ENTREVISTA: Conheça Thiago Simões, comentarista dos canais ESPN

Se você é fã de hockey e futebol europeu com toda certeza já acompanhou um jogo comentado por Thiago Simões na ESPN. Os comentários sempre sagazes, os dados estatísticos precisos e o humor são as carecterísticas mais marcantes, mas nesta entrevista exclusiva ao TORCEDORES você vai conhecer um pouco mais sobre a vida e a carreira de Thiago.

A carreira de um jornalista, assim como em qualquer seara, é difícil e com bastante percalços, mas começar é importante, então perguntei pro Thiago como ele se descobriu um jornalista esportivo mesmo tendo que abdicar de um sonho.

Desde garoto, sempre tive duas paixões: escrever e praticar esportes. Lembro de ter escrito um livro com 6, 7 anos, quando chamei a atenção de todo o colégio. No entanto, o esporte começou a tomar conta da minha rotina, até que em 1997, com 17 anos, quebrei o tornozelo jogando futebol de salão. Nesse momento, meu sonho de ser atleta tinha ido por água abaixo e, então, resolvi focar no jornalismo. 

Só que devido às dificuldades financeiras, abandonei a faculdade depois de um ano e meio e resolvi arriscar uma última tentativa no futebol. Me tornei federado e durante uma temporada atuei pelo time do São Paulo Futebol Clube, que disputou a Série Prata, do Metropolitano. Porém, depois desse ano, abandonei meu sonho e voltei a focar no jornalismo, devido a outras lesões e principalmente ao baixo retorno salarial.”

Claro que não deixei de perguntar também como Thiago chegou a ESPN, que hoje é o maior canal de esportes da TV fechada no Brasil.

“Comecei como rádio escuta na Rádio Jovem Pan. Durante cinco anos aprendi muito dentro da empresa. Passei por praticamente todas as áreas jornalísticas. Cheguei até a ter um quadro de games (uma de minhas paixões) e de hóquei em alguns programas. Naquela época, era muito duro e difícil para conseguir qualquer coisa, até mesmo ter um espaço com o microfone, diferentemente do que acontece hoje em dia, onde a pessoal mal chegou e já quer ser comentarista. Não é assim que funciona. Aprendi muito com os excelentes profissionais que por lá estiveram e ainda trabalham na Pan.

A minha passagem na Pan para a ESPN só ocorreu por conta de três pessoas fundamentais. Fábio Sormani, hoje na FOX, Everaldo Marques, companheiro de ESPN e Carlos Belmonte, que na época era chefe de reportagem da Jovem Pan. Devo tudo o que conquistei no jornalismo ao espaço que eles criaram para mim.”

Partindo pros pontos mais específicos, começamos a falar de esporte e o Thiago me falou bastante coisa sobre hockey, como por exemplo o início de sua paixão pelo esporte…

 Tudo começou em 1988, com o videogame. Naquela época, era praticamente impossível acompanhar a modalidade como hoje, devido à falta de informação e internet. Os jogos voltados para a NHL eram perfeitos nesse sentido. Era por eles que você sabia das escalações e estrelas de cada time. Somente na década de 1990, as informações começaram a aparecer mais e, precisamente, em 1992, minha família colocou TV a cabo em casa. Com a ESPN, tudo melhorou e assim pude acompanhar, cada vez mais, o hóquei sobre o gelo. A TV aberta também teve sua importância. Na mesma época, a Bandeirantes deu um espaço grande para o hóquei sobre patins e posso dizer que acompanhava todas as transmissões, principalmente da seleção brasileira, que era uma das melhores do mundo.”

 …e o crescimento e divulgação do hockey no Brasil.

“Acho que de certa forma esse trabalho já começou. Focamos nossas transmissões no entretenimento, fugindo de estatísticas complicadas e de táticas que só atrapalhariam a chegada de novos fãs. Poderia chegar numa transmissão e destilar informação, mas não é esse o caminho. O princípio é de trazer novas pessoas e só com explicações básicas, entretenimento e responsabilidade poderemos chegar em um patamar como o da NFL. O fã de esporte também pode ajudar, divulgando e compartilhando as transmissões nas redes sociais. Como eu disse anteriormente, elas são fundamentais para o cenário atual.Eu sonho em ver o hóquei em um patamar como o da NFL. Quando digo isso, as pessoas me olham torto. Mas pense comigo: se eu não acreditar nisso, quem acreditaria, então?”

E já que o Thiago citou as transmissões, como será que é a preparação de um comentarista para um esporte tão dinâmico e repleto de histórias e estatísticas, assim como o hockey?

“É praticamente um ritual. Sempre estudo para um jogo em dois dias. No primeiro, capto todas as informações pertinentes do time no último mês. No segundo, foco nas atualizações do dia. Além disso, junto o acompanhamento dos jogos que a equipe participou na semana, seja no futebol ou no hóquei. Costumo dizer que tenho uma chave dentro do meu cérebro. Hora ligada no hóquei, hora no futebol. Os livros, independentemente do gênero, são importantíssimos. Te dão palavras e conteúdo para diversos contextos.”

