Pan de Winnipeg: Brasil interrompe sequência de títulos cubanos

Poucas rivalidades podem se comparar à que existiu entre Brasil e Cuba no voleibol feminino durante a década de 1990. As duas equipes fizeram jogos memoráveis e protagonizaram brigas homéricas dentro e fora das quadras, como na semifinal dos jogos olímpicos de 1996, em Atlanta, e nas finais do Grand Prix, no mesmo ano. Os embates entre as duas equipes geravam frisson sem igual.

No dia 1º de agosto de 1999 era possível sentir no ar o “aroma” dessa rivalidade. Nos ônibus, nas praças, nas ruas era comum ouvir as conversas e sentir a expectativa das pessoas com o jogo. As partidas anteriores haviam chamado a atenção do público brasileiro para os duelos entre brasileiras e cubanas. A final dos jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá, era ansiosamente aguardada.

Enfim, a noite do jogo chegou. As cubanas acumulavam títulos olímpicos e mundiais e o Brasil – apesar de ter apresentado ao mundo uma das gerações mais talentosas da história do voleibol mundial, que contava com atletas como Ana Moser, Fernanda Venturini, Hilma, Marcia Fu, Ida, Ana Paula e Ana Flavia – colecionava derrotas nos momentos decisivos.

A equipe comandada pelo técnico Bernardo Rezende, o Bernardinho, que disputaria aquela final vinha renovada, com poucas remanescentes da geração anterior. Entre as atletas presentes àquela final, destacavam-se Fofão, Érika, Virna, Leila, Karin Rodrigues, Elisângela, Walewska e Andréa Teixeira.

O Brasil havia vencido as cubanas na primeira fase da competição por 3 sets a 2, mas não chegava à final com status de favorito. O jogo foi tenso e não poderia ser diferente, já que as caribenhas eram mestres na arte da provocação. Essa provocação, aliás, normalmente envolvia e complicava as brasileiras.

O Brasil iniciou a partida muito nervoso e permitiu que as cubanas remassem sem maiores dificuldades para fechar o primeiro set em 25 a 20.

Na parcial seguinte, o Brasil contou com a instabilidade que frequentemente atrapalhava a equipe caribenha e venceu as rivais por 25 a 22.

A vitória no terceiro set não serviu para colocar as brasileiras de vez no jogo e, apesar de a equipe buscar uma desvantagem de cinco pontos no placar, as cubanas se deram melhor e fecharam o set em 27 a 25.

No quarto set as meninas do Caribe chegaram a abrir três pontos de vantagem e algumas atletas começaram a apresentar uma “dancinha da vitória” no banco de reservas. Contando com atuações inspiradas de Virna e de Elisângela, o Brasil acabou com a festa cubana e levou o jogo para o tie-break ao vencer por 25 a 22.

O quinto set foi tenso, mas a seleção brasileira conseguiu controlar os nervos e comandar a parcial até chegar ao match point com confortáveis 14 a 11. Mas quando se trata de Brasil e Cuba nada é tão simples quanto parece. As cubanas chegaram aos 13 pontos e o Brasil se via pressionado a fechar o jogo. Uma vitória significaria trazer ao país um título depois de 36 anos – o último ouro do voleibol feminino havia sido alcançado nos jogos Pan-Americanos de São Paulo no distante ano de 1963 – e interromper uma sequência de sete títulos cubanos.

A bola chegou às mãos da levantadora Fofão e ela acionou a oposto Elisângela pela entrada de rede, mas o bloqueio estava montado. A atacante brasileira raciocinou com rapidez e deu uma largadinha no meio da quadra cubana. Era o fim de um tabu. O Brasil era ouro novamente no Pan, quebrava um jejum de mais de três décadas e destronava as arrogantes atletas de Cuba. A partir daí, as lágrimas tomaram conta dos dois lados da rede e o Brasil foi dormir com a alma lavada.