Entrevista: Conheça Tatiana Calderón, a piloto colombiana que almeja a F1

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Tatiana Calderón é a única piloto feminina da Fórmula 3 Européia e atualmente pilota um monoposto da Carlin Motosports, equipe extremamente vitoriosa no velho continente. Nesta entrevista exclusiva concedida ao TORCEDORES, Tatiana conta um pouco sobre sua vida e sua paixão pelo automobilismo.

Comecei a acompanhar a carreira de Tatiana em 2013 quando ela ainda pilotava na Fórmula 3 Britânica, por onde passaram vários campeões como o brasileiro Ayrton Senna. Tatiana já se destacava no pelotão, mas seu equipamento era um tanto limitado e os resultados não eram muito bons, mas seu talento já era notável.

Enquanto fã, existem muitas perguntas que gostaria de fazer. Por exemplo, como começou a paixão de Tatiana pelo esporte a motor? Quando foi seu primeiro contato com um kart? Além destas, muitas outras perguntas, daquelas que você não acha respostas na internet, sendo assim, decidi perguntar para ela, e sobre a questão acima, Tatiana já tinha algo a dizer:

“Eu comecei a correr quando tinha nove anos. Sempre gostei de esportes, mas desde que corri com karts pela primeira vez eu soube que queria ser piloto. Eu comecei em um kart alugado em uma pista na Colômbia e depois de ir lá todo dia depois da escola minha irmã e eu convencemos nossos pais a comprar um. Então desde 2003 minha paixão por esse esporte vem crescendo.

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E como Tatiana conseguia lidar com sua infância tendo de ir à escola e pilotar karts? Será que ela sentiu que perdeu algo enquanto criança?

“É sempre difícil combinar ambos e para meus pais era escola primeiro lugar. Se eu me saísse bem, eu iria poder continuar correndo. Então sempre tive as melhores notas, para que pudesse continuar fazendo o que eu amo. Não tenho certeza se perdi algo da infância, mas se tivesse que escolher não mudaria nada. Eu estava feliz porque estava fazendo o que amava.”

Como todos os pilotos em começo de carreira, Tatiana competiu em muitos campeonatos de kart na Colômbia, sagrando-se vencedora de muito e quebrando recordes, mas avançando um pouco no tempo, em 2011 a vida de Tatiana viu-se a ponto de uma reviravolta: Ela precisava mudar-se completamente para Indianápolis, nos EUA, e se dedicar totalmente às corridas. Como ela e sua família enfrentaram esse novo cenário?

“Foi uma decisão difícil para minha família me deixar ir por conta própria para outro país completamente sozinha, e para mim também que não foi fácil. Mas foi o que eu queria e foi uma experiência incrível poder focar 100% na minha carreia de piloto. Eu tenho que agradecer minha família pela ajuda e apoio na minha decisão.”

A verdade é que por ter pilotado karts, também tinha dúvidas sobre as questões mais técnicas do esporte. A começar pela preparação do piloto, perguntei-a sobre como ela se prepara para um final de semana de corrida.

“Não sou supersticiosa, mas gosto manter meu aquecimento e preparação iguais. Gosto de ouvir música dependendo do meu humor naquele dia, e então fazer o aquecimento com uma corda, uma parede de reação, alongar meu pescoço, etc.”

Tatiana compartilha suas rotinas de treino em suas contas nas mídias sociais, mas ela se prepara para pilotar um carro de corrida que é quase tão exigente fisicamente como um F1?

“É mais difícil do que as pessoas pensam. Correr na Formula 3 é extremamente exigente. Temos velocidade de curva bem parecida com um carro de F1, então a Força G é alta e seu pescoço tem que ser bem forte, mas também seu tronco. No meu caso sendo mulher, tenho 30% a menos de músculos, então preciso malhar um pouco mais para ter um bom nível de força no tronco, porque ao contrário da F1, a F3 não tem powersteering, então nas curvas rápidas o volante fica bem pesado. Sua frequência cardíaca fica sempre alta, então você tem que ser aerobicamente apto também.”

Tatiana é extremamente preparada, como você pode perceber, e uma vez dentro de seu carro ela pode atingir grandes velocidades muito rápido, então a perguntei sobre qual a maior velocidade que ela já atingiu em uma corrida e, claro, se ela sentiu medo. A resposta foi uma surpresa agradável.

“Não tenho certeza, mas acho que foi 280 km/h, e eu amei!”

