Dos Aflitos ao Old Trafford, Anderson é exemplo de que o Grêmio ainda sabe revelar jogadores

Crédito da foto: Arquivo/Grêmio.

Cuca afundava-se em problemas de todas as ordens. Pela primeira vez como técnico do clube que o ajudou a ganhar projeção como jogador, ele só foi ter a clara percepção do abacaxi que estava em suas mãos quando começou a tentar descascar. Era 11 de setembro de 2004 quando Alex Stival, o Cuca, assumia o Grêmio com a ingrata tarefa de livrar o clube do rebaixamento.

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A situação financeira era dramática e a folha salarial girava em torno de R$ 500 mil. Nos primeiros treinos, Cuca já notou o quão fraco era o elenco. Queria reforços, mas sabia que não ganharia. Certo dia, foi ao refeitório do clube para tentar esquecer o turbilhão de problemas que invadiu a sua vida e se deparou com um menino franzino, tênis de marca, falando em dois celulares.

Ô moleque, você está maluco? Que negócio é esse de falar em dois celulares?”, perguntou.

Pô, professor, é você que paga as minhas costas?!”, respondia o atrevido Anderson Luís de Abreu Oliveira, de apenas 15 anos.

Em seguida, na mesma conversa, garantiu ao treinador que jogava mais bola que o time profissional. A atitude, que poderia soar arrogante e desencadear uma severa punição, despertou a curiosidade do treinador. Em vez de delatá-lo à direção, Cuca aprovou a personalidade do garoto e o chamou ao time de cima. Dias depois, um clássico Gre-Nal.

O Grêmio não viu a cor da bola. Em pleno estádio Olímpico, foi dominado pelo rival e se livrou de uma goleada. No segundo tempo, tentando apelar para o improvável, Cuca lançou Anderson. Na primeira jogada, uma arrancada. Na segunda, um gol de falta. Pouco depois, Cuca seria demitido do Grêmio – rebaixado naquele ano. Mas o seu legado, talvez o único, seria fundamental para a epopeia vivida na temporada seguinte.

Era 26 de novembro de 2005 quando Anderson mudaria a história do Grêmio. Na chamada “Batalha dos Aflitos”, o tricolor precisava de no mínimo um empate com o Náutico, no Recife, para assegurar o acesso à Série A. E quando os pernambucanos já tinham perdido dois pênaltis, com quatro gremistas expulsos, coube a Anderson dar uma arrancada incrível rumo ao histórico gol que recolocou o clube no seu devido lugar.

Necessitado, o Grêmio não dificultou sua venda ao Porto, onde não se firmou no início por conta de uma grave lesão no joelho. A partir da temporada de 2006/07, Anderson enfim começou a ter grandes atuações em Portugal, o que despertou o interesse de outro grande clube europeu: o Manchester United.

Um novo jogador

Na Inglaterra, Alex Ferguson construiu um novo Anderson. O meia-atacante driblador deu lugar a um segundo volante de posse de bola, com rara visão de jogo e boas arrancadas. Em 2008, o brasileiro viveu o auge em Old Trafford ao participar da campanhã vitoriosa do clube na Champions League, tendo, inclusive, batido acertadamente uma das penalidades da decisão contra o Chelsea.

A boa fase não demorou a chamar a atenção de Dunga, que convocou o meia para alguns jogos das Eliminatórias de 2008 e para as Olimpíadas daquele ano. No fim, acabou não indo à Copa da África em 2010. Em 2014, o Manchester resolveu cedê-lo à Fiorentina, da Itália. Anderson pouco jogou. Era o momento de voltar ao Brasil.

Sim, a nova casa era o Inter. A cada entrevista concedida, Anderson repetia o mantra: “sou profissional”. No Beira-Rio, o meia teve dificuldades em sua adaptação e frustrou os torcedores em seus primeiros meses. Não foi decisivo na campanha que levou o time à semifinal da Libertadores. Mas, com Argel Fucks no comando, apresenta nítida melhora em seu desempenho e seguirá tendo oportunidades para mostrar, no Inter, um pouco daquilo que começou a aprender no rival.

Crédito da foto: Arquivo/Grêmio.



Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Dupla Gre-Nal.