Se mantidos para 2018, goleiros de Dunga serão os mais velhos da seleção em Copas

Rafael Ribeiro/ CBF

O técnico Dunga anunciou nesta terça (5) a convocação dos 23 jogadores para a Copa América de 2015 com algumas surpresas. Mas no gol, nenhuma novidade apareceu. Os nomes de Jéfferson, Diego Alves e Marcelo Grohe são os mesmos que estiveram com o treinador nos dois únicos amistosos neste ano, contra França e Chile, em março. Presença certa hoje na seleção, o trio chama atenção pela idade elevada e, caso permaneçam até a Copa de 2018, serão os goleiros mais velhos que o Brasil já teve na história dos Mundiais.

A elaboração do elenco de uma seleção na virada de ciclo para a Copa envolve critérios retrospectivos e pontuais, de acordo com a necessidade. Alguns setores, porém, carregam historicamente fatores específicos de planejamento. Desde quando a regra de três goleiros por plantel foi adotada, em 1970, a escolha para a posição passou a considerar também o futuro, traçando um prognóstico e já esboçando quem seria útil no torneio seguinte. Assim, se tornou comum usar uma das vagas para um goleiro mais jovem.

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A aposta em alguém abaixo dos 25 anos para uma Copa do Mundo não é meramente um fator etário. Quase sempre espectador de jogos e até torneios inteiros, o suplente no gol mais aproveita a experiência e vivência no evento do que o ritmo competitivo das partidas. Posição de confiança do treinador e da torcida, o goleiro com esse perfil se ambienta e é respaldado com o debute no torneio internacional como realidade por vir na, deixando em aberto a possibilidade para traçar uma carreira com a seleção.

Projetar selecionáveis em longo prazo foge, muitas vezes, da simples escolha técnica. Pressionado por resultados imediatos e sempre muito questionado pelas escolhas que faz, o treinador da seleção brasileira deixa e não se dedica a experimentar peças. Em virtude da própria cabeça e de sua reputação, põe de lado a idealização ampla de desenvolvimento e sequência do futebol no país.

À primeira vista, Dunga se apegou no pouco apelo que outros nomes tem à camisa 1. A análise atual da meta brasileira se origina, inevitavelmente, nas escolhas do próprio treinador para a Copa da África do Sul, em 2010. Na ocasião, as três opções beiravam os 30 anos de idade – Gomes era o único ainda com 29, sendo dois deles estreantes em Copas do Mundo mesmo já experientes. Totalitariamente renovada após a África, a posição foi transitada por muitos nomes sob o comando de Mano Menezes até a volta de Júlio César. No Mundial-para-se-esquecer, no ano passado, os goleiros escolhidos também eram já bem rodados.

A falta de legado debaixo das traves ficou exposta na lista da Copa América deste ano – a lista completa, você pode conferir aqui. Com 32 anos completos em janeiro, Jéfferson permanece de 2014 e teve grandes atuações nos amistosos preparatórios. A combinação com os perfis dos outros dois convocados, entretanto, evidencia a despreocupação com o futuro. Se mantida até a Copa do Mundo de 2018, a junção do jogador do Botafogo com Diego Alves, de 29 anos, e Grohe, 28, tornaria o trio o mais velho que o Brasil já teve em Mundiais, como mostra a tabela abaixo. Acompanhe:

Copa (local):

Média de idade dos goleiros:

Goleiros do elenco

(idades nas Copas):

1-

2018 (Rússia)

32,67*

Marcelo Grohe (31)
Diego Alves (32*)
Jéfferson (35)

2-

1962 (Chile)

32,5 anos

Gilmar (31)
Castilho (34)

3-

2014 (Brasil)

32 anos

Jéfferson (31)
Victor (31)
Júlio César (34)

1966 (Inglaterra)

32 anos

Gilmar (35)
Manga (29)

5-

1986 (México)

31,33**

Paulo Victor (28**)
Carlos (30)
Émerson Leão (36)

6-

1994 (EUA)

30,67 anos

Taffarel (28)
Zetti (29)
Gilmar Rinaldi (35)

7-

2006 (Alemanha)

30,33 anos

Júlio César (26)
Dida (32)
Rogério Ceni (33)

8-

2010 (África do Sul)

29,67 anos

Gomes (29)
Júlio César (30)
Doni (30)

9-

1958 (Suécia)

28,5 anos

Gilmar (27)
Castilho (30)

10-

2002 (Coréia do Sul/Japão)

28,33 anos

Marcos (28)
Dida (28)
Rogério Ceni (29)

11-

1982 (Espanha)

28 anos

Carlos (26)
Paulo Sérgio (27)
Valdir Peres (31)

12-

1990 (Itália)

27,67 anos

Taffarel (24)
Zé Carlos (28)
Acácio (31)

1998 (França)

27,67 anos

Dida (24)
Carlos Germano (27)
Taffarel (32)

14-

1938 (França)

26 anos

Valter Goulart (24)
Batatais (28)

15-

1970 (México)

25,67 anos

Émerson Leão (20)
Ado (25)
Félix (32)

1978 (Argentina)

25,67 anos

Carlos (22)
Valdir Peres (27)
Émerson Leão (28)

17-

1950 (Brasil)

25,5 anos

Castilho (22)
Barbosa (29)

18-

1974 (Alemanha)

25,33 anos

Valdir Peres (23)
Émerson Leão (24)
Renato (29)

19-

1954 (Suíça)

24 anos

Luiz de Morais (23)
Veludo (23)
Castilho (26)

20-

1930 (Uruguai)

23,5 anos

Oswaldo Velloso (21)
Joel (26)

21-

1934 (Itália)

21,5 anos

Pedrosa (20)
Germano (23)

Legenda: Sublinhados, os goleiros titulares nas respectivas Copas. Em itálico, aqueles que eram estreantes.
* Aniversariante de junho (dia 24), Diego Alves fará 33 anos durante a Copa da Rússia. Após isso, a média subiria para 33.
** Paulo Victor completou 29 anos após o segundo jogo do Brasil em 86, dia 07 de junho. O índice aumenta para 31,67.

