Opinião: Copa 2014 foi o melhor Mundial do século 21

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JULY 13: Philipp Lahm of Germany raises the World Cup trophy with teammates after defeating Argentina 1-0 in the 2014 FIFA World Cup Brazil Final match between Germany and Argentina at Maracana on July 13, 2014 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

A Copa do Mundo Brasil 2014 foi repleta de emoções, grandes jogos, surpresas, poucas confusões dentro e fora das arenas. A melhor média de gols desde 1998 e a melhor média de público desde 1994, que terminou com a Alemanha campeã depois de 24 anos. Depois dessa breve retrospectiva, uma análise dessa Copa do Mundo que entrou para história como a Copa das Copas.

A melhor seleção: Alemanha

Não porque ficou com a taça, mas a seleção da Alemanha mereceu erguer o troféu pelo planejamento que fez para essa copa e para coroar o trabalho de recuperação de uma seleção que chegou a ser eliminada na primeira fase da Eurocopa de 2000 e 2004. Fora um humilhante 5 a 1 para a Inglaterra dentro da Alemanha, em 2001. A classificação para a Copa de 2002 só aconteceu depois da goleada de 4 a 1 em cima da Ucrânia, já pela repescagem.

De lá pra cá, a transformação do futebol alemão foi fantástica. O campeonato local – Bundesliga – tem a melhor média de público do mundo, revelações de jogadores como Thomas Müller, Mesut Özil, Marco Reus, Toni Kroos, Mario Götze, Bastian Schweinsteiger, entre outros. Além do polonês naturalizado Miroslav Klose, que se tornou o maior artilheiro de todas as copas batendo o recorde do brasileiro Ronaldo no Brasil.

O grande salto da Alemanha foi quando sediou a Copa 2006. Mesmo caindo para a Itália na semifinal e um terceiro lugar muito comemorado, os alemães mantiveram os planos de reestruturação do futebol local. Alemanha perdeu a Euro 2008 para Espanha e um novo terceiro lugar na África do Sul, em 2010, caindo na semifinal para a mesma Espanha que venceu os alemães na final da Euro, além de outra derrota na semifinal na Euro 2012, agora para a Itália. No Brasil, a consagração desse projeto com direito a um 7 a 1 na Seleção brasileira e, na final contra a Argentina, o gol do título alemão veio dos pés de uma das revelações desse projeto, do jovem Mario Götze, de 22 anos.

Desde 2005, quando perdeu para o Brasil na Copa das Confederações, a Alemanha chega no mínimo às semifinais das competições que participa.

A Federação alemã abriu mão dos locais que a FIFA colocou para as seleções escolhessem como centro de concentração para o mundial e montou sua concentração em Santa Cruz Cabrália (BA), uma cidade carente de infraestrutura como muitas por esse Brasil. Os alemães deixaram um legado para a cidade de Santa Cruz Cabrália. A Alemanha venceu a Copa 2014 dentro e fora de campo.

O melhor futebol: Colômbia

James Rodríguez contribuiu para um futebol gostoso de assistir da seleção colombiana durante a Copa do Mundo. A Colômbia terminou com 100% de aproveitamento na primeira fase (3 jogos e 3 vitórias) e marcou 9 gols – sofreu 2 gols. A Holanda também terminou a primeira fase com 100%, mas marcando 10 gols (5 só na Espanha) e sofrendo 3.

Mas a minha escolha pela Colômbia tem a ver com o tipo de jogo que a Holanda optou jogar nas duas últimas copas. Cansados de perder – vice em 1974, 1978 e 2010 – os holandeses trocaram o futebol mais plasticamente bonito por um futebol mais pragmático, de resultados. Só que não deu certo, por enquanto. A Holanda perdeu a final de 2010 para Espanha e parou na semifinal de 2014 para Argentina nos pênaltis. A seleção holandesa continua sendo a “seleção do vice” jogando um futebol mais vistoso ou um futebol mais pragmático.

Seleção surpresa: Costa Rica

Ninguém dava nada pela seleção da América Central, mas após a vitória por 3 a 1 sobre o Uruguai, de virada, a vitória por 1 a 0 sobre a poderosa Itália, além de um 0 a 0 com a Inglaterra e o primeiro do lugar do Grupo D, o “grupo da morte”, todos olharam a Costa Rica com outro olhar.

