CHORANDO NO CAMPO

Mauro Beting dá recado para quem desconfia de Dracena no Palmeiras; veja
Reprodução

O futebol já me fez chorar de todos os jeitos. E você também.

A maior alegria foi meu maior choro atrasado, em 12 de junho de 1993. Palmeiras 4 x 0 Corinthians. Eu já comentava pela Rádio Gazeta. Passei 16 anos sem gritar é campeão. E fiquei mais duas horas e meia para gritar depois de sair do ar. E entrar pelos ares.

Choro atrasado. De alegria.

Aqui vou chorar o que não chorei então. Atrasado.

25 de novembro de 2012, 10h50, quarto 1165 do Hospital Albert Einstein

– Ele está rebaixado!

A doutora é mineira. Mas palmeirense. Como milhões pelo Brasil. Como a única dos bilhões de seres realmente mortais que poderiam cuidar de meu pai naquela manhã de domingo, 25 de novembro.

– Ele está rebaixado!

A médica que cuidava de meu pai desde o começo de setembro no hospital insistia para um monte de médicos, enfermeiros e profissionais que estavam no quarto 1165 do centro médico de excelência que fica a alguns metros do estádio do Morumbi. Onde, em 20 de fevereiro de 1974, no cangote de Joelmir José Beting, eu vira pela primeira vez no estádio o nosso Palmeiras campeão. Bicampeão brasileiro de 1973.

Naquela noite mágica no Morumbi eu estava com minha mãe Lucila e meu irmão Gianfranco, dois anos e nove meses mais velho. Gigio para os íntimos que estava a trabalho em Los Angeles naquela manhã de domingo de novembro de 2012. Deveria ser umas 11 horas. Mas o tempo parecia parado. Perdido. Como o olhar do meu pai que a equipe médica tentava acordar.

– Ele está rebaixado!

A doutora repetiu pela terceira vez. Eu não aguentei.

– Doutora, mas ele já foi rebaixado no domingo passado…

Ela me olhou não com a condescendência pela piada infame e despropositada. Mas com a gravidade do esgar que poderia esganar pelo momento delicado pelo qual meu pai passava. Que eu e minha mãe a mim abraçada não podia imaginar. Por não poder suportar.

O meu pai já havia sido rebaixado na tarde de domingo de 18 de novembro de 2012. Uma semana antes daquela manhã tensa no quarto 1165. O Palmeiras precisava vencer o Flamengo em Volta Redonda para ainda seguir respirando por aparelhos no Brasileirão de 2012. Sem 12 jogadores lesionados (um recorde), com um elenco limitado e reduzido, nosso time ainda perdeu mais dois machucados com a bola rolando. Até abrir o placar com o improvável Vinicius, num frango do goleiro rubro-negro. Maikon Leite poderia ter feito 2 a 0. Até o 3 a 0. Mas perdeu os gols que o Flamengo nos concedeu. Até que, no último chute rubro-negro, o Vagner Love que viera de nossa base chutou uma bola que bateu em Roman e entrou para a história. E nós pelo tubo e pelo túnel do tempo. Rumo à Segundona dos infernos. Pela segunda vez.

O Palmeiras estava rebaixado em 18 de novembro. O meu pai, uma semana depois, em 25 de novembro, estava “rebaixado” no nível de consciência, pelo diagnóstico da doutora que o encaminhava para a tomografia no segundo andar. Segundo…

Eu não falara com meu pai a respeito do rebaixamento. Ficara uma semana calado. Até por que queria poupá-lo do dissabor amargo. Como fizemos ao não atender o convite da “Folha de S.Paulo”, feito no sábado, 10 de novembro, 15h58, pelo editor Alexandre Nobeschi. Ele convidara Joelmir Beting a escrever um texto a respeito do Palmeiras – se rebaixado.

Respondi em nome da família: “Alexandre, meu pai está no hospital se recuperando de uma doença autoimune. Como o time dele, vai levar meses para se recuperar. Ele ganha uma, perde quatro, mas vai sair dessa. Muito grato pelo convite. Meu pai ficou bastante sensibilizado e honrado, mas não tem como. Valeu. E, de coração, espero que não saia o texto.”

O Palmeiras escapou de cair no dia seguinte ao convite da “Folha de S.Paulo”. Perdeu para o Fluminense em Presidente Prudente por 3 a 2. O Flu ganhou antecipadamente o Brasileirão naquele jogo tórrido. Nós ganhamos uma sobrevida pelos resultados combinados. Mas sabíamos que seria muito difícil nos recuperar. Como foi impossível no domingo seguinte, quando só empatamos com o Flamengo, no Rio. Como foi insuportável na segunda seguinte (ops, no Day After seguinte…) a coluna de quem substituiu meu pai na “Folha de S.Páulo”.

