Opinião: por que o torcedor é tão imediatista e tem medo do diferente?

É claro que o torcedor “comum’, o que assiste apenas a jogos do próprio time, gosta da brincadeira, de provocar na segunda-feira o rival sobre o que aconteceu no domingo. Para estes, não existe a espera, o pensamento no futuro. Mas, principalmente na internet, há inúmeros fóruns com discussões com pessoas que acompanham diversos jogos em uma rodada. Na televisão, obviamente, também. Jornais, revistas. Mas todos os locais e pessoas que deveriam passar a impressão de calma, de análises ponderadas, vivem caindo no mesmo problema: a análise imediatista e o preconceito com o novo. Por quê?

Falemos dos torcedores, mais identificáveis no dia a dia, mais palpáveis, já que todos, ao menos no fundo, são primeiramente fãs de um time e, por isso, acompanham futebol. Abaixo, exemplos típicos de imediatismo e preconceito que estão impregnados no torcedor brasileiro e, provavelmente, mundial.

A foto que ilustra o texto é de Lucas Otávio, volante do Santos. Sua altura declarada no site oficial do clube é 1,64m. A impressão é de menos. Mesmo assim, foi campeão de duas Copas São Pauo pelo clube, em 2013 e 2014, como titular. Na segunda, capitão e eleito melhor da competição. Foi emprestado ao Paraná e destaque da Série B de 2014 pelo clube. Em 2015, finalmente, foi incluído no elenco profissional do Santos. E aí começa o preconceito do torcedor santista.

Por ser baixinho, não importa que suas médias de desarme sejam as melhores do time. Que sua média de acerto de passe seja a segunda melhor, só atrás apenas de Lucas Lima. Não importa que, com a chegada de Dorival Jr., ele tenha virado reserva e perdido uma sequência de jogos. E que domingo, quando finalmente voltou ao time titular, estivesse “desentrosado” com a nova forma de jogar do time.

O Santos levou 3 a 1 com falhas do lateral Daniel Guedes, do goleiro Vanderlei, e com o meia Marquinhos Gabriel perdendo a bola no ataque antes de todos os gols. Para os santistas, e é fácil ver isso nas redes sociais e em fóruns, a culpa foi de Lucas Otávio. Por quê? Porque é baixinho. O detalhe é que nenhum dos gols teve culpa do volante. E que no segundo tempo ele teve que jogar improvisado na lateral direita, já que o titular da posição, Guedes, foi substituído após péssimo primeiro tempo. A culpa, para os santistas, é do baixinho. E em apenas um jogo já decretaram que não pode mais jogar. Imediatismo.

E não há nenhum argumento além do fato dele ser… Baixo. O brasileiro não está acostumado com jogadores de altura diferente. É puro preconceito, não? Quando vemos algo com o qual não estamos acostumados, temos a tendência a deixá-lo de lado. É medo da mudança? Não é possível fazer um paralelo com a sociedade, de como os brasileiros, por exemplo, são violentos – verbalmente e fisicamente – com quem foi diferente e votou em outro partido?

Juan Carlos Osorio Reproducao de TVO segundo ponto é o de Juan Carlos Osório, técnico do São Paulo. O treinador que nunca repetiu uma escalação em seu clube anterior, o Atlético Nacional-COL, tenta impôr o rodízio em seu elenco. E virou alvo de torcedores e comentaristas, que não aceitam tal método.

O São Paulo, mesmo com a saída de 10 atletas, segue em quinto lugar, com a mesma pontuação do quarto e, por consequência, vivíssimo na briga pela Libertadores. Qual a razão, então, para dizer que o rodízio de Osório é errado?

Não seria o mesmo medo do diferente? Por que temos medo e criticamos um técnico que estrangeiro que chega e faz coisas que os brasileiros não fazem? E por que as críticas surgem depois de um ano no qual os técnicos brasileiros foram taxados de antiquados graças ao 7 a 1?

Se o antiquado é ultrapassado, por que o diferente e novo não é aceito?

estatPor fim, estatísticas. Na NBA, NHL e, basicamente, qualquer liga forte e rica dos Estados Unidos, as estatísticas são essenciais. Definem a construção de um elenco, define quem jogará como titular, definem as substituições e definem, até, o salário dos atletas.

No Brasil, porém, qual esporte popular usa estatística dessa maneira? Nenhum. No futebol, o esporte mais retrógrado do país, então, é que os dados numéricos são ignorados.

Assim, quando torcedores, comentarista ou portais usam estatísticas para analisar um jogador, são criticados. Em fóruns, quem usa números para elogiar um jogador é ridicularizado.

Novamente, o preconceito com algo novo. Em mais de 100 anos de futebol no país, os números nunca foram tão existentes, tão buscados. E poucos aceitam sua utilização. São pouquíssimos os técnicos que escalam seus times com base neles. São quase nulos os dirigentes que contratam a partir deles.

Novamente, um espelho da sociedade: o novo assusta e, quando da errado no curto prazo, é esquecido. Por que não há a paciência? Por que o imediatismo vence?

Fotos: Ricardo Saibun/Santos FC / Reprodução SporTV / Divulgação Brasil Escola



Jornalista esportivo.