Inspiração em 94, ‘experientes novatos’ e Jéfferson um dos mais velhos

A preferência momentânea de Dunga por arqueiros experimentados pode vir da sua época de jogador, com influencia direta de quem está ao seu lado na CBF. Na conquista da Copa de 94, maior glória da carreira do treinador dentro de campo, ele capitaneou um grupo que tinha goleiros bastante rodados, e dois deles fazem parte da equipe atual. Taffarel, preparador de goleiros, ia na época para o segundo mundial, aos 28 anos. Os suplentes, Zetti, ídolo no São Paulo, estava com 29, enquanto Gilmar Rinaldi, hoje coordenador da seleção, recebia a chance de estrear no torneio já em fim de carreira, aos 35 anos de idade.

Projetando a permanência até 2018, o conjunto formado por Jéfferson, Diego Alves e Grohe seria o primeiro em que todos teriam mais de 30 anos e nenhum jogo como titular no torneio. O Brasil jogou as quatro primeiras edições com goleiros titulares que debutavam em Copas do Mundo. A partir disso, somente em 1970 – início do uso de dois reservas por delegação, o time brasileiro levou todos com nenhuma rodagem. No entanto, nos cinco casos a média das opções eram bem mais baixa, com margem para a manutenção de um ou mais nomes.

Provável titular no Chile, Jéfferson pode ser na Rússia o terceiro goleiro mais velho da seleção na história. O líder no quesito até hoje é Émerson Leão, reserva de Carlos no México-86 aos 36 anos, 10 meses e 19 dias.  Atrás dele, Gilmar dos Santos Neves despediu-se na Inglaterra com 35 anos, 11 meses e 04 dias.  O capitão do Botafogo terá na data prevista para o início da Copa da Rússia-18 35 anos, 05 meses e 12 dias, ultrapassando o próprio Rinaldi, terceiro suplente na conquista nos Estados Unidos, com 35 anos, 05 meses e 04 dias.

Alternativas nem tão jovens e falta de espaço nos clubes

Dentre os selecionáveis atuais na Copa América, poucas opções baixariam o índice etário dos convocados. Nome bem cotado até então e que já fez parte de outras listas de Dunga, Neto está atualmente com 25 anos (na Rússia, estará prestes a completar 29). Outro sempre citado como renovação na posição, Rafael Cabral saiu dos planos após falhas no Napoli, que lhe renderam o posto de titular para Andújar. O ex-santista de 24 anos chegaria à próxima Copa também aos 28.

Pouco testado mas sempre lembrado pelos corintianos, Cássio é da mesma geração que Grohe: tem 27 anos e em 2018 fará 31, o que manteria a média alta. Se Neto ou Rafael fossem um dos incluídos na lista da Copa América – na vaga do gremista, o valor médio dos goleiros baixaria um pouco: 31,67 – o quarto na tabela histórica. Nomes citados, Paulo Victor, do Flamengo, estará com 31; jovem, Tiago Volpi surgiu bem em 2014 pelo Figueira e fará 28, mas é pouco lembrado hoje por atuar no futebol mexicano.

As poucas novidades na posição no futebol brasileiro contribuem para que a carta de nomes de Dunga seja limitada. Somente quatro goleiros nos 40 clubes das séries A e B têm menos de 23 anos: Alisson Becker, do Inter, surge como a melhor opção jovem na meta brasileira. Aos 22 e com passagens pelas seleções de base, ele terá apenas 26 daqui a quatro anos. Matheus Inácio, da Ponte Preta (27 na Rússia), Luan Polli, do Figueirense (terá 26) e a boa novidade Jean, do Bahia (22 em 2018) são os outros. O problema atinge também a seleção olímpica. Na busca por um goleiro que atue com regularidade, Gallo tem encontrado problemas para encontrar essa peça.

O cenário envelhecido dos goleiros no Brasil obrigaria, portanto, arriscar um nome menos conhecido caso buscasse a renovação. Dentre os nomes a surgir bem em pouco tempo, é possível apontar Matheus Magalhães, atualmente com 22 anos, do Braga, e Gabriel Ferreira, também 22, emprestado pelo Milan ao Carpi-ITA, além de Éderson Moares, 21 hoje, que joga no Rio Ave-POR. Se nos próximos anos os clubes do futebol nacional não apresentarem a renovação necessária, caberá a Dunga pinçar e encorpar talentos no gol do Brasil. Do contrário, após a Copa da Rússia o Brasil a busca pelo camisa 1 começará do zero.

(Foto: Rafael Ribeiro/ CBF)



Jornalista formado pela Fiam-Faam (2016), começou a acompanhar futebol de base a partir de 2007. Colaborou para o site Olheiros.net, foi setorista do Jornal Guarulhos Hoje e trabalhou na Press FC Assessoria e na Revista Palmeiras. Escreve para o Torcedores.com desde 2015.