Um Inter enfartante e enlouquecedor

É inegável que a partida do Inter contra o Atlético-MG tenha mexido com todo apaixonado pelo bom futebol. O resultado foi tão somente a última linha na ata dessa reunião que resultou em um jogo incrível, pensado e desempenhado com um índice de qualidade superior a um ISO ou qualquer outro desses selos que distribuem por aí.

 

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Aguirre novamente surpreendeu o torcedor colorado mostrando uma sapiência uruguaia típica dos que pouco falam e muito estudam. Mostra conhecer o grupo do Internacional muito mais do que grande parte dos que já estavam do lado de cá da divisa com o Uruguai.

A partir de Ernando improvisado na lateral esquerda e Alex ajudando Jorge Henrique a fechar o meio-campo, o colorado foi premiado com um gol de Lisandro López logo cedo, após uma bobagem daquelas de jogo de final de semana depois que a bola foi atrasada pra Victor.

Mesmo vendo empate chegar logo aos 16 do 1º tempo, num rebote que passou milimetricamente por debaixo das pernas da zaga colorada e enganou Alisson, o time não se deixou levar pelas investidas de Luan pela direita que buscava Pratto o tempo inteiro na entrada da área defendida por Alan Costa e o velho senhor Juan.

Permitam essa linha em homenagem ao que esse senhor conhece como poucos os atalhos entre a pequena área e o círculo central. Faz em 2015 suas melhores participações com a camisa vermelha. Atalhos e carrinhos quase sempre utilizados de maneira correta.

Nem o estouro seco do chute na trave de Alisson nos fez perder o encantamento no primeiro tempo. O Inter sacudia o Horto e sobrevivia ao mito de que os times geralmente não obtém sucesso no campo mineiro.

Mas a mágica não terminaria somente em resistir. Ela começou a acontecer quando D’Alessandro voltou para o segundo tempo ainda com o colete de reservas. Do banco, assistiu o Inter recomeçar a partida um pouco sonolento, colocando em risco a área colorada com rebotes devolvidos de graça para o Galo e desatenções em cobranças de lateral.

O Inter dava sinais de que pudesse marcar gols no Estádio Independência por um simples motivo: as reposições de Alisson. Inteligente como poucos arqueiros contemporâneos na Série A do Brasil, sempre harmoniza com olhar clínico a necessidade de sair rápido ou segurar o jogo. E o jovem goleiro resolvera esquecer uma eventual cera e dominava a bola com as mãos se propondo a buscar Willian e Aránguiz como seus primeiros alvos ou ainda investir em Sasha e Lisandro com os pés. Ali deu pra entender que Aguirre tinha planos maiores pro Inter.

Aos 15, o técnico uruguaio colocou em prática a segunda parte do seu plano de segurar ao máximo seu time e cansar o meio-campo mineiro pra depois sim tentar a vitória. E era hora de arriscar mais.

Quando D’Ale despiu-se do colete amarelo que não parece combinar com sua grandeza no futebol e Valdívia chacoalhou as melenas pela última vez antes de pisarem em campo, foi impossível não se sentir dominado por uma certeza de que não nos contentaríamos com menos do que buscar a vitória.

Logo na primeira bola da dupla no jogo, D’Ale fez a pelota viajar silenciosamente até quase a linha de fundo onde encontrou a cabeça de Alan Costa. Desviada pro meio da área, coube ao PokoPika meleneá-la pras redes de Victor.

E a partir daí quase tudo se transfigurou em mais suor, correria e marcação. Os minutos seguintes foram absurdos, passando pela entrada de Alan Ruschel até os chutes intermináveis contra Alisson, que havia decidido se tornar uma parede, uma muralha. Chute e defesa, chute, trave e defesa. A sorte geralmente acompanha quem é competente no que faz.

Os três últimos minutos do jogo pareciam semanas. Conseguia lembrar da final da Libertadores contra o São Paulo, no churrasco falando sobre futebol com os amigos, o horário de acordar no dia seguinte. Viajava no meu pensamento pra lá e pra cá pra tentar me distrair e: 20 segundos a menos no cronômetro.

No último lance, um minuto além do tempo estipulado pela arbitragem, no chute derradeiro da partida, Leonardo Silva conseguiu trazer o Atlético de volta à vida na Libertadores com um petardo, um estouro em direção ao gol de Alisson na confusão dentro da área.

Ainda consigo imaginar a reação de cada secador em casa, cada pulo, cada grito, cada soco no ar. Também consigo supor todos os colorados que gritaram “nãããão” ou que se indignaram com a última investida ter sido coroada com um gol de empate.

Ter marcado dois gols fora de casa ainda que o resultado tenha sido o empate é uma grande vantagem para a partida de volta.

Foi assim que conquistamos o Gauchão. É com esse espírito que jogamos mata-mata. Se a vitória é um sonho quando se joga mata-mata no campo adversário, um empate com gols é meia-vitória e merece ser celebrado também.

O Inter de 2015 é enfartante e enlouquecedor. Causa as frustrações mais incríveis e os delírios mais sinceros revestidos de loucura em quem é colorado.

Nenhuma estouro de bola nas nossas traves é mais estrondoso do que a nossa vontade de vencer.

Continuamos dispostos a abrir a caixinha de surpresas que é o futebol.

 

Foto: Alexandre Lops/Site Sport Club Internacional



Futebol e corneta sem esculhambar paixões.