Na temporade de 2015 Tatiana é parte integrante do time da Carlin Motorsport, então pedi que ela me contasse um pouco sobre como é trabalhar com o time e como é a atmosfera no paddock.

“Carlin é uma das equipes mais bem sucedidas de monoposto e com certeza tenho orgulho de ser parte dessa equipe. Tem sido um ano difícil para mim, o nível do campeonato é muito alto e tem muitos carros, então é difícil me qualificar bem. E esse é o segredo na F3, já que as corridas são mais curtas. Estou trabalhando no meu ritmo de qualificação e espero conseguir marcar alguns pontos na última rodada do campeonato.”

Sabemos que um carro de corrida tem componentes de engenharia e aerodinâmica extremamente avançados e que toda tecnologia embarcada é dominada pelos pilotos e engenheiros, então perguntei como Tatiana lida com a telemetria, e como ela a usa para melhorar seu desempenho nas corridas.

“Por ter começado a correr desde cedo, a telemetria sempre esteve lá. Então você começa a entender como ler todas as informações desde o início. É algo que ajuda muito e quanto mais você entende, mais informações você tira disso. E você precisa ser capaz de tirar o que precisar que ajude você a melhorar.”

E o maior obstáculo que Tatiana enfrentou na carreira? Ela também me contou.

“Eu tive um ano bem desafiador em 2013. Foi meu primeiro ano na F3 Europeia e superar maus resultados e não desistir é muito difícil. Mas aquilo me fez uma piloto melhor e uma pessoa mentalmente mais forte.”

Obstáculos são parte da vida de todos, mas quando se é um piloto profissional eles aparecem com mais frequência e em maior intensidade. Em 2012, quando pilotava pelo time de Emilio de Villota, Tatiana e todo o time tiveram de enfrentar uma situação complicada: O acidente de Maria de Villota. Sobre isso, perguntei-a se o acidente e a posterior morte de Maria havia afetado sua visão a respeito do esporte a motor, que é sabidamente perigoso. A resposta, novamente, foi uma surpresa.

“Sim, aquela foi a primeira vez que competi na Europa e me dei bem com o time. Aprendi muitas coisas dentro e fora da pista, e foi um prazer ter conhecido a Maria, ela era muito determinada e eu a admiro. Foi uma das notícias mais duras de receber com certeza, mas não mudou a forma que vejo o esporte. Ela lutou pelo seu sonho e é isso que também quero fazer. Ela inspirou várias pessoas incluindo a mim.”

O grande sonho de Tatiana é correr na Formula 1, e segundo a própria, ela trabalha extremamente duro para que seu sonho se torne realidade. Seu desempenho está provado na pista, assim como seu talento. Mas Tatiana enfrenta um problema extremamente comum no esporte atual: A falta de patrocínio. É cruel que não possamos acompanhar o desempenho total de pilotos extremamente talentosos como Tatiana. Mas ela tem um plano: Pretende contratar Susie Wolff como manager e angariar patrocínios mais gordos.

Mas Tatiana também gosta de coisas fora do mundo das corridas. Ela é uma grande fã de Roger Federer e de tênis. Pedalar também é uma de suas paixões e ela sempre sai por aí com sua bike sempre que pode.

Enquanto colombiana, ela é fã declarada de Juan Pablo Montoya, ex piloto da Formula 1 e atual vice campeão da Indy. Segundo ela, Montoya criou um grande legado no automobilismo do país e ela se diz extremamente grata por isso, pois possibilitou que toda uma geração pudesse conhecer o automobilismo e não só se apaixonar pelo esporte como também praticá-lo.

Por fim, pedi que Tatiana dirigisse algumas palavras para as crianças que estão começando no automobilismo, principalmente as meninas que querem seguir a carreira de piloto.

“Acredito que você precisa encontrar sua paixão na vida, e não deixe ninguém dizer que você não pode fazer algo. Então lute pelo que você quer e trabalhe duro, porque o trabalho duro compensa.”

E sobre o Brasil?

“Infelizmente nunca pude visitar o Brasil, mas eu adoraria ir muito em breve, quem sabe para correr na F1 em Interlagos. Existe tanta história automobilística no Brasil, e vocês tiveram grandes pilotos como o Senna, que eu não posso esperar a oportunidade de visitar o seu país!”

Agora que você conhece um pouco da vida de Tatiana Calderón, que tal começar a acompanhar sua carreira mais de perto?



Fanático por hockey e automobilismo, escrevo sobre ambos.