 Junto com Ari Aguiar, Thiago forma a dupla dinâmica das transmissões do hockey na ESPN e os fãs adoram os dois. Fiquei curioso para saber sobre como é trabalhar ao lado de Ari Aguiar…

“O Ari é de outro mundo. É impossível não se dar bem ao seu lado. O curioso é que gostamos de coisas bem diferentes, mas por incrível que pareça, respeitamos o jeito de cada um e nos damos muito bem. Isso nos ajuda muito nas transmissões, pois a interação flui naturalmente e passa um conforto muito grande ao telespectador.”

…e a interação dos fãs de esporte via Twitter?

Eu acho fantástico! É a forma que o fã de esportes tem para se aproximar de uma transmissão e uma ferramenta essencial para ajudar no crescimento da audiência. Sempre faço um trabalho focado nisso, chamando as transmissões que eu participo e ainda fazendo um tempo real na minha timeline. Sempre tento interagir ao máximo com o seguidor.”

Mas a vida de Thiago Simões não é só hockey, o futebol também está lá, e como será que é para um profissional comentar dois esportes tão diferentes e tão parecidos ao mesmo tempo?

“Não é nada fácil. Cobrir e acompanhar um esporte já é algo que te consome de uma forma vertiginosa. Imagine dois? Porém, eu sempre fui do avesso, sempre procurei ser diferente e acho que profissionalmente isso é positivo. Existem momentos que você pode utilizar algo de uma modalidade em outra, seja na cultura esportiva, na informação ou na estratégia de jogo. 

 O preconceito existe sim. O mais triste de tudo é que ele existe muito mais dentro da profissão do que fora dela. Era de se imaginar o contrário, que um leitor, um telespectador ou ouvinte tivesse aflorado esse preconceito, mas infelizmente ele vem de dentro, da nossa própria classe jornalística. Espero que um dia esse cenário mude.”

E quais times Thiago torce? Quais outros esportes ele acompanha?

“Olha, é mais fácil falar de que esporte eu menos gosto. Pra você ter ideia, quando era garoto, acompanhava todos os sábados de tarde o campeonato de pelota basca, na TVE. Por aí você já deve entender por onde anda minha loucura esportiva. Talvez o esporte que eu tenha menos afinidade seja o vôlei. Além do hóquei e do futebol, tenho times na MLB (Red Sox), basquete (Knicks) e NFL (Jets).”

E o esporte que o Thiago gostaria de comentar um dia? Eu também perguntei.

“Olha, essa pergunta é muito legal. Críquete seria um deles. Apaixonei-me pelo esporte, em 2010, e desde então, acompanho sempre que tenho tempo. Quem sabe um dia…“

A Stanley Cup Finals, final da NHL, é um evento grandioso e tem comentaristas de vários países onde o hockey é um esporte difundido comentando in loco, sobre isso, Thiago demonstrou sua vontade.

“Comentei alguns jogos in loco, principalmente, na época da Rádio ESPN. É difícil pegar um em especial, porque considero todos que eu faço importantes. Sempre tento encontrar algo de legal em um jogo para transformá-lo em grandioso, tanto para mim, quanto para o fã de esportes. Costumo dizer que, independentemente do jogo que eu faço,  dedico-me como se estivesse em uma final de Copa do Mundo. Sobre um sonho, com certeza seria fazer uma Stanley Cup Finals e, quem sabe, um jogo de Copa do Mundo, indiferentemente, de qual seja. “

Mas e a vida fora das cabines de transmissão? O que um comentarista de esportes faz no tempo livre?

“Cuidar do meu lado espiritual, com Deus, talvez seja o principal. Com o mundo atribulado que vivemos é importante ter em quem se apoiar, em algo que só vai te dar amor e não te surpreender negativamente. Gosto muito de jogar videogame, hóquei in-line, e curtir minha família, com um bom filme ou seriado. A leitura também faz parte desse contexto, junto com os eventos esportivos. Não é nada fácil conciliar todos ao mesmo tempo, mas tento me organizar para que tudo flua da melhor forma possível.”

Por último, perguntei ao Thiago como ele se sente por ser um dos expoentes na divulgação do hockey no Brasil, e sua resposta foi bastante surpreendente. Na boa expressão da palavra.

“Acho que não existe isso de grande expoente. Jamais me consideraria uma pessoa assim, até porque não faz parte do meu modo de ser. Estou longe de querer glórias e da guerra de egos que existe em qualquer profissão. Quero apenas fazer meu trabalho da melhor forma possível e ser considerado uma pessoa que passa felicidade aos outros. Mas sobre a divulgação, creio que todas as pessoas envolvidas com o hóquei, direta, ou indiretamente, são os grandes expoentes da modalidade no Brasil. Seja um jogador, técnico ou árbitro, seja um comentarista, um narrador ou o fã de esportes. “

Não é sempre que temos a chance de entrevistar grandes personalidades do esporte brasileiro, mas Thiago Simões é um exemplo de que se as coisas forem feitas com amor, darão certo. Os bons frutos são apenas o agradecimento à tudo isso.



Fanático por hockey e automobilismo, escrevo sobre ambos.