Opinião: Do porquê ser contra a adaptação do calendário brasileiro ao europeu

Há um segmento da opinião futebolística, cujo discurso é pronto. Ser a favor da tecnologia como ajuda da arbitragem, transformar clubes em empresas, achar as sofisticadíssimas novas arenas uma bálsamo, querer mudanças nas regras básicas do jogo (como acabar com o impedimento ou aumentar o número de substituições) e, finalmente, adequar o calendário nacional ao europeu – todos esses quesitos fazem parte de um pacotão que tem como argumento modernizar o esporte, trazer progresso ao futebol.

Gostaria de me atentar apenas ao último ponto citado, e expor a minha visão de como não seria coerente sincronizar nosso calendário com o do velho continente.

Primeiramente, a época em que funciona o calendário europeu, se implementado aqui no Brasil, traria enormes danos aos nossos atletas. Acho que é desnecessário dizer que o calor europeu é um tanto mais ameno quanto o brasileiro – e jogar com o “sol do meio-dia” na cabeça em pleno janeiro é prejudicial até para quem não é atleta profissional. Pausas para tomar água não serão necessárias para manter o bem-estar físico dos jogadores que atuam em alto nível no auge do calor em um país tropical – a Copa que será realizada no Qatar é um exemplo disso, pois já está estabelecido que os jogos ocorrerão à noite devido as alturas temperaturas.

Outro fator que agrega ao mantimento deste formato de calendário, são as competições disputadas simultaneamente ao Campeonato Brasileiro, como a Libertadores, que é disputada do começo até o meio do ano. Os clubes precisam de uma pré-temporada adequada para disputar a desgastante competição. Se fosse adotado o calendário europeu, os clubes estariam em fim de temporada nacional, onde os jogadores estariam em seu limite de desgaste físico – e querer mudar também a Libertadores de época, é querer mudar todo o sistema futebolístico americano, além do planejamento feito pela Conmebol.

A mudança de calendário acarretaria algo triste: o fim dos campeonatos estaduais. Para todo bom estudante de futebol brasileiro, é fato que os estaduais são a raiz de nosso futebol. Sem os campeonatos estaduais e as copas regionais, diversos times de imensa tradição se perderiam em meio à rápida modernização, além dos clubes não terem um campeonato para fazer seus testes, aquecimento e ganhar entrosamento para competições de mais importância. No continente europeu, ficam inviáveis campeonatos estaduais pelo tamanho pequeno dos países, tendo, logo, poucos clubes nos poucos estados existentes.

Além do mais, querer colocar os dois campeonatos acima simultaneamente ao Brasileirão é suicídio. Pode dar certo na Europa, pois as distâncias entre os países são pequenas. Exemplo: para o Real Madrid enfrentar o Porto, bastam algumas viagens de trem, e para enfrentar o Barcelona, algumas horas de carro. No Brasil, para o Corinthians enfrentar o Colo Colo, estima-se uma viagem de muitas horas de avião, e para enfrentar o Sport, mais algumas boas horas de avião. O desgaste é infinitamente maior. A demanda de estrutura seria absurda, e incongruente para um país como um Brasil, completamente diferente da maioria dos países europeus.

Ainda existem diversos pontos que podem ser destacados, mas o último que irei colocar aqui poderá até soar um tanto romântico.

O futebol brasileiro já errou muito e continua errando ao tentar copiar modelos europeus, que simplesmente não dão certo aqui. Estilo de arbitragem, esquema tático, função das posições em campo… boa parte da identidade nacional no futebol já foi perdida. Sacrificar essa série de fatores já expostas, para se adequar a um modelo que dá certo exclusivamente por ser coerente ao seu respectivo contexto, é ser refém do futebol europeu. Não há janela de transferências que valha a pena. Erra quem vê o futebol como algo a par da sociedade, pois o esporte representa um dos pilares da antropolia cultural brasileira. Vale ressaltar que o calendário atual está longe de ser o ideal, mas acredito que mudanças, aliás, consideráveis mudanças podem ser feitas, sem extrapolar certos limites. Radicalizar para copiar a Europa não é a solução. O futebol brasileiro é grande demais pra isso.



Estudante de Jornalismo na Universidade São Judas Tadeu. Amante do futebol, apaixonado por futebol americano e interessado pela antropologia esportiva.