Clovis Rossi, respeitabilíssimo colega, brilhante repórter, grande colunista, em resumo, disse que trocaria o Palmeiras doente e feio pelo belo Barcelona de Messi… No espaço que meu pai, doente e não tão bonito pela doença debilitadora, não quis ocupar. Para não ser a Nana Gouvêa palestrina.

(Explico: as últimas risadas que ouvi do meu sempre alegre pai foram as fotos que a modelo brasileira tirou durante a desgraça e devastação do Furacão Sandy na querida Nova York do seu Joelmir. Ele ria muito da repercussão das fotos montadas e mostradas pela internet. Como Nana no gramado no Maracanazo em 1950, Nana no 11 de setembro, e outras montagens de gosto menos detestável que a da modelo que adorara as montagens dela ao lado de Darth Vegan – A versão de Nana Gouvêa para o célebre vilão de “Guerra nas Estrelas”…)

Em vez de um Joelmir convalescente, na Folha escreveu um “ex-palmeirense”. Se é que existe isso. Se é que Clovis realmente estava bem das bolas ou mais parecia um dos tantos jogadores e dirigentes que levaram o Palmeiras àquele caos em um ano em que ganhara invicto a Copa do Brasil, em julho, e terminara novembro sendo rebaixado com duas rodadas de antecedência.

No meu blog, no Lancenet!, escrevi para Clovis. Com quem não quis conversar no dia seguinte, ao vivo, no Foxsports. Com quem reagi de modo infantil. Mas mais maduro que o torcedor de resultados que ele admitiu ser como um quinta-colunista palmeirense:

“Quem ama não mata”

Quem ama cuida. Na alegria da Academia, na dor de qualquer divisão.

Quem torce pelo time da hora e da onda é o leitor de best-seller, é quem só assiste a blockbuster, é quem só ouve o primeiro lugar na parada.

Não é o caso do Clovis Rossi, claro. Sujeito brilhante, jornalista respeitabilíssimo, que viveu na Espanha, e que, como eu, ama o TIME do Barcelona. Não necessariamente o clube.

Natural.

Mas torcedor que deixa de torcer não é normal.

Não é torcedor.

(Perdão, amigos de todos os credos e cores, pelo meu desabafo a respeito do desabafo de Clovis na Folha de S.Paulo desta segunda-feira a respeito do meu desabado time – não mais o dele.

Vou tentar desabafar com o respeito que o colega não teve com o Palmeiras e com os palmeirenses. Pior: com os torcedores de qualquer clube.

Muito da minha dor tem a ver por Clovis ter escrito no espaço que o jornal havia convidado meu pai para escrever.

Seu Joelmir não pôde escrevê-lo nesta segunda dos infernos. Está hospitalizado. O que me deixa ainda mais irado a respeito de um texto inteligente – como de hábito de Clovis. Irônico, até, com humor palestrino típico. Mordaz. Mordido. Corneteiro. Exigente. Intolerante.

Um brilhante jornalista que virou um quinta-colunista torcedor, que faz troça quando troca de paixão. Ele merece respeito. Jamais compaixão.

Espero que ninguém da família dele fique “doente e feio” para que ele não o troque por alguém belo e jovem. Espero que ele não venha ao meu velório para fazer piadas infelizes. Ele só parece gostar de quem ganha, não de quem joga, de quem perde, de quem empata, de quem vive.

Espero que ele ainda possa ter algum amor na vida. Por que dos poucos incondicionais ele perdeu. Nem Paolo foi uma arma Rossi tão letal quanto o único ex-palmeirense que conheço. Se é que um dia ele foi.

O que ele disse não pode ser dito nem para o travesseiro. Muito menos escrito para um jornal. Nem sob violenta emoção. Jamais como um jornalista profissional e um amador palmeirense.

Uma pena. Clovis seria entrevistado nos filmes que roteirizo e dirijo do Palmeiras. Uma pena.

Permita-me, caro colega, ser igualmente baixo e indigno expondo as minhas entranhas que suas estranhas explanações atropelaram e dilaceraram.

Ciao, bello!

E me desculpo com os torcedores de derrotas e empates por não ter mais argumentos rasteiros para desabafar contra o mais estúpido desabafo já feito por um torcedor inteligente. Mais inteligente que torcedor, certamente, caro Clovis.

