Opinião: Patrocinadores não mandam no esporte, quem manda é o torcedor

Se você ficou entusiasmado com o anúncio de que os principais patrocinadores da FIFA estão pressionando Joseph Blatter a imediatamente renunciar, você tem que parar de reclamar que as emissoras de televisão mandam no futebol brasileiro. A mudança no esporte, passa pela profissionalização da gestão visando o torcedor.

Vamos lá, o que todos nós queremos?

Queremos um futebol profissional e conduzido por pessoas competentes, certo? Pois bem, isso significa que esperamos ter profissionais remunerados dirigindo o esporte e um produto (as partidas de futebol, por exemplo) digno do valor pago pelo ingresso – isso seria uma forma de dar fim à corrupção por meio da profissionalização do esporte.

Eu penso assim. Se você também acredita nisso, então devemos ficar “entusiasmado” com o comunicado feito pelos principais patrocinadores da FIFA, que pedem a saída imediata do seu presidente, Joseph Blatter.

“Luis, você pirou! Se não forem os patrocinadores, quem irá mudar o futebol?”, você me diria.

Não pirei. E irei explicar o porquê patrocinadores devem ser aliados no processo de reformulação do esporte, mas não devem encabeçar o mesmo.

É claro que eu quero o fim do mandato de pessoas corruptas em qualquer esporte, seja ele brasileiro ou mundial. Como profissional da área, também sei que patrocinadores e cotas de televisão são o que sustentam o nosso futebol “profissional” atualmente. Mas daí cobrar que os patrocinadores da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) sigam o exemplo dos patrocinadores da FIFA, é pedir que o sistema atual continue.

Porque pensando em administração esportiva, significa dar ao seu parceiro (patrocinador) o poder de decisão. Sendo que o principal interesse do patrocinador é vender o seu produto (refrigerante, hamburger, cartão de crédito, pay-per-view, etc.) para os consumidores do produto maior (esporte). Nesse caso, o patrocinador sempre terá preferência por um presidente que atenda aos seus interesses.

Então o pedido de demissão por parte dos patrocinadores, não significa mudança. Muito pelo contrário. Significa que o atual mandatário, não atende as demandas dos patrocinadores; e deverá ser substituído por um novo que continue o sistema que atualmente beneficia à eles mesmos.

Você reclama de jogo de futebol as 22h na quarta-feira?

Então você não está satisfeito com o atual sistema. Pois jogos neste horário são exclusivamente feitos para a televisão, não para quem vai ao estádio. Esse é só um exemplo para esclarecer o que nós torcedores já sabemos (melhor dizendo, compramos): o uso de “imagens positivas” do esporte vende produtos, e por isso patrocinadores estão interessados (também) em um esporte melhor.

Mas a melhora no futebol deve ter como principal beneficiado o seu consumidor, ou seja, o torcedor apaixonado pelo seu clube-esporte. Esse consumidor que paga ingresso caro ou se associa ao clube para frequentar estádios-arenas de Copa do Mundo no Brasil.

O que temos hoje em dia são federações esportivas que fazem parte de um sistema construído no século passado. E se hoje ele está em colapso, é porque ainda não se adequou as demandas do nosso tempo; onde pessoas possuem maior acesso à informação e exigem profissionais capacitados para gerir o esporte num todo.

Assim, patrocinadores são importantes para o desenvolvimento do futebol. Mas não devem “mandar” no esporte. A entrada de profissionais capacitados é única forma de mudar a atual gestão esportiva. E quem deve ser o maior beneficiado dessas necessárias mudanças são os seus consumidores: o torcedor.

Foto: Getty Images



Luis Henrique Rolim usa do sarcasmo e da linguagem popular para comer as pizzas do esporte. Futebol, surfe e Jogos Olímpicos são seus sabores favoritos. Ama os gordurosos assuntos extra-campo, e por isso tem colesterol acima da média. Debate ideias, não pessoas.