Lágrimas do futebol: o dia em que o Palmeiras me fez chorar

Palmeiras

Futebol é um esporte curioso porque, no final das contas, não é algo frio que se possa ser observado com total isenção. Todo esporte tem suas histórias, emoções e tradições, mas o futebol (ainda mais aqui no chamado “país do futebol”) é muito mais do que um jogo para quase a totalidade de seus amantes.

Ele é uma paixão irascível para uma enorme massa de torcedores e, curiosamente, muito mais bairrista do que parece. Pergunte a qualquer torcedor se ele prefere seu time de coração à seleção brasileira e entenderá o que digo. E muitas vezes as histórias de torcedores com seus times ultrapassam a fronteira do esporte e se infiltram em nosso cotidiano, em nossas vidas, em nossa família. E foi isso que aconteceu comigo.

Nasci palmeirense, pelo simples fato de meu pai ser (muito) palmeirense também. Jamais tive a opção de escolher outro time porque, para mim, o Palmeiras sempre esteve presente em tudo: minha escova de dentes sempre foi verde; as roupas eram majoritariamente verdes; meu primeiro time de futebol de botão que ganhei foi do Palmeiras; as capas de meus cadernos escolares sempre tinham um adesivo palmeirense. Na minha relação com o meu pai, o Palmeiras sempre foi um ponto de união.

Como meus pais se separaram muito cedo, os passeios que eu dava com meu pai nos finais de semana muitas vezes incluíam idas aos estádios, tanto ao Pacaembu quanto no Parque Antártica. Paixão compartilhada e misturada de meu pai por mim e pelo Palmeiras, e eu pelo Palmeiras e pelo meu pai. Mesmo quando a vida nos separava por algum tempo e nos falávamos apenas por telefone, nosso time era sempre um assunto a ser considerado nessas ligações.

Na final do campeonato brasileiro de 1993, entretanto, uma reviravolta. Meu pai, ávido por ver seu Palestra campeão naquele ano, depois de 20 anos (o último título havia sido em 1973, ano de meu nascimento) me levou pela última vez à um estádio, o Morumbi, para assistir àquela final. Mas a violência das torcidas organizadas deu às caras também naquele dia e nos vimos envolvidos em uma batalha campal: apanhamos de “organizados”, apanhamos da polícia, sem saber como nos defender. Meu pai, com sua idade já avançando, não conseguia me defender, como já o fizera em outras ocasiões. Eu, franzino, pouco podia fazer para defender meu pai de toda aquela truculência. Os resultados: não vimos o Palmeiras ser campeão naquele ano; ganhamos escoriações e machucados por todo corpo; eu nunca mais voltei a pisar em um estádio de futebol.

Em 2002, ano em que o Palmeiras cairia pela primeira vez para a série B, creio que uma força maior não quis que meu pai sofresse com a queda e o levou deste plano no meio do ano (durante a Copa do Mundo, inclusive). Eu jamais veria o nosso Verdão ao lado dele novamente, como já planejava fazer há anos, mas ao menos aprendi a não postergar mais tais decisões na minha vida.

Em 2014, então, depois de uma acachapante derrota por 6 x 0 do Goiás, o Palmeiras amargava a lanterna do Brasileirão e se encaminhava rapidamente para seu terceiro rebaixamento, quando algo acendeu dentro de mim: eu precisava ir assistir o próximo jogo. Li depois na crônica esportiva que naquele jogo só estavam presentes os torcedores “sangue no olho”, os que nunca abandonariam o Palmeiras, que foi um dos jogos mais emocionantes do ano até o momento… Bem, eu havia abandonado meu time pelos últimos 21 anos, mas estava lá. E acho que meu pai estava comigo também. E uma curiosidade: nesse jogo, meu primeiro depois de tanto tempo afastado dos estádios, o Palmeiras bateu o Vitória por 2 x 0. O mesmo placar, contra o mesmo time, da final de 1993 que não conseguimos assistir. Belíssima coincidência.

Na sequência consegui ir também a mais alguns jogos, até que o Palestra saiu da “zona da confusão”, mas o fato mais marcante do ano aconteceu no dia 19/11/2014, um dia após meu aniversário: a inauguração do Allianz Parque. Paguei caro, cheguei cedo, fiquei o dia todo encostado na grade de entrada, mas fui o primeiro torcedor a entrar pelo portão C, com toda parafernália tecnológica que os dias atuais permitem: filmei meu caminho até a revista pela polícia, minha passagem pela catraca, a imagem da arquibancada antiga debaixo das estruturas do novo Allianz Parque, os degraus da escada até as cadeiras…

E nesse momento, quando pude finalmente ver o estádio que ia com meu pai transformado em um dos melhores e mais bonitos estádios do mundo, mais de uma década de saudade transbordou e chorei ali, apoiado nas grades e olhando para o campo. Algum observador desavisado com certeza deve ter se emocionado com aquele torcedor chorando ao ver o novo estádio de seu time, mas só eu sabia o que se passava dentro de mim. Creio que foi a primeira e a última vez que o futebol me fez chorar, mas futebol não é só um jogo e o Palmeiras não é apenas um time.

Ambos fazem parte da minha história.

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Foto: Reprodução/Twitter



Gerente de infraestrutura e palmeirense, ambos em tempo integral. Amante do esporte bretão e de (quase) todos times que vestem verde, mas invariavelmente fala sempre do seu eterno alviverde imponente.