O Clássico dos Milhões, o futebol-força, a atrofia da fantasia e a saudade de Eduardo Galeano

O extraordinário escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano escreveu em “Futebol ao Sol e à Sombra”, que o trabalho do árbitro “consiste em se fazer odiar.” O juiz, segundo bem nos lembrou essa referência da literatura, é o único obrigado a correr o tempo todo, “a suar bicas”. O árbitro é, então, “a explicação para todas as desgraças, as torcidas teriam que inventá-lo se ele não existisse”.

Galeano nos deixou nessa segunda, aos 74 anos, e foi encantar os campos do céu com os seus refinados “toques de letra”. Ainda nesse domingo, me lembrei dele quando assistia ao tenebroso clássico entre Flamengo e Vasco, no Maracanã. Dessa vez, o juiz deu mesmo motivos para ser “reverenciado” por todos os lados: parecia ter esquecido o cartão vermelho em algum canto do vestiário, como alguém que deixa o celular pra trás na correria de sair de casa; talvez um golpe da distração ou um drible da pressa.

As agressões entre alguns atletas dos dois times beiraram um espetáculo medieval; três jogadores do Flamengo e, certamente, um do Vasco deveriam ter sido expulsos direto com o cartão que lhes tira o crédito: Marcelo Cirino, Jonas e Wallace pelo clube da Gávea e Dagoberto, pela Colina; lhes faltou categoria em todos os possíveis aspectos.

Infelizmente, esses destrambelhados murros e pontapés são também o mais puro reflexo do que o sábio Galeano observou acerca do jogo nos tempos de hoje: “a tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia.”

Ainda no sábado, dia 11, véspera do “Clássico dos Milhões”, o “língua afiada”, campeão mundial em 1970, Paulo Cezar Caju, reforçou essa escrita em sua coluna no jornal. Caju pontuou essa “mentalidade brucutu do sangue nos olhos, da faca na caveira”; ele e Galeano estão cobertos de razão; como essas táticas liquidam com a técnica e emburrecem o futebol. Caju ainda bem disse: “hoje não se formam times, mas tropas de elite.”

Foi isso o que vimos no “Maior do Mundo” que adormeceu com uma saudade enorme na alma; saudade do esmerado futebol arte que inspirou os mais variados artistas, como Neguinho da Beija Flor que um dia cantou: “domingo eu vou pro Maracanã”;

Saudade duplicada nessa segunda-feira com a morte de mais um nome que ajudou a eternizar o futebol como a arte do prazer do ofício: “por sorte ainda aparece nos campos, embora muito de vez em quando, algum atrevido que sai do roteiro e comete o disparate de driblar o time adversário inteirinho”; descanse em paz Galeano!



Jornalista formado pela Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente é professor do Departamento de Televisão e Rádio da mesma faculdade.