Opinião: Uma provocaçãozinha não faz mal a ninguém…

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Estava ali na academia (sim, dez e meia da manhã, não me julgue. Aliás, não julgue ninguém, sobretudo se não conhecer o contexto, a vida da pessoa) e a TV ligada no “Bem Estar”. Não sei qual era precisamente o tema do programa (acho que era consciência corporal) mas sei que cheguei e falavam dumas moças que faziam pole dance, depois mostraram um grupo de pessoas fazendo um treinamento no parque do Ibirapuera e o rapaz dizia assim que, putz, a gente passa o tempo todo enfiado no escritório e na frente do computador, vai fazer exercício e vai pra academia ficar trancado lá? Então bora formar um grupo e treinar no parque, oras. E aí aquele grupo de gente jovem, musculosa, bem vestida, bem tratada, bonita mesmo.

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E daí que me veio uma torrente de coisas na cabeça: a questão do mérito, a elitização no esporte…e a fala do moço a respeito do nosso confinamento em espaços fechados soou mais forte pra mim porque é bem verdadeira, se a gente for pensar. Muitos de nós trabalham em ambientes fechados, jornadas longas, serviços repetitivos e bem alienantes; daí dá final de semana e a gente se enfia em shopping center, que é um elemento muito significativo da cidade porque confina as pessoas pra consumir em um lugar sem janelas (onde não se vê passagem do tempo – já reparou nisso?

Cassinos são assim também, você fica lá dentro torrando dinheiro e perde a noção de tempo e o contato com o mundo exterior), porque o acesso a ele com carros é priorizado, muita gente vive em casas com muros imensos, que ficam em ruas onde não há vida, só passagem de pessoas entrando ou saindo. Enfim.

Então o rapaz tem razão sim, vivemos confinados e é maravilhoso poder sair um pouco de dentro da caixa, da baia. Faz bem pro corpo e pra cabeça. Por outro lado, assumindo que o programa da televisão em que o rapaz ressaltou isso é assistido por um público que provavelmente é formado por pessoas de classe C e D (é um palpite meu, por causa da emissora e do horário, viu? E por ser televisão, meio de comunicação de massa, muitas vezes o único meio de informação e entretenimento das pessoas), quem é que tem condição de sair e ir pra um parque fazer exercício? Quantos dos moradores de São Paulo, por exemplo, podem ir ao Ibirapuera, ou têm à sua disposição um parque próximo para frequentar? Quantos possuem o mais básico, o tempo pra se dedicar a isso, em meio à rotina, aos deslocamentos pela cidade, aos compromissos profissionais e domésticos?

Como é na sua cidade? Os bairros mais afastados possuem praças (eu disse praças, espaços cuidados pelo poder público, não terrenos baldios!) disponíveis e em bom estado?

Quem sai pra correr, caminhar ou pedalar na rua encontra condições pra isso – e aí eu falo de sinalização, qualidade do calçamento, apoio estrutural no trânsito, segurança (as moças podem confirmar que uma das preocupações constantes é se vai aparecer algum cretino pra assediar, ameaçar – lembrando que o assédio não tem a ver com beleza, com a roupa, com a atividade que se desenvolve, nem com atração sexual, tem a ver com a intenção do assediador de intimidar, de demonstrar poder)? A pessoa que quer se exercitar mas não tem tempo e/ou dinheiro (sim, tem quem não possa pagar uma academia, mesmo baratinha, e sim, imagina a pessoa que faça jornada dupla ou tripla de trabalho/trabalho doméstico, ela tem tempo sempre?) encontra algum tipo de suporte, de estrutura pública pra isso, ou só vai lá no posto de saúde se consultar e levar fumada do médico porque “não faz atividade física”? Existem programas municipais, estaduais e federais que efetivamente promovam a atividade física pra população que não tem acesso a um aparato particular, a acompanhamento mais personalizado?

Fica aqui a cutucada então. Vamos pensar sobre isso, vamos debater o assunto?

Até a próxima!

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Sou bibliotecária, mãe, leitora, projeto mal-acabado de rabiscadora, de nadadora e de corredora também. Acho que a vida sem movimento - do corpo ou da mente - vale mais a pena.