Opinião: Tu foras forte, tu és grande, mas, dentre os grandes, não és mais o primeiro, São Paulo

Arte/Torcedores.com

Era 22 de novembro de 2015. Para alguns, um dia para se esquecer. Para outros, um dia para se lembrar com muito carinho, pois, para muitos, ele é o dia oficial do fundo do poço são-paulino. Porém, como o outrora soberano, em apenas sete anos, desce para o fundo do poço?

Neste domingo, os tricolores assistiram, incrédulos, a uma derrota acachapante para o arquirrival Corinthians por 6×1. O sentimento de todos, inicialmente, é de raiva. Após a raiva, vem a tristeza. E, depois dessa grande maré de emoção, vem a razão. E essa, depois que chega, faz-te refletir no futuro do clube do coração. E ele é tenebroso, com toda a certeza.

Durante a partida, o time do Morumbi se viu acuado, dominado e humilhado por seu maior rival. E esse é o retrato fiel de um time que, por anos, pensou ser o soberano. Mas não é, e nunca foi. O time alvinegro, por sua vez, saiu do fundo do poço (ao ser rebaixado para a Série B, em 2008) e agora chega à glória, de derrotar seu rival de tal maneira, que tornou a expressiva vitória no maior resultado do clássico, e que simboliza o fracasso total do Tricolor.

No ano de 2005, o time do Morumbi fez um ano perfeito: venceu o Campeonato Paulista, conquistou a América, e depois chegou ao topo do mundo, vencendo o Liverpool. Já em 2006, o time fez grandes participações em todos os campeonatos, sendo vice do Paulistão, vice da Libertadores, vice da Recopa e campeão brasileiro. Para alguns, a trinca de vices foi doída, mas nada que causasse desespero. No ano de 2007, o time foi novamente campeão brasileiro, num campeonato marcado por um time extremamente regular. Já no ano seguinte, o título do Brasileirão veio mais uma vez (de maneira irregular, é bem verdade), mas veio. E, foi neste exato momento, que a soberba tricolor chegou ao seu máximo.

Desde então, o time autodenomina-se “soberano”. Soberano em títulos, soberano em posses, soberano em dinheiro, soberano em organização, soberano em eficiência, soberano em planejamento. Porém, o time esqueceu-se que aquela aparente “soberania” não durava pra sempre. E, desde então, o clube vem numa descendente técnica, financeira, administrativa, etc.

A começar pela parte técnica: de 2009 para cá, a equipe venceu apenas um título (Copa Sul-Americana, em 2012). Além disso, desde então a equipe disputou 73 jogos contra seus maiores rivais (Corinthians, Palmeiras e Santos), tendo apenas 20 vitórias contra estes, um aproveitamento pífio de incríveis 27%. Ainda no quesito esportivo, a equipe teve à frente de sua comissão técnica 10 treinadores desde então.

Na parte financeira, os números são assustadores. O déficit da equipe, até Setembro deste ano, era de 63 milhões da reais. O tricolor tem fechado os meses com um prejuízo líquido de cerca de 7 milhões. E o endividamento apenas aumenta: entre os anos de 2011 e 2014, o clube aumentou este em 115%, chegando em incríveis 341 milhões de reais em dívidas, o 8° colocado neste quesito a nível nacional, e o 2° a nível estadual.

A questão administrativa é tão assustadora quanto. O ex-presidente Juvenal Juvêncio permaneceu na presidência do clube por 8 anos, após fazer uma manobra estatutária para permanecer um mandato a mais. Em seguida, quem assumiu a presidência foi o candidato apoiado por Juvenal, Carlos Miguel Aidar, que fora Presidente da equipe entre os anos de 1984 e 1988, anos marcados pelo título do Brasileiro de 86 e pelos “Menudos do Morumbi”, time que marcou época por ser muito jovem.

