Opinião: 2015, o primeiro ano do Santos de Modesto Roma

Divulgação/Santos F.C

Pode-se dizer que o ano de 2015 foi no mínimo curioso para o Santos. O time da Vila mais famosa do mundo vivia momentos difíceis, incertezas sobre todos os aspectos relevantes da vida do clube imperavam, falta de dinheiro, dívida, jogadores saindo por falta de pagamento na justiça, a bombástica venda de Neymar, ambiente político efervescente. Impossível não se avistar as negras nuvens que circulavam por lá.

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O final de 2014 escancarou, mais uma vez, a falta de transparência (e porque não dizer idoneidade) no processo eleitoral promovido pelo clube. Acusações de fraudes e uma muito mal explicada falha nas urnas fizeram com que as eleições fossem adiadas, o que resultou num menor número de sócios para a votação em Santos, pois tal manobra fez com que não comparecessem na semana seguinte muitos não residentes da cidade, é um evento para quem é de fora programável de acordo com o cotidiano de cada um, e as previsões, existentes somente em Santos até então da vitória de Modesto, se confirmaram. Mais da metade do número de associados não compareceram a eleição. Em São Paulo, o processo fluiu normalmente, e não ocorreram problemas com as urnas.

Desta forma, Modesto Roma Junior tornava-se o novo presidente do Santos FC para o mandato 2015/17, repleto de problemas que lhe exigiriam ações imediatas, o maior deles, equalizar em curtíssimo espaço de tempo a importância de cerca de R$ 60 milhões para honrar os compromissos financeiros do clube, a composição do Conselho Gestor para a tomada de decisões conforme rege o estatuto, atrair parceiros para compor as receitas, evitar a saída de jogadores via justiça, contratar jogadores sem dinheiro disponível, evitar, o que até então se desenhava, o desastre técnico tão proferido aos quatro cantos do mundo por boa parte da imprensa, e grande parcela de sua própria torcida. Era o Santos desenhado e fadado ao fracasso iminente, na visão destes.

Nada animador, os primeiros passos do Santos no ano eram repletos de dúvidas… apostas em veteranos e nomes desconhecidos para a composição do elenco, a importante manutenção de Robinho para o primeiro semestre, descontentamentos com Enderson Moreira, queda de braço entre a cúpula de Modesto e Conselho Gestor, efetivação de Marcelo Fernandes como técnico… com garra e vontade de vencer, e jogadores unidos para tirarem o clube dessa situação incômoda, o Santos fez um brilhante Campeonato Paulista, um futebol alegre e envolvente, de toques rápidos e muita velocidade, e trouxe ao torcedor santista a esperança por dias melhores, após o merecido título regional. O Santos campeão paulista parecia não se abalar com tantos problemas, e dentro das quatro linhas via Geuvânio, Lucas Lima, David Braz, Robinho e, principalmente, o veteraníssimo Ricardo Oliveira, comandarem a equipe rumo ao título.

De todas as dúvidas, a certeza de que Ricardo Oliveira, foi a precisa e certeira aposta que deu muito certo, mas muito certo, tanto, que o nosso pastor se tornou artilheiro dos campeonatos paulista e brasileiro. E gol não nos faltou. Valorizado, tanto no mercado, quanto esportivamente falando, regressou a seleção, quando não podia imaginar, e até gol por lá fez também…mas ao longo do ano, outras apostas, para outros campeonatos de importância maior inclusive, mostraram-se um verdadeiro fiasco. Mas diante da atual realidade vivida pelo clube, poucas lhe eram as opções, e inevitavelmente tal recurso era previsível. E assim, cambaleante no início do Campeonato Brasileiro, e nada animador nas primeiras partidas da Copa do Brasil, somada a saída de Robinho, a equipe fechava o primeiro semestre…sem recursos, a notória queda de receitas que se concretizaria ao longo do ano não contribuiu para a formação de um elenco mais qualificado, principalmente para a disputa do campeonato brasileiro, e apesar dos bem-vindos acordos pontuais, mais uma vez pesava a falta de patrocínios, entre eles o master, e um mal planejamento na sequência da temporada, marcavam a equipe do segundo semestre.

Irreconhecível. Em nada, o Santos das primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro se parecia com a equipe que ganhou o campeonato paulista. Time previsível, sem inspiração, sem objetividade, mal posicionado em campo, e extremamente desligado. Um treinador que não conseguia mais acertar a equipe, perdido em sua pouca experiência e desamparado em campo pela saída de Robinho. Era a volta da previsão pessimista. “Agora o Santos cai”. E até o jogo da piaba sofrida diante do Goiás, o quadro parecia perturbador e complicado para se mudar.

