Prata em Atenas-2004 foi reafirmação feminina e salvação do futebol brasileiro

ATHENS - AUGUST 26: Brazil line up for the singing of the national anthems before the start of the women's football gold medal match on August 26, 2004 during the Athens 2004 Summer Olympic Games at Karaiskaki Stadium in Athens, Greece. (Photo by Ezra Shaw/Getty Images)

Para descrever a história da medalha de prata em Atenas-2004 de um ponto de vista mais amplo, na pele do torcedor comum que não acompanha o futebol feminino no dia a dia e acaba “consumindo” o esporte apenas quando está em evidência na mídia, ou seja, nas Olimpíadas, é fundamental contextualizar o quanto o futebol brasileiro foi salvo pelas meninas comandadas por René Simões.

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Em janeiro de 2004, o time masculino do Brasil reuniu a geração que parecia ser a mais promissora de todos os tempos para conquistar o tão sonhado ouro inédito em Olimpíadas. Diego e Robinho eram as estrelas principais de um time comandado por Ricardo Gomes, e que contava ainda com os zagueiros Edu Dracena e Alex, o meia Elano, e os atacantes Nilmar e Dagoberto.

As 10 seleções da América do Sul se reuniram no Chile para a disputa do Torneio Pré-Olímpico. Na época, as duas vagas nas Olimpíadas ainda não haviam sido atribuídas ao Sul-Americano Sub-20, então um torneio especial sub-23 era organizado no ano do evento, com o mesmo formato.

Em 2000, o Brasil de Luxemburgo havia sido campeão com facilidade, mas caiu nas quartas de final dos Jogos de Sydney. Desta vez, nem foi a Atenas. Precisando de um empate contra o Paraguai na última rodada do hexagonal final, os brasileiros foram derrotados por 1 a 0 e acabaram fora das Olimpíadas.

Mas quem disse que o futebol brasileiro estava fora dos Jogos Olímpicos de Atenas? Só mesmo quem não conhece a garra das meninas da bola. René Simões assumiu o time com foco na competição e fez história. O Brasil tinha Formiga, Pretinha, Cristiane, Rosana e a jovem Marta, que despontava rumo ao estrelato e ao topo do mundo.

Talvez o 1 a 0 sobre a Austrália na estreia em gramados gregos não tenha empolgado, nem chamado a atenção do grande público em meio a tantas modalidades e à ansiedade pela Cerimônia de Abertura. A derrota para os EUA por 2 a 0 na segunda rodada também não ajudou muito. Mas o 7 a 0 nas donas da casa empolgou. 7 a 0 na Grécia em pleno berço olímpico.

Nas quartas de final, outra sonora goleada, um 5 a 0 no México. A semifinal representava um sonho para o time brasileiro. Nas duas edições anteriores, em Atlanta-1996 e Sydney-2000, paramos exatamente nessa fase. E perdemos o bronze posteriormente. Uma vitória por 1 a 0 sobre o Suécia acabou com esse drama. A medalha, finalmente, estava garantida.

Mais que isso, as meninas do Brasil conquistavam a atenção momentânea do povo brasileiro. Revelaram suas péssimas condições, liga nacional inexistente, poucas jogadoras com contratos em clubes. A própria seleção não sabia quando se juntaria de novo, algo que talvez só fosse ocorrer dali a três anos, na Copa e no Pan de 2007.

Tudo isso ficou para trás. Diferentemente dos homens, que tiveram todas as condições financeiras e midiáticas, mas sequer chegaram a Atenas, as nossas meninas disputaram a final. E perderam nos detalhes. Depois de um empate no sufoco, o Brasil dominou a prorrogação, colocou várias bolas na trave e acabou tendo um pênalti incrivelmente não marcado após claro toque de mão de uma defensora norte-americana. Tomou o gol decisivo no segundo tempo extra, feito por Wambach.

Uma prata dolorida, mas que mudou o jeito como o Brasil via o futebol feminino.

Foto: Ezra Shaw/Getty Images



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.