho da renovação tática.

Resta saber se, com Luís Fabiano voltando de lesão, Milton Cruz (ou o novo técnico) vai ter coragem de sacar o Pato – artilheiro do ano – do time titular para dar continuidade ao esquema com Ganso adiantado e Wesley ou Hudson vindo de trás; ou se voltará a dupla de ataque e o time terá de descobrir um novo jeito de arrumar a transição com quatro homens no meio, ao invés de cinco. Se querem saber de minha parte, o Fabuloso vai ter que compreender o momento, pensar no objetivo maior do time e da torcida, e se contentar com o banco, ao menos por enquanto.



Acompanha quase todos os esportes, mas torce apenas para o São Paulo e para o San Francisco 49ers. Tenta, na medida do possível, discutir com base na razão, e não na emoção.