“Futebol moderno”: O brasileiro está longe de ser o que eles praticam

Futebol

O árbitro apitava o fim do jogo. Sem pestanejar, eu desligava a televisão e seguia para o meu quarto sabendo que, no dia seguinte, me arrependeria de não ter me deitado mais cedo. Consequência comum a quem se arrisca a ver uma peleja daquelas em uma noite de quarta-feira.

Inconformado pelo que vi e com os olhos inchados, resultado de tamanha mediocridade em campo, eu bem que te tentei dormir. Não consegui. Calos em meus olhos me impediam de fechar as pálpebras, enquanto ideias borbulhantes invadiam a minha mente, pedindo espaço para uma reflexão em plena madrugada.

Com um olhar saudosista e uma audácia sem tamanho, relembrei de alguns textos de Mário Filho e Nélson Rodrigues que havia lido recentemente. Me fiz a seguinte pergunta: Como aqueles poetas, acostumados ao primor da arte, transformariam o futebol atual em poesia?

Como estes nobres senhores poderiam traçar finos versos sobre nosso futebol extremamente tático, nossos atacantes que marcam na defesa, mas não marcam gols?

Quem sabe algumas palavras sobre números e estatísticas? Uma ode aos nossos torcedores de teatro, que assistem aos jogos sentados, bradando hinos na segunda pessoa do singular? Talvez algo sobre “a bola parada que decide jogos”?

Mário Filho e seu irmão Nelson Rodrigues vivenciaram o modernismo brasileiro, movimento artístico que influenciou a sociedade brasileira na primeira metade do século XX. Por sorte, Mário e Nelson não tiveram o desprazer de vivenciar a tal modernidade que, hoje, atinge o futebol brasileiro.

Na conjuntura atual, não existe uma tentativa de aliar os ensinamentos europeus aos valores tupiniquins. Existe sim, uma cópia fajuta daquilo que foi visto por nós durante a Copa do Mundo de 2014.

Daí você, meu caro leitor, pode dizer que existem muitas coisas positivas no futebol moderno. Eu concordo. A questão é que nós brasileiros só vemos o quão mal estamos quando, finalmente, o destino resolve nos mostrar que estamos seguindo a direção errada – olha aí os 7 x 1. Pior que isso. Nós somos uma representação fiel daquele aluno ordinário que decide aprender alguma coisa apenas quando a corda lhe aperta o pescoço. Foi assim que “aprendemos” algo sobre o futebol moderno.

Hoje fala-se muito em obediência tática, compactação, mas estamos esquecendo que tais questões são meros complementos. É assim que funciona na Europa. Nós, por outro lado, suplantamos o talento e fazemos do secundário algo primordial.

Um bom exemplo são os tão louvados atacantes que voltam até a linha de fundo contrária para marcar. Não haveria nada de errado nisso se, por acaso, este jogador cumprisse o seu papel principal: criar jogadas, marcar gols.

Sabemos que isso não acontece e que muito provavelmente um atacante talentoso – que não marca tanto – ocupará um lugar no banco de reservas. A equipe jogará com laterais que não avançam tanto, um camisa 5 “cão de guarda” no meio-campo, mas ainda assim será aquele companheiro esforçado que atuará no comando de ataque. E ai se quem estiver de fora reclamar!

Neste momento, me vem à cabeça uma das grandes reclamações da mídia brasileira: onde está o nosso bom é velho camisa 10? Eu prontamente respondo: ele está marcando e não armando. Me parece que a própria semântica dos termos queira me dizer algo – no futebol moderno, o clássico camisa 10 já não existe mais. Talvez eles ainda existam, mas eles certamente estão cedendo sua numeração para um volante que marca e sai para o jogo. Quem sabe este seja o caminho para que os nossos craques celebrais de outrora sigam atuando em nossas canchas.

Também me parece curioso que, ao final da Copa de 2014, muitos jornalistas pediam uma reinvenção na maneira de desenvolvermos as qualidades dos nossos jovens jogadores. Mas se você perguntar para qualquer treinador da base sobre a sua filosofia de formar atletas, muito serão categóricos e dirão que valorizaram primeiramente o talento, trabalhando em segundo plano aspectos táticos e físicos. Daí eu me pergunto: Onde está o nosso erro? Porque ainda estamos chafurdando na mediocridade mesmo após a maior tragédia do nosso futebol?

A verdade é que estou no aguardo do momento em que nossos goleiros serão obrigados a se tornarem Neuers – mas da maneira errada – sendo avaliados primariamente pela qualidade com as bolas nos pés e não mais pelo talento em defender os arremates dos adversários.

Paciência. É como dizia Nelson Rodrigues: “Na vida, o importante é fracassar”. Espero, então, que possamos seguir fracassando até o momento que deixemos de ser aquele aluno que se dedica apenas no final, mas que na verdade não aprende nada.

Texto originalmente publicado no Blog Sem Firula F.C. Clique aqui e visite o site!

Crédito da foto: Reprodução