Opinião: O deslumbrante Grêmio de Roger Machado

No dia 19 de maio deste ano, uma decisão mudou o rumo do Grêmio: a saída do técnico Luiz Felipe Scolari e toda sua comissão técnica. Sim, a saída do técnico pentacampeão da Copa do Mundo com o Brasil ajudou o Grêmio a ser um time novo, diferente, moderno e vistoso.

Felipão pediu demissão três dias após a derrota para Coritiba, por 2 a 0. Naquela partida, os torcedores gremistas viram seu time ser encurralado (num show de horrores da defesa tricolor) pelo alviverde paranaense, o qual atualmente encontra-se na 18°colocação.

Uma semana depois, no dia 26 de maio, veríamos a contratação de um técnico totalmente surpreendente (mas condizente com a atual situação financeira do Grêmio): Roger Machado, um jovem treinador de 40 anos, ex-lateral do clube porto-alegrense, e um dos maiores jogadores de sua história, com mais de 400 jogos pelo clube.

Com pouca experiência como treinador, tendo treinado apenas Juventude e Novo Hamburgo, Roger chegou com desconfiança de parte da imprensa gaúcha e da torcida tricolor.

Porém, em menos de seis meses de trabalho, Roger mostra-se uma grata surpresa para todos os amantes do futebol. Com um futebol envolvente, a equipe gremista, que começou o ano desacreditada, está na 3ª posição do campeonato, e está muito próxima de uma vaga na Libertadores da América. Porém, qual seria o principal fator para uma mudança tão grande de estilo de jogo e mentalidade tricolor?

Quando vemos os jogos do Grêmio, podemos ver uma equipe que joga em diferentes esquemas, variando de um 4-1-2-1-2 (com um losango no meio-campo), para um 4-1-4-1 e até mesmo um 4-3-3. Porém, o principal não encontra-se no esquema, mas sim na forma como a equipe porta-se em campo. Com uma média de 379 passes certos por jogo, superior à média do campeonato, de 320, a equipe costuma envolver seus adversários com rápidas trocas de passes, grande movimentação, e com seus jogadores muito próximos um do outro, o que ajuda a equipe a dar poucos chutões e sair jogando com a bola de pé em pé. Isso talvez explique a facilidade com que a equipe infiltra na área adversária, tendo 78% de seus gols saído dentro desta.

Na vitória sobre o Atlético-MG por 2×0, podemos ver a proximidade dos jogadores do Grêmio, fato que evita o chutão e que faz com que a bola seja trabalhada de pé em pé, culminando com o gol de Douglas.

Estamos acostumados a ver uma defesa jogando de maneira alta, próxima do meio-campo, aproveitando-se da relativa velocidade de sua dupla de zaga, Pedro Geromel e Erazo.

Nas laterais, vemos dois jogadores com características diferentes, mas que se encaixam muito bem: Galhardo, com tendências mais ofensivas, tem um cruzamento muito poderoso e um chute de média e longa-distância muito preciso. Além disso, é veloz e consegue recompor muito bem quando a bola encontra-se na posse do adversário. Já Marcelo Oliveira, tem características mais defensivas, sendo sempre muito preciso nos desarmes da equipe (aproximadamente 85% de aproveitamento neste importante fundamento). Entretanto, Marcelo consegue subir bem ao ataque, mas sempre com muita cautela. Além disso, este é polivalente, e, quando preciso, consegue jogar tanto na zaga quanto como volante, com uma impressionante regularidade.

Entretanto, a chave desta equipe encontra-se no meio-campo, que consegue trabalhar tão bem a bola que chega a impressionar até mesmo os admiradores do futebol europeu. E, os jogadores que melhor representam esta bela fase da equipe de Roger Machado têm nome: Wallace e Maicon.

Wallace tem 87% de aproveitamento nos desarmes, e é o jogador com mais passes certos na equipe (1374), com um índice espetacular de acerto neste fundamento de 90%. Wallace é quem, junto à Galhardo e Marcelo Oliveira, inicia as jogadas de ataque gremistas, fazendo a transição defesa-ataque. O jovem é também o jogador com mais cartões amarelos e faltas cometidas na equipe, denotando que, quando necessário, faz o trabalho “sujo” do time.