Amparado pela necessidade de mudanças, e apoiado por parte da torcida, Modesto contrata Dorival Junior, a quem coube a ingrata tarefa de recuperar a confiança e o bom futebol apresentados no primeiro semestre. Também é verdade que Dorival enfrentou resistência de parte da torcida, que gostaria de ver uma aposta mais ousada, que fugisse da mesmice técnica e dos mesmos nomes que são tão comuns e que sempre surgem nesses momentos. Não precisou de muito tempo para que Dorival comprovasse a escolha, e em pouco tempo, acertou a equipe (Principalmente em casa), apostou em valores importantes como Thiago Maia, encaixou uma maneira de jogo eficaz e consistente, recuperou a confiança e o bom futebol que todos esperavam dessa equipe.

Em casa, tornou-se praticamente imbatível, mas o comportamento adotado nos jogos fora de casa na Copa do Brasil não se repetia no Brasileiro, com poucos triunfos fora de seus domínios, cada vez mais, apesar da boa recuperação e dos excelentes jogos acertados ao longo da competição, o Santos distanciava-se da luta pelo título, mas vislumbrava a possibilidade de classificação para a Libertadores através do G-4.

De possível rebaixado, agora haviam duas possibilidades para se voltar para a competição continental. Pela Copa do Brasil o time sobrava, era mais confiante, estava acima de seus adversários principalmente no fator emocional, onde tudo dava certo, e dessa forma passou por Corinthians, São Paulo para chegar as finais contra o Palmeiras em momento mais favorável, o equilíbrio apresentado na competição pelo alvinegro não se via na oscilante equipe palestrina.

E entre todos os altos e baixos vividos pela equipe durante o ano, os eventos a seguir foram com certeza os mais decepcionantes para o clube e para sua torcida. Escolhas erradas, a qualidade contestável do elenco, e até um certo paternalismo fora de hora, levaram o clube das boas chances de ir pra Libertadores para o decepcionante sétimo lugar de um Campeonato Brasileiro que não se disputa de maneira convincente desde 2007, e a frustrante perda da copa do Brasil.

Muito se alegou que a pedido do Santos, e após concordância entre os envolvidos nas semifinais da Copa do Brasil, foram adiadas as datas dos confrontos da final. Dizer que o Santos deixou de ser campeão por conta disso seria exagerado, mas contribuiu para que o adversário se recuperasse, serviu para que o time perdesse o embalo, nivelando a disputa, onde até então, embalado e num momento mais favorável, era superior. As apostas em jogadores como Nilson e Leandro cobraram as suas contas, e por uma decisão no mínimo paternalista, comprovou-se errada a decisão em poupar os jogadores diante do Coxa. Alguns nomes, Ricardo Oliveira, Renato talvez, tudo bem, mas o time todo, necessitando da vitória, foi irresponsável.

Vale lembrar que se vencêssemos Flamengo e Coxa, chegaríamos ao jogo contra o Vasco com quatro pontos de vantagem sobre o São Paulo, para decidir a manutenção da vaga em casa contra o Atlético-PR em larga vantagem. Demos de mão beijada a vaga para eles. Faltou compromisso. Faltou inteligência. Faltou comando. Não, Dorival não perdeu o comando do time, não é isso, mas naquele episódio, faltou impor autoridade em se posicionar contra a decisão do elenco, era momento de se pensar no clube, nas competições, na importância da conquista daquela vaga, inclusive financeiramente. E a direção mostrou-se complacente com tudo isso. Pagou o preço de sua ausência nesse sentido, ou de sua insanidade, se tudo isso ocorreu com sua concordância.

Não vou mencionar o gol perdido do Nilson, mas perdemos sim muitas outras oportunidades que poderiam ter matado o confronto na ida, com uma boa vantagem. E o Santos da final na casa deles, foi o Santos que até então não havia entrado em campo pela Copa do Brasil, o Santos fora de casa no brasileiro, apático, omisso, submisso.

Entre equipes tão equilibradas, natural que tudo terminasse como terminou, conosco nos sagrando campeões do Paulistão ao decidir em casa, e eles, da copa do Brasil decidindo na casa deles. É legal reviver esses bons momentos de rivalidade, é ótimo para o nosso futebol de São Paulo que tenha acontecido tudo como foi em 2015.