Espero que você ainda possa encontrar o amor que você acabou de perder com minha admiração).”

Foi esse o texto do meu blog, na segunda-feira, a primeira depois da queda. Uma semana antes de meu pai perder a consciência. Mas ainda ser mais palmeirense que o colega que o substituiu.

25 de novembro, 13h15. Ou 13h20. Não sei

Meu pai desceu “rebaixado” para fazer a tomografia. Minha mãe e eu só percebemos a gravidade do estado quando saímos do elevador. A equipe médica acelerou com a maca. Nós fomos andando devagar atrás dele, velozes como um Daniel Carvalho fora de forma. Conversamos sobre a vida. Sobre nós. Sobre ele. Sobre família. Sobre curas. Sobre o tal do “rebaixamento” dele. Rimos. Como costumamos rir de nós mesmos na família Beting. Uma que não se leva muito a sério. Por que mais risível é quem se leva muito a sério nesta vida.

Vida que começamos a perder minutos depois quando chegou o professor Antonio Carlos. O corintianíssimo médico que cuidava do meu pai e diagnosticara em setembro a doença autoimune dele. Uma chatice que atacara os rins e, por tabela, os músculos do meu pai. Doença que podia ser controlada. Não curada.

Ele e meu pai mais falavam das patologias de ambos nas consultas diárias – Palmeiras e Corinthians. Meu pai se apresentava sempre como palmeirense patológico. Melhor: patogênico.

Mas, naqueles poucos minutos que foram muitos, o professor-doutor pouco esteve com meu pai na tomografia. Rapidamente nos chamou. Quando eu e minha mãe fomos ver as imagens do exame, meu pai passou já entubado para a UTI. Ouvi a palavra coma. Induzido ou não, não sei. Não quis saber.

Só sei que o profissional que sabia de tudo e estava confiante pela lenta recuperação do meu pai (coisa para meses…) já não sabia o que dizer. “Diagnóstico fechado” falou o doutor ao nos olhar e para a tela que mostrava a tomografia de um dos mais privilegiados cérebros que conheci. E que o Jornalismo começava a perder em definitivo naquele momento.

Doutor Antonio Carlos mostrou como era o cérebro normal, no monitor da direita. No da esquerda, foi apresentando o do meu pai. O que parecia uma imagem de uma mariposa escura em um cérebro “normal” havia virado um pântano acinzentado na imagem de Joelmir Beting, 75 anos. Um Acidente Vascular Encefálico acontecera horas antes. Podia ter ou não a ver com a doença autoimune. Podia ter acontecido enquanto meu pai trabalhava no Grupo Bandeirantes de Comunicação. Enquanto jogava tênis no Clube Pinheiros com os amigos. Enquanto ficava com os quatro netos. Enquanto amava a sua Lucila por 49 anos de casado.

Mas acontecera naquela manhã, no quarto 1165. A mariposa “normal” de um cérebro não se via mais. Apenas a ponta da “asa” esquerda. O restante da imagem era de algo acinzentado. Disforme.

Derrame.

Professor Antonio Carlos explicou o que era. Derrame. A extensão do derrame. O que o derrame causava com os que (depois saberíamos) 125 ml de sangue derramados pelo cérebro. O doutor nos ensinava que drenar o derrame não daria resultado na situação dele. Que o derrame derrubaria qualquer recuperação. Que a milagrosa recuperação do derrame deixaria meu pai prostrado pela vida. Sem pensar. Sem respirar sozinho. Sem alimentar sozinho. Sem nada. Sem sonho. Só derrame.

Não derramei nada.

Minha mãe, guerreira, mais religiosa que muitos homens de Deus, também se segurou.

Derrame.

O meu pai estava pior que rebaixado na consciência e no campo. Meu pai começava a não estar mais entre nós.

Voltamos ao quarto 1165 para retirar nossas coisas. Nas próximas horas, no máximo em alguns dias, ele estaria na UTI. As semanas de hospital acabavam. O único conforto é que ele não mais sofreria. A esperança que crescia acabara.

Derrame.

Meu pai morreria.

No dia do primeiro jogo pós-rebaixamento. No primeiro domingo antes da Segunda Divisão. Palmeiras cheio de reservas e caras novas perdia para o lanterna igualmente rebaixado, naquela tarde ensolarada no Pacaembu. Dois a um para o Atlético Goianense. Jogo que comentei do estúdio da Rádio Bandeirantes. O derrame me derrubara. Fiquei até 14h45 no hospital. Levei minha mãe para a casa dela. Onde ela entrou pela primeira vez sem esperança. Apenas saudade. Deixei dona Lucila no quarto onde vivera 10 dos 49 anos de casada com Joelmir. Onde ela, pela primeira vez, deitou do lado dele na cama. Onde a deixei com as irmãs e sobrinhas e fui trabalhar.

