Opinião: Futebol de verdade precisa sobreviver à “Geração David Luiz”

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Domingo, 28 de junho de 2015. São Paulo, 16h. No Allianz Parque, Palmeiras e São Paulo entram em campo para mais um clássico no Campeonato Brasileiro, diante de quase 30 mil pessoas. A alguns quilômetros dali, a seleção brasileira eliminada nas quartas de final da Copa América desembarcava após mais um vexame. E, pelo que relatam os colegas da imprensa que lá estavam, o zagueiro David Luiz foi parado pela torcida e posou para tirar fotos.

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Sim, o estabanado zagueiro do 7 a 1, o ícone das canetas de Luis Suárez na Liga dos Campeões da Europa, é idolatrado mesmo após mais um vexame da seleção brasileira. É bem verdade que, desta vez, ele não teve culpa, mas a soma de fatores é um desastre. Ninguém dessa seleção merece tratamento assim neste momento.

Parece que nós só sabemos radicalizar. Ou idolatramos os ícones do maior vexame de todos os tempos, ou condenamos eternamente, como fizemos com Barbosa, o goleiro do Maracanazo de 1950 que morreu magoado e jamais perdoado pela torcida por ter tomado o gol que impediu aquele que seria o nosso primeiro título mundial. Ninguém quer tratamento semelhante a David Luiz, Thiago Silva, Fernandinho e aos outros jogadores da atual geração. Mas exaltar essa gente é cuspir na camisa da seleção brasileira. O melhor remédio é ignorá-los.

Voltando ao Allianz Parque, o Palmeiras ali fazia dois gols no primeiro tempo em um jogo bastante movimentado. As duas torcidas se provocaram, cantaram gritos de guerra para seus times, apoiaram e incentivaram. Cada um dos 30 mil ali tem no Palmeiras ou no São Paulo o clube de seu coração. Herança de família, afinidade da infância, vários são os motivos. Ali estava o que restou do futebol de verdade, mesmo que duramente atacado pela cultura das novas arenas, do torcedor sentado, da alimentação cara, do jogo como “evento”. Mas dava para sentir o espírito da rivalidade, o sangue nos olhos de quem queria derrotar no campo o seu rival.

Enquanto isso, a turma do futebol espetáculo, aquela que vaiou o Fred do Shakthar num amistoso da seleção brasileira porque pensou que fosse o Fred do Fluminense, estava tietando David Luiz. Provavelmente é a turma da moda, a turma que torce pelos times europeus, que se encanta com o futebol da ~Champions League, mas não vê mais graça nas rivalidades daqui, onde nascemos e vivemos. A geração que pode ser chamada de “Geração PlayStation”, “Geração 7 a 1”, ou, como eu prefiro a partir de agora, a “Geração David Luiz”.

Não fomos cruéis com o atual treinador da seleção quando batizamos a Copa de 1990 como “Era Dunga”? Agora temos o oposto. Temos a complacência com Thiago Silva, outro zagueiro supervalorizado, igualmente estabanado, e que complica a seleção em momentos difíceis. Mas os gritos de “mercenário” da “torcida” no aeroporto, de novo segundo os relatos, foram para Roberto Firmino, que a grande maioria sequer conhecia antes da Copa América. Dunga, que não escalou Bernard e nem tomou sete gols da Alemanha, mas espalhou uma frase de cunho racista em coletiva, também foi xingado, mais pelo que representa do que pela eliminação.

O Palmeiras terminou o clássico com goleada por 4 a 0. Nós, que estávamos lá torcendo pelo time do nosso coração, aquele que veio dos nossos famíliares, avós, pais, tios, primos, vimos um momento mágico que é um massacre sobre um arquirrival. Os são-paulinos que lá estavam, com muita honra, cantaram até o final e não desanimaram com mais uma derrota no Allianz Parque. O time segue vivo no Brasileirão. Esse é o futebol de verdade, o futebol que será tema das zoeiras nesta segunda nas escolas e nos locais de trabalho.

Se você não vê mesmo graça nisso, que seria igualmente significativo se fosse um 4 a 0 para o São Paulo, ou o mesmo placar para o Verdão no Morumbi, então o futebol não deve ser para você o que é para nós, os 30 mil. Mais que isso, os milhões que torcem pelos clubes brasileiros. Porque nossas rivalidades surgiram nas nossas casas, “nas escolas, nas ruas, campos, construções”, e não em um jogo de videogame, muito menos na tela de um canal fechado. O futebol de verdade se sente desafiado em tempos difíceis. Temos que vencer a Geração David Luiz.

Foto: Reprodução/Instagram



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.