No Brasil, todo goleiro é bicha? Por que as torcidas insistem em ‘brincar’ com isso?

Rogério Ceni
Getty Images

Em primeiro lugar, a escolha da foto que ilustra este artigo não é uma tentativa barata de provocar os amigos torcedores do São Paulo ou próprio Rogério Ceni. Minha ideia é tentar fisgar justamente quem chama o goleiro de bicha e chamar para a discussão sensata.

A cena já é bem comum em praticamente todos os estádios do Brasil. Basta uma bola recuada ou uma cobrança de tiro de meta para o goleiro ouvir a torcida adversária em peso gritar “OOOOOO BICHA”!

O leitor mais atento e com memória mais aguçada pode me corrigir nos comentários se eu estiver errado, mas creio que tudo isso começou em um Corinthians x São Paulo, em 2014, ainda no Pacaembu, com Rogério Ceni sendo “homenageado” pela torcida corintiana. De lá para cá, a prática também ganhou a nova arena do Corinthians e o clube até foi ameaçado de punição por homofobia, mas acabou não dando em nada.

De tanto não dar em nada, o “OOOOOO BICHA” virou ofensa para o goleiro do Palmeiras, do Santos, do Bragantino, do Grêmio e para qualquer goleiro do Brasil. Ao ver seu arqueiro passar por isso, o torcedor sempre encontra um próximo adversário para descontar sua raiva homofóbica. E aí nasceu uma das piores modas que nosso futebol inventou.

Mas chamar o goleiro adversário é homofobia? Em tese, não. Na definição literal da palavra, homofóbico é aquele que tem aversão ou rejeição a homossexualidade. E até onde sabemos, nenhum goleiro do futebol brasileiro é homossexual. Na prática, o argumento é bem furado, pois a carga de ódio no uso da expressão “bicha” é a mesma. É um xingamento, uma ofensa, como quem aponta um erro. Como se ser gay fosse um erro… No fim, dá na mesma.

Tente assistir sem perceber a conotação de ódio:

 

E se Rogério Ceni fosse gay? Ele seria menos M1TO? Ele deixaria de ser o maior artilheiro do São Paulo em Libertadores e um dos maiores ídolos do clube? No que depender do seu talento, certamente não. Mas é claro que a cultura machista do nosso futebol não daria as mesmas oportunidades caso fosse homossexual.

Chamar uma pessoa daquilo que ela realmente é só vira xingamento quando é carregado de um tom pejorativo. Usar o homossexualidade como um xingamento a um rival hétero é dizer que aquilo é errado, que deve ficar longe? E como fica o torcedor gay ao ver sua característica usada pejorativamente? Pois é, afastado também. Me parece bem bizarro usar um xingamento que pode ofender outro torcedor do seu próprio time.

Bem sabemos que a torcida do tricolor paulista é que mais sofre com as piadinhas de cunho homofóbico. Também sabemos muito bem que o são-paulino é, de longe, o que mais sabe contar vantagem de suas conquistas e se vangloriar por seus ídolos. Chega a dar raiva, soa arrogante. E eles souberam muito bem criar uma resposta para a provocação criando o “OOOOOO MITO” quando Ceni pega na bola. Seria a resposta mais inteligente possível se também não fossem homofóbicos quando o goleiro adversário cobra um tiro de meta. De vítima a agressor, o são-paulino perdeu a oportunidade de sair dessa por cima.

Temendo aquela punição, o Corinthians logo correu para criar um manifesto de conscientização do torcedor contra as práticas homofóbicas. Mais uma vez não deu em nada. Só reforçou a vontade de torcedores de outros times fazerem o mesmo.

E isso é uma pena para o nosso futebol como um todo. Há quem diga que o futebol moderno é muito chato, que há uma patrulha do politicamente correto, que não é mais possível brincar e provocar o rival. De fato há um exagero na patrulha, mas ela só existe porque algumas manias ainda teimam em atrasar nosso futebol.

Sei que estádio é um lugar em que a realidade parece ser outra… outro mundo em que extravasamos sem pudor. E falta de pudor revela muito sobre o que realmente somos. Então fica meu pedido: por favor, parem com isso!

PS: Para entender a motivação do xingamento no futebol e sua delicada relação com o preconceito e racismo, recomendo o texto “Por que “bicha” é xingamento?“, do meu amigo Leandro Beguoci, para o Trivela.

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Flávio Moreira é jornalista especializado em mídias sociais. Com passagens por UOL e Electronic Arts, é apaixonado por esporte e acredita na produção de conteúdo feito de torcedor para torcedor.