Por que ao menos algo aprendi com meu pai no ofício. Trabalhar. Ele até pode matar em excesso. Mas, quando se faz o que se gosta, como ele, como eu, dói menos. E ajuda a recompor. Ajuda a confortar. Ajuda a ajudar.

Pena que o Palmeiras não estava ajudando a recuperação do meu pai. Ainda menos a minha naquela tarde em que, pela primeira vez, soube que meu pai não era para sempre. Mas ficaria eterno.

29 de novembro, quinta-feira, 1h15, estúdio da Rádio Bandeirantes

O São Paulo venceu a Universidad Católica, no Morumbi, pela semifinal da Copa Sul-Americana. Não consegui fazer a transmissão na cabine, ao lado de José Silvério, pela rádio Bandeirantes. Embora o estádio são-paulino fosse mais próximo do hospital onde meu pai estava internado, achei melhor respeitar a dor familiar ficando no estúdio. Às 14h30 daquela quarta-feira, o Albert Einstein divulgara que o estado de saúde dele era “irreversível”. Meu irmão já havia chegado dos Estados Unidos. A família estava perto. Meu pai estava pronto.

Manifestações de todo o Brasil chegavam à família desde segunda-feira, quando divulgamos o AVE e a gravidade do estado de Joelmir Beting, apresentador do Jornal da Band e do Bandeirantes Gente, na rádio. Ronaldo Fenômeno fazia preces. Políticos, artistas, gente de todo o Brasil e de fora oravam. Torciam. Por algo que sabíamos impossível e irreversível. Como o nosso time no final de 2012.

Palmeiras que ainda o animava nas últimas horas. Meu irmão e sobrinhas estavam com ele na UTI minutos antes. Disseram que as maquininhas a ele ligadas apitavam mais quando falavam para Joelmir dos netos e, sobretudo, do Palmeiras. Eu sei o que é isso. Ele passara a última noite da vida dele comigo e com minha noiva Silvana. Foi a única vez que ela esteve ao lado dele. Meu pai só queria conhecê-la quando estivesse melhor de saúde. Não deu. Ela fez questão de dar a mão a ele na UTI. Fez questão de dizer a ele do nosso amor e do amor que ela tinha pelos meus filhos. Ela também falou ser palmeirense. E as maquininhas batendo mais forte e apitando.

Tem quem não creia. Tem quem sabe que é assim. Eu acredito – mesmo sem saber. Por que é assim que é amor. É assim que se torce.

As duas coisas que mais aprendi com meu pai. Amor e Palmeiras. Isto é: uma só coisa.

Por isso escrevi, ainda na terça-feira, um texto para publicar em meu blog e em minhas colunas. Uma carta ao meu pai que estava praticamente pronta. Quando meu irmão me ligou 1h15 de quinta-feira. Eu e Milton Neves entrevistávamos Rogério Ceni, no vestiário festivo tricolor depois da classificação merecida. O craque-bandeira tricolor e o âncora da Bandeirantes soltavam farpas entre si. Amigo dos dois, vez ou outra eu tentava apaziguar. Na mesma hora que meu irmão me contava que, 0h55, Joelmir José Beting era história. Uma linda história de amor. Uma notícia de dor que eu precisava dizer para Milton anunciar na rádio logo em seguida, quando eu deixasse a transmissão.

Mas sou filho do rádio. Joelmir e Lucila se conheceram na Rádio 9 de Julho, em São Paulo, em 1960. Casaram em 1963. Meu irmão nasceu em 1964. Eu nasci em 1966. Filho daquele amor nascido no rádio. Onde eu tinha de falar que o jornalista do Grupo Bandeirantes de Comunicação havia morrido.

Logo que Rogério Ceni saiu do ar, chamei:

– Milton!

Ele parou de gargantear seus 435 merchandisings. Eu comecei a ler meu texto. Minha carta-despedida que deveria ser apenas escrita e editada na internet e jornal. Mas que acabou sendo lida pelo filho que anunciava a morte do pai. Na emissora onde ambos trabalhavam.

