Opinião: a Islândia vai para a Eurocopa e não é por acaso

Depois de ser eliminada nos Playoffs para a Copa do Mundo no Brasil, a Islândia mostra que a boa campanha não é coincidência.

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Ontem, dia 6 de setembro, a Islândia empatou com o Cazaquistão e assim, garantiu sua vaga para a próxima Eurocopa, que será disputada na França ano que vem.

Mas como um país tão minúsculo, com apenas 300 mil habitantes, que faz tanto frio e com relevância mínima no futebol conseguiu esse feito de ir para o maior torneio de seleções do velho continente? Acredite, não foi por acaso.

Antes de chegar até esse dia, vamos explicar a trajetória na Copa 2014.

No dia 15 de novembro de 2013, em Laugardalsvöllur na Islândia, seria disputado o primeiro jogo da repescagem para a Copa do Mundo no Brasil, que aconteceria no ano seguinte. Em campo jogariam a seleção da casa contra a Croácia.

Para grande parte dos jornalistas especializados, a equipe nórdica só havia chegado na repescagem pois o grupo E das eliminatórias era fraco. Além da Islândia o grupo tinha como integrantes: Suíça, Eslovênia, Noruega, Albânia e Chipre. De fato, o grupo não era um dos mais fortes das eliminatórias europeias, mas era um dos mais equilibrados.

FASE DE GRUPOS:

Na distribuição dos ‘pots’ (divisão dos grupos por força) do sorteio para as eliminatórias, o país ficou no ‘pot 6’, os piores times no Ranking da FIFA.

A Suíça, que era a favorita, sobrou no grupo. Já o segundo lugar foi disputado por 4 equipes teoricamente equivalentes, sendo Eslovênia e Noruega os mais bem cotados por já terem ido à Copas do Mundo.

O grupo terminou com a Suíça em primeiro, com 24 pontos. Realmente sobrou com 7 vitórias, 3 empates e passou sem sofrer nenhuma derrota, um dos motivos para o país ser uma das cabeças de chave no sorteio da Copa, o que causou muita polêmica. E claro, tomou poucos gols: foram apenas 6 sofridos, 4 deles para a Islândia em um jogo épico em Berna. A Islândia abriu o placar, tomou 4 gols e buscou o empate na prorrogação em um dos melhores jogos das eliminatórias para a Copa no Brasil.

O Chipre ficou em último, como já esperado, com apenas 5 pontos. Noruega e Albânia não tiveram fôlego para aguentar o ritmo dos eslovênos e dos islândeses, que chegaram para a última rodada lutando pela vaga para a respescagem. O resultado já sabemos.

REPESCAGEM:

Voltemos para Laugardalsvöllur, onde as esperanças islandesas finalmente morreriam. Antes do jogo, o técnico Lars Lagerback estava ciente das possibilidades da equipe: “Os jogadores sempre demonstraram uma atitude muito boa, positiva. No entanto, temos de ser realistas [com as chances da equipe]”. O jogo terminou empatado em 0 a 0 com a Croácia, que jogou com um a mais desde os 5 minutos do segundo tempo, quando Olafur Skulason foi expulso.

No segundo jogo a zebra não apareceu. A Equipe nórdica jogou mal e perdeu de 2 a 0, gols de Mário Mandzukic — que seria expulso mais tarde e por isso não jogou contra o Brasil na abertura da Copa — e Darijo Srna. Foi um baile: a equipe xadrez finalizou 19 vezes contra apenas 5 dos nórdicos e a Croácia merecidamente foi para a copa.

Cabeça erguida e Eliminatórias Euro-2018

A eliminação para a Copa de 2014, ao que parece, não teve reflexos na moral do grupo de Lars Lagerback. O início da caminhada nas Eliminatórias da Eurocopa 2018 foi avassaladora num grupo com Holanda, República Tcheca, Turquia, Letônia e Cazaquistão. Cazaquistão e Islândia são as duas únicas equipes do grupo que nunca foram nem a Copas do Mundo nem a Eurocopas.

Até agora os islandeses fizeram 8 jogos, com 6 vitórias, um empate e uma derrota. Nestes 8 jogos venceram todas as equipes do grupo, inclusive Turquia e Holanda, que tem jogadores badalados. As duas vitórias sobre a Holanda chocaram a europa, já que a Islândia nunca chegou nem perto de vencer os holandes, que vinham de um terceiro lugar na Copa e inclusive ganhou por 5 a 1 da Espanha.