Depois de eliminar os gregos nas oitavas nos pênaltis, a Holanda foi a bola da vez e o patinho que se transformou no cisne da Copa do Mundo segurou bravamente o 0 a 0 por 120 minutos. Mas não contava com um coelho do técnico holandês Van Gaal, que tirou da cartola o goleiro reserva pegador de pênaltis, Krul, que defendeu dois pênaltis e colocou um fim em uma história inesperada e mágica para os costarriquenhos. Toda a delegação da Costa Rica foi recebida no país como os heróis da pátria pela melhor campanha da seleção centro-americana na história das copas. Muito merecido.

Menção honrosa para a Argélia, que vendeu caro a eliminação para Alemanha nas oitavas-de-final, em um jogo com uma carga dramática digna de um jogo eliminatório de Copa do Mundo. Aquele jogo ficou conhecido como “A batalha de Porto Alegre”, local do jogo.

Melhor jogador: Mascherano (Argentina)

Não foi o craque do mundial, mas o zagueiro argentino jogou demais e foi fundamental na campanha de sua seleção, principalmente na semifinal, quando impediu um gol de Robben no último minuto.

Robben foi decisivo em vários jogos da Holanda, mas não decidiu nas quartas contra Costa Rica e ficou devendo na semifinal contra a Argentina. Messi lembrou mais o Maradona de 1990 (fazendo gols nos quatro primeiros jogos) do que o Maradona de 1986. Mas ficou em branco contra Bélgica, contra Holanda e perdeu um gol na final que não costuma perder, o que poderia ter sido sua consagração dentro do Maracanã.

A FIFA deu o prêmio de melhor jogador da copa para Messi. Mesma FIFA que já deu o prêmio de melhor da Copa 2002 para o goleiro Oliver Kahn antes da final entre Brasil x Alemanha, ele falhou feio num dos dois gols de Ronaldo; deu o prêmio para Ronaldo, em 1998, antes da final contra a França e viu Zidane fazer dois dos 3 a 0 dos franceses; elegeu Zidane melhor da Copa 2006 antes da final, onde ele acabou expulso por uma cabeçada no peito do zagueiro italiano Materazzi, após este xingar sua família.

Thomas Müller, Toni Kroos, Bastian Schweinsteiger e Mesut Özil (Alemanha); Blind (Holanda), Benzema (França) e James Rodríguez (Colômbia – artilheiro da copa com 6 gols); Keylor Navas, Bryan Ruiz e Joel Campbel (Costa Rica); Oscar e Neymar (Brasil) também merecem destaque.

Melhor goleiro: Manuel Neuer (Alemanha)

Quando exigido Neuer fechou o gol da Alemanha como no dramático jogo contra a Argélia nas oitavas-de-final e contra a França nas quartas-de-final defendendo a última bola do jogo. Marca registrada do goleiro do Bayern de Munique, Neuer joga como se fosse quase um líbero saindo da meta e antecipando o atacante. Uma arma que pode ser perigosa para sua seleção, mas, por enquanto, só trouxe vantagens para a seleção alemã.

Melhor técnico: Jorge Luis Pinto (Costa Rica)

Eliminou da copa três seleções que juntas somam 7 títulos mundiais, com uma seleção sem tradição no futebol que no histórico dos mundiais só tinha passado de fase uma vez (1990), só sendo eliminado nos pênaltis para a Holanda. Precisa mais?

Recorde

Klose foi para o Mundial para bater o recorde de gols de Ronaldo e cumpriu a meta fazendo um gol contra Gana, em Fortaleza, e outro contra o Brasil, em Belo Horizonte, com Ronaldo comentando o jogo pela TV Globo. Ronaldo (15) bateu o recorde de um alemão, Gerd Müller (14), na Alemanha, Klose (16) bateu o recorde de um brasileiro, Ronaldo, no Brasil, Klose voltou para casa como campeão do mundo, já Ronaldo não teve em 2006 a mesma sorte.

Brasil

Fiasco. Vexame. Patético. Histórico. São tantos adjetivos para a participação da Seleção brasileira na Copa do Mundo jogando em casa, que fica difícil escolher um. Esqueci de um: a soberba de não reconhecer que não somos mais os melhores. Felipão apostou no esquema vitorioso da Copa das Confederações de 2013 e em superstições que funcionaram em 2002, mas não em 2014. Pior, não reconheceu erros nas escalações durante a competição e jogou a culpa do placar de 7 a 1 na semifinal num suposto “apagão de seis minutos”.

 

Crédito da foto: Getty Images



Viciado em futebol nacional e internacional; gosta de Fórmula 1. Apaixonado por Copa do Mundo como quem gosta de futebol, não como torcedor, e interesso-me por outros esportes somente na Olimpíada. Textos opinativos e curiosidades do futebol. Tenho um blog sobre política (@brasildecide).