Lágrimas da bola: o dia em que um vexame do Palmeiras me fez chorar

Começar a torcer pelo Palmeiras foi algo muito fácil para mim, mas também me deixou mal acostumado. Quando comecei a me interessar por futebol, lá pelos seis ou sete anos, o Verdão ganhou tudo.

Quase não vivi e não tive o gosto da fila de 20 anos sem títulos. E logo de cara, em 1993, ganhamos o Campeonato Brasileiro e o Paulistão. No ano seguinte, repetimos a dose, mesmo ano em que vi a seleção brasileira ganhar o tetra. Na minha cabeça, torcer para um time de futebol era quase um sinônimo de comemorar vitórias.

Fiquei vidrado por aquela sensação. Entrei para escolinha de futebol, queria o álbum de figurinhas e usei minha camisa 9 do Evair até furar. Era tanta alegria que eu fiquei mal acostumado.

Com o tempo, passei a entender melhor o que eram as derrotas, como o Brasileirão de 97, o Paulistão de 99 com as embaixadinhas do Edílson, a derrota para o Manchester United e até o rebaixamento de 2002. E foram derrotas doídas, principalmente para quem vinha tão mal acostumado.

Mas não chorei em nenhuma dessas ocasiões. Apesar de ter sido muito difícil, todas pareceram um acidente, um capricho… Até o primeiro rebaixamento. Foram vexames, mas pareciam contornáveis.

Depois disso, passamos um tempão sem ganhar nada. Apenas um paulista em 2008 e vimos o título do Campeonato Brasileiro de 2009 escapar das nossas mãos nas rodadas finais.

Até que chegou o dia 24 de novembro de 2010, quando o Palmeiras pegaria o Goiás pela partida de volta da semifinal da Copa Sul-Americana. O esmeraldino já amargava o rebaixamento no Campeonato Brasileiro e o alviverde vinha motivado, após uma vitória por 1 a 0 na ida.

Além disso, o Verdão tinha um recém-chegado Luiz Felipe Scolari, ainda com pinta de herói da Libertadores de 1999 e pentacampeão mundial com a seleção. Mais tarde Felipão ainda mancharia sua carreira com uma péssima campanha com o Palmeiras em 2012 e o vexatório 7 a 1, mas naquele dia ainda era o cara ideal para fazer o o time alviverde voltar a disputar uma final de um torneio intercontinental.

O Palmeiras entrou em campo com Deola; Márcio Araújo, Danilo, Maurício Ramos e Gabriel Silva; Edinho, Marcos Assunção, Tinga e Lincoln; Luan e Kleber. Não era nenhuma máquina, mas bastava um empate para a classificação.

Classificação esta que parecia que viria facilmente, quando Luan, aos 33 minutos do primeiro tempo, abriu o placar para o Verdão. E o jogo seguiu com domínio da equipe paulista até o último lance da primeira etapa, quando Carlos Alberto finalizou e ainda contou com um desvio em Tinga que matou Deola.

Com o empate, a classificação ainda era nossa, mas o Palmeiras voltou para o segundo tempo abatido, levando pouco perigo ao gol adversário. E foi assim, apenas observando o jogo, que o Palmeiras viu o Goiás virar o jogo. Marcão (aquele) teve liberdade para cruzar para Rafael Moura (aquele também) tocou para o meio e Ernando marcou aos 36 minutos da segunda etapa.

Nos quase dez minutos restante para o fim da partida, o Palmeiras pouco fez para tentar empatar o jogo. Antes mesmo do apito final, chorei de frustração. Uma decepção por ver o meu time se apequenar como nunca, quase como uma profecia do que viria pela frente.

Na TV, um garotinho aos prantos representava aquela frustração e chorava junto comigo. Lembrei de quando eu tinha idade dele e torcer para o Palmeiras era muito mais fácil. Conviver com derrotas faz parte do amor pela camisa, mas o time se apequenando daquela forma era frustrante demais.

O menino ainda apareceu nas capas de todos os jornais e recebeu um convite do presidente Luiz Gonzaga Beluzzo para conhecer o clube. O pequeno Dudu Kenji ainda ganhou uma camisa do Palmeiras e uma promessa de Felipão de que o time voltaria a fazer valer o peso da sua história e tamanho.

Noa anos seguintes, a promessa de Scolari não foi cumprida.Ganhamos uma Copa do Brasil com gols achados e no mesmo ano caímos mais uma vez para a Série B do Campeonato Brasileiro. Fizemos campanhas sofríveis e quase caímos outra vez.

Naquele 24 de novembro de 2010 eu não entendi muito bem a minha frustração. Olhando hoje, compreendo que era a constatação de que o Palmeiras não tinha mais aquele tamanho que eu vi na década de 90. Era o prenúncio de que viraríamos piada dos rivais, de que seríamos ainda protagonistas de vexames e que nem jogar contra o Mirassol seria fácil. O próprio Goiás viria a nos golear por 6 a 0.

O amor pelo Palmeiras não morreu, só ganhou tons de desconfiança. Espero que passe…

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Foto: Reprodução/Sportv



Flávio Moreira é jornalista especializado em mídias sociais. Com passagens por UOL e Electronic Arts, é apaixonado por esporte e acredita na produção de conteúdo feito de torcedor para torcedor.