Milton e o operador da mesa de som logo sacaram o que acontecia. Subiram o Hino do Palmeiras no fundo, na versão do meu amigo Marcos Kleine, que Milton e eu ajudamos a divulgar em 2003, quando o Palmeiras voltara à primeira divisão. Um dos nossos técnicos entrou no estúdio onde eu estava sozinho para tirar uma foto minha. No momento exato em que eu me perdera na narração. Apertara o botão errado. O texto fora até o final da tela do computador. Eu estava ainda mais perdido. Gaguejei. Perdi o fio da meada. Improvisei qualquer coisa. Mas me reencontrei. E fui até o final lendo este texto que, na mesma tarde, no Senado, o amigo da família Eduardo Suplicy mal conseguiu ler, em lágrimas.

Só então, horas depois, eu chorei. Pelo que eu fizera. Melhor: pelo que meu me conduzira e iluminara na hora em que li isto:

Nunca falei com meu pai a respeito depois que o Palmeiras foi rebaixado. Sei que ele soube. Ou imaginou. Só sei que no primeiro domingo depois da queda para a Segunda pela segunda vez, seu Joelmir teve um derrame antes de ver a primeira partida depois do rebaixamento. Ele passou pela tomografia logo pela manhã. Em minutos o médico (corintianíssimo) disse que outro gigante não conseguiria se reerguer mais.

No dia do retorno à segundona dos infernos meu pai começou a ir para o céu. As chances de recuperação de uma doença autoimune já não eram boas. Ficaram quase impossíveis com o que sangrou o cérebro privilegiado. Irrigado e arejado como poucos dos muitos que o conhecem e o reconhecem. Amado e querido pelos não poucos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Meu pai.

O melhor pai que um jornalista pode ser. O melhor jornalista que um filho pode ter como pai.

Preciso dizer algo mais para o melhor Babbo do mundo que virou o melhor Nonno do Universo?

Preciso. Mas não sei. Normalmente ele sabia tudo. Quando não sabia, inventava com a mesma categoria com que falava sobre o que sabia. Todo pai é assim para o filho. Mas um filho de jornalista que também é jornalista fica ainda mais órfão. Nunca vi meu pai como um super-herói. Apenas como um humano super. Só que jamais imaginei que ele pudesse ficar doente e fraco de carne. Nunca admiti que nós pudéssemos perder quem só nos fez ganhar.

Por isso sempre acreditei no meu pai e no time dele. O nosso.

Ele me ensinou tantas coisas que eu não sei. Uma que ficou é que nem todas as palavras precisam ser ditas. Devem ser apenas pensadas. Quem fala o que pensa não pensa no que fala. Quem sente o que fala nem precisa dizer.

Mas hoje eu preciso agradecer pelos meus 46 anos. Pelos 49 de amor da minha mãe. Pelos 75 dele.

Mais que tudo, pelo carinho das pessoas que o conhecem – logo gostam dele. Especialmente pelas pessoas que não o conhecem – e algumas choraram como se fosse um velho amigo.

Uma coisa aprendi com você, Babbo. Antes de ser um grande jornalista é preciso ser uma grande pessoa. Com ele aprendi que não tenho de trabalhar para ser um grande profissional. Preciso tentar ser uma grande pessoa. Como você fez as duas coisas.

Desculpem, mas não vou chorar. Choro por tudo. Por isso choro sempre pela família, Palmeiras, amores, dores, cores, canções.

Mas não vou chorar por algo mais que tudo que existe no meu mundo que são meus pais. Meus pais (que também deveriam se chamar minhas mães) sempre foram presentes. Um regalo divino. Meu pai nunca me faltou mesmo ausente de tanto que trabalhou. Ele nunca me falta por que teve a mulher maravilhosa que é dona Lucila. Segundo seu Joelmir, a segunda maior coisa da vida dele. Que a primeira sempre foi o amor que ele sentiu por ela desde 1960. Quando se conheceram na rádio 9 de julho. Onde fizeram família. Meu irmão e eu. Filhos do rádio.

Filhos de um jornalista econômico pioneiro e respeitado, de um âncora de TV reconhecido e inovador, de um mestre de comunicação brilhante e trabalhador.

Meu pai.

Eu sempre soube que jamais seria no ofício algo nem perto do que ele foi. Por que raros foram tão bons na área dele. Raríssimos foram tão bons pais como ele. Rarésimos foram tão bons maridos. Rarissíssimos foram tão boas pessoas. E não existe outra palavra inventada para falar quão raro e caro palmeirense ele foi.

(Mas sempre é bom lembrar que palmeirenses não se comparam. Não são mais. Não são menos. São Palmeiras. Basta).

