Lágrimas do futebol: o dia em que o Palmeiras me fez chorar – Mercosul 2000

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Final da Copa Mercosul de 2000. Parque Antárctica lotado. Palmeiras abre 3-0 no primeiro tempo. Todos já comemoravam, já vibravam, já planejavam ir para a Paulista. Menos o Vasco. No segundo tempo, um show carioca: virada para 4-3 e o primeiro dia que, de fato, chorei pelo Palmeiras.

Eu nem sei por onde começar esse relato. Talvez o melhor seja começar dizendo a vocês, prezados leitores, que não farei aqui uma análise tática da partida, muito menos irei enumerar culpados pela derrota. Tampouco vou me atentar a minutos de jogo, jogador expulso. Vou tentar externar por meio de palavras todo o sentimento que vivi naquele fatídico dia 20 de dezembro de 2000. Uma criança que não entendia de futebol – só entendia de Palmeiras.

Eu tinha apenas 14 anos de idade na época, porém o amor pelo Palmeiras parecia fazer parte de mim há muitos anos. Me tornei palmeirense na chamada “geração anos 90”, ou “geração Parmalat”, aquela em que o Verdão ganhou de tudo e de todos. Me lembro de assistir o Palmeiras ser campeão do Brasileiro de 93 na casa da minha falecida avó, o título de 94 na sala de casa, o Paulista de 96 começando a entender o que era tirar sarro de rivais na escola e, claro, a maior conquista de todas, a Libertadores de 99 ajoelhado na cama da minha mãe, em frente a TV, coberto com minha colcha alviverde.

Mas 2000 foi diferente. Lembro que eu estava na casa do meu chefe (sim, eu já trabalhava com 14 anos. Desde os 12, aliás) assistindo o jogo com toda a sua família, numa linda casa na Vila Romana, em São Paulo. Todos palmeirenses eufóricos com os três gols do primeiro tempo. Arce, Magrão e Tuta fizeram explodir os corações alviverdes que pulsavam forte naquela noite.

Durante o intervalo da partida, todos já começavam a combinar como seria a ida para a Av.Paulista, na época reduto de comemorações de títulos de todas as torcidas da capital. “Eu levo o bandeirão!”, dizia um. “Vou correr no mercado para comprar cervejas!” gritava outro. Enquanto eu, tímido, pedia para o meu chefe conversar com a minha mãe para convencê-la a deixar eu ir junto… Pura inocência. Minha mãe nunca deixaria eu ir pra baderna naquele idade, mas tampouco precisaria se preocupar com isso.

O jogo voltou para o 2º tempo. A alegria tomava conta de todos os palmeirenses. Nem mesmo o primeiro gol do Vasco, convertido por Romário, de pênalti, calou os nossos corações. A festa continuava, até que novamente Romário – mais uma vez de pênalti – fez mais um para o time carioca. O clima começava a ficar estranho. No terceiro gol do Vasco, o empate de Juninho Paulista, já era possível ver a incredulidade estampada no rosto dos mais calmos na casa. Os mais exaltados xingavam, urravam de ódio.

Neste momento eu saí da sala. Algo me dizia que a noite não seria feliz. Fui para o quintal da casa e sentei encolhido no canto, sentado no chão gelado daquela noite de quarta-feira. Titan, o pitbull de estimação da família, me consolava com lambidas no braço e um olhar triste, que nem mesmo toda a aquela cara de mau conseguia encobrir. Até mesmo o cachorro sabia que o caldo ia azedar.

E azedou.

Pude ouvir minutos depois o desespero em forma de gritos, repúdio, ódio e tristeza que vinham da sala. As provocações de torcedores rivais na rua ecoavam na minha cabeça. Era o quarto gol do Vasco da Gama. Era o gol que fez a minha alegria se exaurir, dando lugar a uma tristeza que parecia sem fim. Lágrimas começaram a cair incessantemente dos meus olhos. Meu peito, apertado, parecia que buscava ar para respirar e não conseguia. O choro veio de uma maneira avassaladora, que assustou até o Titan, que foi se esconder em sua casinha – ele também tinha medo de fogos de artifício. Pois é, os rivais até soltaram fogos.

Com o clima pesado, meu chefe, Sr.Carlos, me levou imediatamente pra casa. Confesso que não me recordo da conversa durante o curto trajeto da Vila Romana até a Pompéia. Talvez porque não conversamos uma palavra sequer. Minha mãe esperava na janela, desceu para me receber com os braços abertos, mas a única coisa que eu fiz foi correr para a minha cama chorar. Chorei como nunca havia chorado até aquele dia. Um sentimento inexplicável, que me fez insistir com a minha mãe para eu não ir à escola no dia seguinte. Não podia suportar as brincadeiras que certamente viriam.

Dia 20 de dezembro de 2000 ficou conhecido no mundo do futebol brasileiro como “A Virada do Século”. Pra mim, no entanto, ficou conhecido como o dia em que o Romário fez um sinal de “cala a boca” para a torcida. O dia em que pude sentir na pele que nem tudo o que acontece na vida é algo bom. O dia em que eu pude perceber que meu time não era imbatível. O dia em que o Palmeiras me fez chorar.

Reveja os gols da partida:

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