O estilo de jogo da Islândia é de se doar muito nos jogos e com foco no coletivo, em que todos se sacrificam pelos companheiros. E isso está dando resultados. Nos 8 jogos foram apenas 3 gols sofridos, sendo todos contra a República Tcheca e o restante dos 6 jogos passou sem sofrer gols. Até a 7ª rodada, apenas a Romênia, que tinha tomado 1, e Bélgica, País de Gales e Ucrânia, com 2, tinham melhores defesas das Eliminatórias europeias.

Mas a equipe não é só defesa. Há talento, e muito, do meio para frente. Foram 14 gols feitos até a 7° rodada. Apenas a Espanha, Inglaterra, Croácia, Polônia e Alemanha fizeram mais gols.

Os destaques

O grande destaque é aquele que fez 2 contra a Holanda no dia 13 de outubro de 2014, marcou de novo no segundo jogo, de penalti, e que aceitou a responsabilidade de liderar a equipe apesar de ter apenas 25 anos: Gylfi Sigurdsson.

Junto com Kolbeinn Sigthorson — que obteve muito sucesso no Ajax e agora está no Nantes da França — e Birkir Bjarnasson, do Basel da Suiça, o trio é a referência criativa da equipe. Eles possuem visão de jogo, criatividade, são habilidosos para saírem de situações desconfortaveis e também assustam nos lances de bola parada.

O ídolo do passado

Eidur Gudjohnsen é o maior jogador da história da Islândia. Jogou com sucesso no Chelsea e teve uma boa passagem pelo Barcelona. Hoje, está no futebol da China jogando pelo Shijiazhuang Ever Bright.

Gudjohnsen é uma peça importantissima no grupo, apesar de seus 36 anos. Ele é um tutor para os jovens jogadores de seu país e é o ídolo no grupo de jogadores que sonhavam em ter a carreira que ele teve, jogando nas melhores ligas do mundo e também nos maiores times.

Mas como um país de apenas 320 mil habitantes, que nunca conseguiu nem chegar perto de grandes competições internacionais, agora briga com os melhores e ainda vence seleções poderosas como a Holanda?

O ponto de virada

Para chegar onde chegaram os islandêses, claro, precisaram de muito planejamento e investimentos para desenvolver os bons atletas que sempre tiveram no país, mas que não conseguiam desenvolver.

Por muitos e muitos anos, o frio descomunal do país tornou impossível que jovens jogadores pudessem treinar e se desenvolver por grandes períodos. O país sempre teve bons jogadores, mas nunca surgiram de uma vez só, como está ocorrendo agora. Os poucos que surgiam não eram devido à infra-estrutura do país, era preciso sair para se desenvolver fora da Islândia.

Então veio a virada: o surgimento de campos artificiais indoor para que os jogadores pudessem praticar o esporte por mais tempo. Antes, o período máximo de prática do esporte dos jogadores islandeses era de apenas 5 a 6 meses. O campeonato nacional, por exemplo, vai de maio até setembro, época do verão, que é a única possível para se praticar o futebol.

Para Gudjohsen os campos artificiais são a razão do sucesso: “Há mais ou menos 13 anos surgiram nossos primeiros campos artificiais de tamanho original. Hoje estou jogando com a maioria deles. Os meninos tinham 10 anos de idade quando surgiram esses campos. Por isso essa deve ser a primeira geração capaz de jogar durante o ano todo na Islândia. Agora estamos colhendo os benefícios”.

Parece que está dando mesmo resultado. Hoje o país tem mais de 100 jogadores de futebol profissionnais fora do pais, nada mal para apenas 320 mil habitantes!

Técnico pra lá de experiente

Outro fator importantissímo é a contratação do Sueco Lars Lagerback para técnico. Ele era tudo que o pais precisava e chegou na hora certa. Ele treinou a seleção sueca na Copa de 2006 e a Nigéria em 2010 e, desde sua contratação, a equipe saiu da posição 104 para a 23 no Ranking da FIFA. Hoje Heimir Hallgrimsson é técnico adjunto com Lagerback e vão levar o pequeno país à sua primeira Eurocopa!

Foto: Getty Images