Como ele um dia disse no anúncio da nova arena, em 2007, como esteve escrito no vestiário do Palmeiras no Palestra, de 2008 até a reforma: “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível!”.

A ausência dele não tem nome. Mas a presença dele ilumina de um modo que eu jamais vou saber descrever. Como jamais saberei escrever o que ele é. Como todo pai de toda pessoa. Mais ainda quando é um pai que sabia em 40 segundos descrever o que era o Brasil. E quase sempre conseguia. Não vou ficar mais 40 frases tentando descrever o que pude sentir por 46 anos.

Explicar quem é Joelmir Beting é desnecessário. Explicar o que é meu pai não estar mais neste mundo é impossível.

Nonno, obrigado por amar a Nonna. Nonna, obrigado por amar o Nonno.

Os filhos desse amor jamais serão órfãos.

Como oficialmente eu soube agora, 1h15 desta quinta-feira, 29 de novembro. 32 anos e uma semana depois da morte de meu Nonno, pai da minha guerreira Lucila.

Joelmir José Beting foi encontrar o Pai da Bola Waldemar Fiúme nesta quinta-feira, 0h55.

29 de novembro de 2012

Com Silvana, minha noiva, cheguei ao cemitério Morumbi, onde meu pai foi velado até a missa das 13h30. Ao final dela, o padre Clemente puxou as palmas ao jornalista respeitado. Mais: à pessoa querida por muitos. Mais que qualquer um imaginava na família.

Quando as palmas cessaram, puxei o coro de “Palmeeeeeeeiras”. Entoado por muitos que ali estiveram. Mentalmente por muitos amigos de outras cores e credos futebolísticos que foram de verde ao velório. Homenageando o clube da família.

Sobre o caixão a bandeira do Pinheiros (onde ele fora conselheiro e sócio por 39 anos). A bandeira oficial do Palmeiras, ofertada pelo presidente Arnaldo Tirone. E uma bandeira verde e branca com “Verdão” escrito, trazida por dois dos milhões de palmeirenses que vieram homenagear um que sempre foi mais Palmeiras que gente, que jornalista, que pai.

No crematório, em Itapecerica da Serra, mais homenagens. Mais Palmeiras. À noite, nos telejornais, todos eles, sempre referências ao jornalista inovador no Jornalismo Econômico, apresentador, comentarista, mediador e palestrante de fala fácil. Na casa da família, na Bandeirantes, uma edição inteira do “Brasil Urgente” e do “Jornal da Band” reverenciando mais o amigo que o jornalista.

Como escrevi dias depois em meu perfil no Facebook, numa carta ao diretor de Jornalismo da Band e aos colegas que fizeram a edição em homenagem ao meu pai:

“Mitre e tantos amigos mais que colegas.

Só hoje escrevi para vocês por que só ontem consegui assistir â edição de quinta-feira.

Se pude dar a morte do meu pai ao vivo, não tive coração para ver o que vocês passaram com tanta emoção, alegria, competência, carinho, jornalismo, companheirismo, amizade. Com tudo que meu pai transbordou por 75 anos. Com tudo que vocês abordaram com abundante capacidade.

Se eu já não os admirasse, colegas, viraria fã. Se eu já não fosse o que sou há 25 anos, eu tentaria ser jornalista como vocês. Melhor: amigo e colega de vocês.

Foi no Jornal Bandeirantes, de 1975 a 1985, que tive a convicção de que queria ser o que sou. Foi na Band, em 10 de março de 1987, como produtor do Jornal de S.Paulo, que comecei. Foi no Jornal da Band em 1989 que comecei a namorar a produtora dele, Helen Martins, a mãe dos meus filhos. Foi no Jornal da Band que os netos do Joelmir viram pela primeira vez uma televisão. Foi na edição de quinta que meus três novos filhotes de minha noiva viram a dimensão do novo membro da família deles.

Foi nessa edição que meu amor Silvana chorou como a criança que eu voltei a ser vendo tudo de bacana que o homem Joelmir fez. Muito mais que o jornalista, vocês contaram ao Brasil que cara ele foi.

Tão bacana e para cima como vocês que editaram um jornal que meus netos verão e falarão: “Quero ser um jornalista tão legal quanto meu bisavô. Tão profissional e bacana como os colegas dele do Jornal da Band”

Obrigado, amigos.”

