D’Alessandro e as sete vidas com o Inter

Há coisas na vida que você pode contestar o quanto quiser. Há outras coisas que qualquer um de nós deve aceitar como verdades quase que absolutas. Uma delas é que Andrés D’Alessandro se importa.

Sete anos se passaram desde que pisou pela primeira vez em Porto Alegre pra defender o Inter. Foi um amor incontestável à primeira vista. D’Ale encontrara finalmente um lar ideal para La Boba.

É difícil desde então a rotina de quem não se deixa levar pelo que os outros vão achar. Andrés é a versão da nitroglicerina em forma humana. Apaixonado, explosivo, brigador, insistente.

Reclamão pra muitos, sensacional pra outros, mas sem dúvida pra todos D’Ale é exatamente aquilo que deseja ser na vida. Um cidadão do mundo que fez do Beira-Rio uma extensão do seu quintal.

Ninguém é ídolo sem querer, é quase impossível se tornar capitão por acaso de um clube do tamanho do Internacional.

Pacientemente ou às vezes nem tanto, Andrés entendeu o que representa desde o início da sua trajetória vestindo a camisa vermelha. Nenhum outro clube brasileiro caminhou pra tão longe tantas vezes desde que D’Ale cruzou seu destino com o dos colorados. Foram 17 vezes estando no topo ou perto dele nas mais diferentes competições.

Tombos feios e vitórias históricas. O mesmo D’Ale que ajudou o Inter a conquistar a Copa Sul-Americana foi o que tropeçou arduamente num mundial. O mesmo Andrés que sagrou-se campeão da Libertadores foi aquele que em três oportunidades fora terceiro colocado na Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro e ainda da maior competição da América desse ano.

D’Ale medalha de ouro nas Olimpíadas. D’Ale eleito um dos melhores do Mundial de Clubes, um dos melhores meio-campistas atuando no Brasil. Multicampeão de prêmios individuais depois que resolveu defender o time da Avenida Padre Cacique.

Esse argentino que se tornou mais gaúcho e crédulo da força do Inter do que muitos que eu conheço teve a raça e a coragem pra ser vice da Copa do Brasil de 2009 com gol vindo de uma falta cobrada com bola andando e direito a socos e pontapés. D’Alessandro da Recopa 2011, D’Ale do tapa de esquerda e chute no ângulo.

D’Ale chora no gol e na derrota. D’Ale ri de alívio ou às vezes até de nervosismo. D’Ale finge ter binóculos nas mãos. D’Ale joga Playstation. D’Ale pula da barca mas jamais se torna omisso quando lhe pedem a opinião. D’Ale soube seu lugar no mesmo palco com Fernandão e Figueroa.

Corações não mentem quando escolhem o lugar pros seus ídolos.

Um grande jogador sabe que a torcida não cai em qualquer nota de rodapé ou comentário meia-boca que inúmeras vezes tentaram pegar carona na estrada colorada do gringo.

Andrés corre feito menino no estádio adversário lotado sem se intimidar. Quer ganhar par ou ímpar, Gauchão e até uma corrida entre a boca do túnel e o círculo central.

O Inter se transfigurou inúmeras vezes desde 2008 mas manteve um de seus grandes pilares ali. D’Ale se tornou um torcedor colorado no meio-campo. Ninguém pode dizer que ele não quer ganhar, ninguém pode falar que corre menos porque quer pois isso não existe no dicionário de Andrés.

Mudaram os técnicos, o estádio se transformou. O plantel é diferente, o número de sócios também. E D’Ale se manteve ali inerte construindo seu futuro com a família, pacientemente aplicando seus dribles e sendo o pavor dos vários goleiros que nunca souberam o que fazer quando o camisa 10 se prepara para o chute provavelmente após algum corte curto daqueles que já não existem mais no futebol chato e contemporâneo.

D’Ale segue com o Inter. Sabe que não é eterno e nem parece querer ser. São poucos os que podem dizer que caminharam quase duas dezenas de vezes para perto dos lugares mais próximos dos melhores nas mais diversas competições.

Centenas de jogos, dezena de títulos, inúmeros gols. Camisas de outros times com o nome de D’Ale nas costas.

Há coisas na vida que você pode contestar o quanto quiser. Outras qualquer um de nós precisa aceitar como verdades quase que absolutas. Uma delas é que Andrés D’Alessandro se importa.

A outra é que D’Alessandro ama o Inter com a ponta das chuteiras e ainda mais com o coração.

Gracias pelos sete anos de loucura, capitão.

#7AnosDeDale

Imagem: Sport Club Internacional / Divulgação



Futebol e corneta sem esculhambar paixões.