Entretanto, sua segunda vez na presidência foi um desastre. Ainda no começo desta, Carlos Miguel “rompeu” com Juvenal, tendo tornado este em seu principal opositor. Durante todo seu mandato, foi marcado por declarações polêmicas, como a em que disse que o rival Palmeiras se apequenava, declaração esta que causou grande mal-estar entre as diretorias. Aidar ainda fez contratações questionáveis, como a do argentino Centurión, pagando cerca de 12 milhões por um jogador ainda em início de carreira. Porém, o ápice do péssimo mandato de Carlos Miguel veio na contratação do jovem zagueiro Iago Maidana, onde o clube pagou 2 milhões de reais por sua transferência, dias após o jogador ser repassado para o Monte Cristo-GO por 400 mil reais. Por isso, em uma reunião com o vice-presidente de futebol (Ataíde Gil Guerreiro), Aidar foi grampeado contando como funcionava um suposto esquema de desvio de dinheiro no clube. A gravação ainda não veio a tona, mas existe, e, devido a esse fato, Carlos Miguel renunciou a presidência do clube, tendo que, possivelmente, responder na justiça por corrupção.

Carlos Augusto de Barros e Silva, ex-braço direito de Juvenal e ex-presidente do conselho deliberativo do clube, assumiu a presidência, tendo que lidar com uma enorme dívida e fracos desempenhos técnicos. Por isso mesmo, já iniciou seu mandato com enorme pressão e também com polêmicas. No dia 09 de Novembro, demitiu o CEO do clube, Alexandre Bourgeois, que fora recontratado após ter sido também demitido por Aidar, e que havia voltado três semanas antes.

Por essas e outras, o tricolor encontra-se na sua atual situação. Ganhando poucos títulos, sendo humilhado por rivais, com uma dívida crescente, e um estádio que recebe cada vez menos público. E as perspectivas para 2016 continuam ruins. O maior ídolo da equipe, Rogério Ceni, se aposentará ao final desta temporada, deixando uma grande lacuna na liderança da equipe. Quem poderia assumir essa liderança, o atacante Luís Fabiano, também deixará a equipe, após não ter respondido tecnicamente bem nesta sua segunda passagem. Outras referências técnicas devem deixar a equipe, como o artilheiro do time no ano, Alexandre Pato. Ganso e Michel Bastos, outros pilares da equipe, também estão constantemente sendo especulados para deixar a equipe, e não podem ser considerados como certos no planejamento do próximo ano.

Por isso mesmo, a goleada para o arquirrival veio em boa hora. Sim, ela magoou. Sim, ela machucou. Sim, ela entristeceu todos nós, são-paulinos. Mas ela serviu para mostrar que nunca fomos soberanos, e que essa falsa soberania só fez mal ao clube, que acostumou-se a vencer, mas esqueceu-se de inovar, mudar, modernizar-se.

E, para começar, esta mudança precisa ser estrutural. Começar de baixo para cima. Trocar diretores que não sejam efetivos em suas funções, contratar uma comissão técnica que seja capaz de entender o futebol atual, e que saiba lidar com um elenco mais barato e enxuto, e contratar jogadores que sejam bons tecnicamente, compromissados e dispostos a levar o São Paulo de volta ao lugar que sempre esteve.

Além disso, é necessária uma maior utilização de jogadores da “famosa base de Cotia”, e não poderá existir a recorrente desculpa de que os jogadores jovens não estão preparados, pois o Campeonato Paulista existe para prepará-los justamente para campeonatos mais importantes. Aqueles que não forem utilizados, devem ser emprestados para conseguirem experiência, posteriormente retornando mais rodados.

Precisamos entender que estamos parados no tempo, e que apenas uma gestão mais consciente da atual situação financeira e técnica pode mudar esse panorama. E, claro, precisaremos apoiar, como já fizemos tantas vezes. Porém, apoiar e não deixar de cobrar. Só desta maneira conseguiremos sair deste grande buraco em que nos encontramos. Somos São Paulo? Sim, somos. Somos gigantes? Sim, somos. Fomos três vezes campeões mundiais? Sim, fomos. Somos soberanos? Não, não somos. E parem com essa alcunha.

Crédito da foto: Arte/Torcedores.com