1º de dezembro de 2012, Vila Belmiro

Horas antes de meu pai nos deixar, Palmeiras e Adidas acertaram uma homenagem articulada por Erich Beting, jornalista esportivo, professor e especialista de marketing esportivo. Meu primo-irmão. Mais irmão-primo: ele é filho de Jusler, irmão de Joelmir, casado com Cecília, irmão de Lucila. Temos o mesmo sobrenome. Os mesmos avós. O mesmo sange. A mesma profissão – como a irmã Graziella.

No sábado, último jogo do Palmeiras na primeira divisão em 2012, os 11 titulares entrariam vestindo uma camisa verde confeccionada pela Adidas. Nas costas, o número 10, com o nome de Joelmir. Na frente, a célebre frase de meu pai, que de 2008 a 2010 esteve no vestiário do Palestra Itália:

Aquela que não preciso explicar aqui por não ser necessário a quem é, e impossível a quem não é.

Quando Erich me avisou da homenagem ao meu pai, na tarde de quarta-feira, chorei como eu chorara em 1993. Em 1999. Em tantas vitórias verdes. Como eu não chorei quando dei a notícia, horas depois, do que era inexorável quando Palmeiras e Adidas fizeram a homenagem.

Explicar a emoção… Bem, meu pai também seria melhor nisso.

Tanto que eu, meu irmão, a mulher dele Sharon (que conquistou de vez meu irmão ao conseguir ingressos para Palmeiras 6 x 1 Boca Juniors, na Libertadores de 1994), e minha noiva Silvana não cogitamos assistir ao jogo na Vila Belmiro em que o Palmeiras entraria vestido de Joelmir contra o Santos de Neymar. Seria muita emoção.

Mas tinha mais.

O presidente santista Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro decidiu homenagear meu pai. Em nome do Santos, gostaria de dar uma placa ao jornalista esportivo que, em seis de marçco de 1961, tivera a ideia de homenagear Pelé pelo fantástico gol que fizera contra o Fluminense, pelo Rio-São Paulo, na vitória por 3 a 1. Placa que geraria a expressão popular “Gol de Placa”. Placa que seria “devolvida” em 1999, quando Pelé deu a meu pai uma outra, agradecendo pela homenagem de 1961.

Resultado. Em 1º de dezembro de 2012, exatos 21 anos depois de eu começar no rádiojornalismo esportivo na Rádio Gazeta, exatos nove anos depois de eu começar a trabalhar na rádio Bandeirantes também como comentarista esportivo, o Palmeiras entraria em campo na Vila Belmiro com 11 camisas 10 Joelmir. No mesmo momento em que o Santos, pelas mãos de Neymar, daria a mim a placa em homenagem ao meu pai.

Minha noiva Silvana e a caçula Manoela estreavam em um estádio de futebol. Palmeirenses, a ex-mulher e a filha de um corintiano jamais haviam estado em um jogo do Palmeiras. Estrearam no camarote da Geo, na Vila, exatamente atrás da meta de fundo da Vila. Vendo o Verdão vestido de Joelmir, vendo eu conduzido pela colega Kamila Malinowski até o centro do gramado, onde fui me encontrar com Neymar, com os atletas enfileirados à minha frente, junto com os árbitros.

Lembro de tudo que fiz. Menos do que falei para Neymar (que, em 2013, teria a história dele e a do pai contada em livro por mim e por Ivan Moré. Menos do que ouvi dele. Comentando com Marcos a respeito, dias depois, na despedida do santo do futebol, ele definiu a situação:

– Bem vindo ao meu mundo, Mauro. Fiquei 20 anos sem saber o que dizia e o que escutava lá dentro do gramado. É assim mesmo!

Rimos muito. Mas, naquele momento de homenagem a meu pai feito por Palmeiras e Santos, tive a absoluta certeza que não só eu perdia uma grande pessoa. Não só os netos perdiam um grande avô.

As arquibancadas ficavam mais vazias de gente do bem. Que poderiam contrabalançar torcedores como o que insistiu em me xingar ao me vestindo a camisa que o Palmeiras fizera em homenagem ao meu pai. Se realmente um jornalista esportivo não deve vestir a camisa de seu time em público, pode e deve assumir essa paixão. Até para entender que alguém consiga xingar alguém que está sendo homenageado em nome do pai morte dois dias antes.

O torcedor me xingava bastante. “Palmeiras filho da puta” era a mais amena frase. A que respondi; “Pô, cara, meu pai morreu anteontem. Dá um tempo!”. E ele nem trégua deu.