Financeiramente, com toda a perda de receita, a situação ainda é preocupante. Estimam-se que cerca de 11% da receita total foi perdida, caímos duas posições no ranking de maiores rendimentos do futebol brasileiro, hoje somos nono, somos a equipe paulista com a maior dívida entre os grandes, e o aumento da dívida (26% entre 13-14) coincide com toda essa perda (Fonte Jornal a tribuna -18/12), claro que esse período, ainda representa os números da direção anterior, mas em meio a tantos problemas, é satisfatório ao menos que tenham sido sanados os problemas de pagamento, os acordos pontuais foram bem sucedidos, foi positiva a parceira com a empresa aérea Air Maroc, experiência diferente e criativa, há possibilidades de boas parcerias.

Nesse sentido, a direção se mexeu, trabalhou, e justificou o trabalho. Considero da maior estima e do mais profundo respeito e apoio, sua postura, mesmo que diante de um ídolo, em favor do clube, em nome do clube, pelos interesses do clube. Louvável atitude do presidente no caso Neymar. Mas não compactuo, e isso não é exclusividade da direção de Modesto, com essa situação do Robinho, que sai pensando em voltar, e volta pensando em sair, e com isso, o Santos sempre acaba lhe devendo, e sempre acaba refém de um modelo que já se mostra cansativo e totalmente descrente. Como não faz sentido construir “arena para 25 mil pessoas”.

Oras, quer dizer então que teremos um estádio “moderno”, mas sem capacidade para receber por exemplo a final da Libertadores, cujo regulamento exige capacidade maior ?? Nova arena moderna que continua a deixar seu torcedor sem poder prestigiar na sua casa um evento desse nível ?? Não faz o mínimo sentido, embora seja totalmente favorável a construção de um estádio. Mesmo que o problema a se equacionar seja como ter um estádio de 40 mil se nem a a Vila com a hoje capacidade atual vive cheia.

E, ao meu ver, falta para a direção Modesto Roma Junior solucionar aquele que entendo ser o maior problema do clube, e que reflete, negativamente, em todos os sentidos de sua vida, que é o claro e nítido distanciamento do clube com os torcedores de outros lugares. O Santos precisa se aproximar mais dos seus torcedores, capitalizar o potencial de sua torcida principalmente na capital, expandir sua já mundialmente marca além das atuais possibilidades, e pra isso acontecer é necessário uma união que a princípio não vejo em Modesto Roma.

Apesar da inauguração da nova bela sede em São Paulo, o presidente do Santos FC não pode dar uma entrevista tão arrogante como a concedida certa vez no Pacaembu quando lhe perguntado se a renda havia lhe agradado. Não pode haver soberba do presidente de uma entidade como o Santos FC para com seus torcedores, ainda mais no território onde sua torcida é maior! É atirar no próprio pé, presidente! Apareça mais na sede em São Paulo, dedique alguns dias da semana de suas atividades no cargo utilizando de suas dependências, traga o Santos para próximo de onde está o dinheiro que o clube tanto precisa.

Dirigir o Santos implica numa tarefa árdua. Não é fácil para um clube de fora de uma capital conseguir os mesmos recursos financeiros, utilizar da mesma infraestrutura de uma capital, aproveitar-se de tudo que uma metrópole oferece, mas é exatamente isso que faz do Santos tão especial. Mesmo que as condições não sejam as mesmas, não nos falta nada dentro de campo que nos faça dever algo a quem quer que seja. Há uma boa e satisfatória estrutura oferecida para todos em suas dependências. Mas falta unir a todos como um só, pois somos todos torcedores do Santos FC !!

De enfiado num abismo, a campeão, brigando por Libertadores até o fim, emplacando pela primeira vez na história do futebol nacional um artilheiro do paulista, brasileiro e copa do Brasil respectivamente. As nuvens negras transformaram-se em um belo capítulo de uma história que insiste em se fazer nos verdejantes gramados desse maravilhoso esporte. E dentre erros e acertos, Modesto termina seu primeiro ano de maneira positiva, com boas opções de negócios, planejando um time mais competitivo e melhor qualificado para as disputas de 2106. É acreditar e esperar que os erros desse ano foram assimilados, os nomes que surgem refletem de fato nossas reais carências, e com mais duas ou três contratações pontuais, temos tudo para termos uma equipe mais forte e mais competitiva, em que pese a insistente mentalidade colonial que afastam São Paulo e sua grande torcida de uma proximidade maior com o clube, coisa que Modesto não se mostra muito disposto a resolver.

Crédito da foto: Divulgação/Santos F.C



Um torcedor apaixonado pelo Santos FC