Opinião: Luxemburgo e a censura da FERJ

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Ontem, ao fazer a minha corriqueira viagem Niterói-Maricá, tive a felicidade de encontrar na van em que estava um exemplar de um famoso jornal de esportes. E logo na capa uma foto do treinador do Flamengo Vanderlei Luxemburgo com uma tarja negra na boca e o dizer: “Censurado!”. A matéria relatava a suspensão aplicada pelo TJD-RJ à Luxa por ele ter criticado a FERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro), organizadora do Campeonato Carioca.

Eu já soubera da suspensão através dos noticiários nos rádios, mas não tinha ideia da pena máxima que poderia ser aplicada e nem mesmo dos artigos em que o treinador fora enquadrado pela “censura”. A pena podia chegar a um ano afastado da beira do gramado. UM ANO por afirmar que “a imprensa deveria dar porrada na federação”. O TJD-RJ (Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro) interpretou a afirmativa como INCITAÇÃO À VIOLÊNCIA (que absurdo…) e conduta anti-desportiva, e o enquadrou em cinco artigos: 178, 243-B, 243-C, 243-D e 258. Em um ato de sensatez da procuradoria, os artigos 243-B e 243-C foram removidos da acusação antes mesmo da sessão. Luxa foi absolvido por unanimidade no 243-D, que previa justamente a incitação à violência.

Entretanto, no artigo 258 o técnico pegou um jogo de suspensão (atitude anti-desportiva) e no 178 mais um jogo de suspensão, por tratar o caso como reincidente (o texto da lei prevê punição pela gravidade da situação, meios empregados, motivos determinantes, antecedentes desportivos e circunstâncias agravantes e atenuantes ao caso), totalizando dois jogos.

Afinal de contas, alguém sabe o porquê da declaração? A reclamação dá conta da possibilidade da escalação de apenas cinco jogadores do time júnior. Pelo visto a nossa federação prefere lucrar e ver esse futebol horrendo que a grande maioria dos times vem jogando atualmente à revelar jogadores. E a desculpa para essa atitude é pior: os clubes, ao escalarem um time repleto de jogadores do time de juniores, podem acabar desvalorizando o campeonato. Ah, poupe-me! E se fosse um caso de extrema crise financeira para determinado clube; o campeonato serviria para arrendamento de verbas para o restante da temporada e um time júnior tivesse que ser utilizado? Ele teria que se retirar do campeonato? (Explico o argumento; esse time iria angariar verbas no estadual com bilheterias, patrocínios e cotas de TV disputando a competição com o time júnior, enquanto a diretoria se movimentava para contratar jogadores para o restante da temporada e “devolver” os jogadores às categorias de base para concluir suas formações.)

Antes da conclusão desse texto, vi que o STJD concedeu um efeito suspensivo para a punição essa noite e que o treinador comandará da beira do campo o clássico contra o Fluminense, e o responsável pelo ato fora o vice-presidente do órgão Ronaldo Piacente. Parabéns, dr., sua sensatez e lógica são admiráveis!

Fecho esse artigo usando um fato histórico alheio ao futebol; o período de maior obscuridade foi marcado por uma censura severa que sufocava os meios de comunicação e todos aqueles que pensavam diferente do órgão máximo. Falo da Ditadura Militar que ocorreu no Brasil de 1964 a 1985. Um slogan fora criado na época e eu o uso para fechar meu texto: TODA CENSURA É BURRA!

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Lucas Nunes é um jornalista carioca apaixonado por esportes. Apesar de trabalhar em outros ramos da comunicação atualmente, planeja trilhar carreira no jornalismo esportivo, já que ama, em suma, o futebol, o automobilismo e o MMA.