É assim a paixão. Era assim meu pai. Cuja maior homenagem recebida em 55 anos de jornalismo foi a placa que Pelé deu a ele (em 1999) por ele ter dado a Pelé uma placa (em 1961).

Para todos escrevi agradecendo, em meu blog, o carinho desmedido:

“A maior homenagem em 75 anos de vida de Joelmir, 70 de Lucila, 48 de Gianfranco, 46 de Mauro, e na vida dos netos, e dos bisnetos que ainda não vieram, foi o Palmeiras ter entrado em campo na Vila Belmiro com 11 jogadores vestindo a camisa 10 de Joelmir. Ao mesmo tempo em que a placa que o Santos deu ao meu pai era entregue por Neymar a mim, no centro do gramado sagrado.

Nunca fiquei sem palavras. Mesmo tendo dito algo a Neymar.

Nunca deixei de ouvir algo dito a mim. Mas, Neymar, confesso que não lembro o que você falou. Foi carinhoso e atencioso como você é. Por isso você será ainda maior do que já é. Mas, gênio, não sei o que você me disse. Não consigo lembrar.

Por que a emoção de estar na Vila, no gramado, com Palmeiras e Santos perfilados, os santistas aplaudindo um palmeirense, e um palestrino que é meu pai, com meus filhos, sobrinhos, primos, com a minha noiva Silvana e a nossa filhota, isso também não esqueço. Como a emoção de ver um gênio como Neymar bem à nossa frente, no camarote cedido pelo Santos e pela Geo.

Parecia que eu estava dentro do gol. Tentando evitar o inevitável baile de Neymar. Por alguns momentos, colado à meta de Vila, quase torci por Neymar. Pela vitória do talento contra a fragilidade dos nossos jogadores. Me senti inerte e inerme. Como em tantos momentos desta semana tão triste quanto feliz pelo carinho das pessoas pelo meu pai.

Neymar encantava a minha pequena palmeirense Manoela que via o time dela pela primeira vez. Mesmo que não sendo o Palmeiras de sempre, ela se orgulhava pelo time que via tão de perto pela primeira vez. Mas tão distante de tantos Palmeiras de primeira.

A minha Mano celebrou o golaço de Maikon Leite. Tirou foto do placar com a vantagem parcial. Meio que imaginando que ela não durasse tanto. Meio que acertando o tudo que o time dela errava.

Veio a virada. Só não veio o vexame que Neymar e o amigo Muricy seguram a onda no segundo tempo.

Mas eu não consegui segurar a emoção. A família toda, agradecida a Palmeiras e Santos, também não.

Como também agradecemos ao Corinthians pelo texto no site oficial:

Em nota oficial, Corinthians fala sobre a morte de Joelmir Beting

A diretoria do Sport Club Corinthians Paulista lamenta, com profundo pesar, a morte do jornalista Joelmir Beting, na madrugada desta quinta-feira (29), em São Paulo.

Jornalista econômico de primeiríssimo time, Joelmir foi um dos pioneiros da arte de traduzir números em palavras certeiras ao falar de economia.

Apaixonado por futebol e jornalismo, Joelmir só tinha um defeito. Não torcia para o Corinthians. Vá em paz!”

E mais não preciso escrever. Como não tenho palavras para descrever a emoção que tive ao ver o senador Eduardo Suplicy lendo o texto deste blog no Senado. Ou melhor: tentando ler e não conseguindo.

Suplicy e seu Santos, João Paulo de Jesus Lopes e diretores do São Paulo, Tirone, Belluzzo, Paulo Nobre e cartolas palmeirenses, família Zioni Beting, Ramenzoni Sefrin e nosso Palmeiras, corintianos e torcedores de todas as cores e credos, obrigado”

Voltamos para São Paulo com a derrota para o Santos por 3 a 1. Voltamos como se tivéssemos ganhado a nossa vida.

Hoje, o torcedores.com me pede um texto a respeito de um dia em que o futebol me fez chorar.

Eu respondo com um longo texto de vários dias que mal chorei de tanta emoção. Honestamente, não lembro quando de fato chorei depois da morte do meu pai. Ou mesmo se chorei.

Não por acaso, todos esses momentos bateram bola com o futebol.

Minha vida devo ao futebol que amo como meu time que me levou à minha profissão.

Só posso chorar de alegria. Com atraso.

Só posso chorar de tristeza pelos que não podem chorar pelo futebol.

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Foto: Reprodução



Mauro Beting comenta futebol em rádio, TV, internet, jornal, blog e livro, faz filme de futebol para cinema, DVD e TV, e comenta no PES 2014