Porém, Maicon consegue ser tão impressionante quanto Wallace. Ex-jogador do São Paulo, e constantemente criticado pela torcida do clube paulista, “Toni Maikroos” renasceu no tricolor porto-alegrense. Ele tem incríveis 94% de aproveitamento nos passes, tendo dado 1257 passes certos e apenas 80 errados. Ele também é o 3°jogador com mais viradas de jogo certas no campeonato (48). Já no aspecto defensivo, o aproveitamento nos desarmes é de 79%, um número também muito bom para um jogador que, outrora, fora considerado “preguiçoso” por alguns. Maicon é, sem dúvidas, o termômetro desta equipe.

Na meia-cancha ofensiva, Douglas e Giuliano dividem o protagonismo. Douglas, aos 33 anos, é o “maestro” da equipe gremista. O jogador é o “homem” das bolas paradas tricolores, e conta com 5 gols no campeonato. Douglas é o 5°jogador no campeonato que mais dá assistências para finalização (52), e conta com 6 assistências para gol. O meia também tem 828 passes certos, com um aproveitamento de 84%.

Giuliano, entretanto, é o protagonista do meio-campo ofensivo do Grêmio. O jogador, que foi muito importante na conquista da Libertadores de 2010 pelo rival Internacional, chegou com muita pompa à equipe Gremista no ano passado, mas não conseguiu render o que dele se era esperado. Entretanto, com a chegada de Roger Machado, o camisa 8 tricolor cresceu de produção. Vice-artilheiro da equipe com 6 gols, Giuliano é quem também mais dá assistências para gols tricolores, junto à Luan (7). Vale também ressaltar o número de assistências para finalização (54), sendo o 4° neste quesito no campeonato. O jogador é um dos pilares da equipe, que muito sofre sem ele, principalmente sem sua criatividade e dinâmica.

No ataque, o destaque fica para o insinuante Luan. Jogador dotado de muita habilidade, o jovem de apenas 22 anos é o grande destaque individual numa equipe que preza pelo coletivo. Artilheiro gremista com 8 gols, Luan é também quem mais tem finalizações certas pela equipe (32). Além disso, o jovem também é o jogador que mais sofre faltas em todo o campeonato, tendo recebido contato faltoso por incríveis 92 vezes. Ele conta também com 22 dribles certos, o líder da equipe neste quesito. Por isso, podemos falar que a figura de Luan é imprescindível no Grêmio, mas que, por motivos óbvios, deve deixar a equipe em breve, provavelmente para um grande clube europeu. Uma pena para o campeonato brasileiro.

Na outra figura de atraque, temos o revezamento entre o jovem Pedro Rocha e o já veterano Bobô. Pedro dá mais movimentação ao ataque, sendo um ótimo driblador e um grande velocista, mas que ainda peca na finalização. Conta com 5 gols no campeonato. Bobô tem mais presença de área e prende mais a defesa adversária junto a si, ajudando com que Giuliano, Douglas e Luan apareçam mais. Sua finalização é mais precisa que a de seu concorrente por posição, mas o jogador deixa o time um pouco mais lento, fazendo com que seja preterido em algumas ocasiões. Tem 4 gols no campeonato, mas isso pode ser explicado por ter chegado à equipe com o Brasileirão já em andamento.

O Grêmio é o exemplo de um time que pode prosperar, e jogar bonito com jogadores baratos, fazendo uma mescla de juventude com experiência. Podemos colocar o tricolor como uma das grandes surpresas de um campeonato que ainda tende a fazer loucuras em contratações de técnicos e jogadores, mas que se esquece que cifras não fazem bons times, mas sim treinamento e uma visão moderna da maneira como se joga o esporte da bola nos pés. O futebol brasileiro ainda está atrasado em relação a outros países, mas podemos ver no clube porto-alegrense e no jovem treinador uma ponta de esperança.

Obrigado, Grêmio, por me proporcionar a alegria de ver jogos tão vistosos. Não só eu, mas todo o futebol brasileiro agradece.

Vida longa a este Grêmio. Vida Longa a Roger Machado.

Crédito da foto: Reprodução