Opinião: Futebol, um caminho só de ida

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Todos os dias, acordamos com os noticiários espalhados pelos diversos veículos de comunicação sobre a repentina explosão de contratações do futebol chinês por aqui. É o reflexo da nossa atual vocação, profissionalizar ligas emergentes, como fizemos com Japão, mundo árabe. Mais um mercado com os bolsos carregados a competir com os nossos clubes combalidos. E ainda falta explodir de vez mais um concorrente, próximo, o americano. É muita coisa para competir, sem ter condições de encarar a luta.

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Mas, se no plano econômico sofremos com mercados emergentes cheios da “bufunfa”, sofremos mais ainda para nos adaptarmos a nova realidade em que se encontra o futebol nacional.

O futebol brasileiro, hoje, não passa de mero gerador de mão obra barata, e não afirmo isso baseando-me meramente em questões como a qualidade do atleta, seu valor de mercado e etc, mas sim baseando-me num mundo totalmente fora da realidade de qualquer situação da sociedade, onde há um montante absurdo de dinheiro que por lá circula, e que ainda assim, torna clubes reféns da incômoda frase “Os clubes não tem dinheiro”.

Os valores que por aqui orbitam são enormes, mas sem fôlego, se comparados ao mercado europeu. Quem paga o salário do Messi hoje? Do Neymar, do Cristiano Ronaldo, e de tantos outros jogadores por aí? Duro dizer isso, mas hoje, nos atuais dias, o futebol italiano (Apenas para citar um mercado de lá) não consegue ter um cara desses em nenhuma de suas grandes e tradicionais equipes porque simplesmente não dá pra pagar! Algo impensável tempos atrás, onde se tinha Baggio, Zico, Maradona, Careca, e tantos outros..

Aqui então, nem se fala, sequer conseguimos segurar nossos jogadores. Sabem quando teremos novamente no Brasil equipes como o Santos de Pelé, São Paulo de Telê, Flamengo de Zico? Do jeito que estão hoje as coisas, nunca mais amigo! Quem viu, viu, quem não viu, já era! E apesar disso, com todos os problemas que o Corinthians hoje atravessa pra manter seus principais jogadores, por exemplo, ainda em nosso continente temos o melhor nível de competitividade, e até melhor qualidade, mesmo com tantos jogos sofríveis.

O atual campeão brasileiro, apesar de toda receita adquirida ao longo do ano, não tem grana pra competir com esses mercados, porque toda a grana que circula no mundo do futebol por aqui, acaba, de uma maneira ou de outra, por refletir na total falta de equilíbrio financeiro que os clubes vivem.

E aí, não se trata de uma simples questão econômica em relação aos europeus, mas principalmente de organização, nome esse que razões lógicas explicam tamanha relutância. É bom ser cartola por aqui. Suas ligas, suas receitas, mesmo que não perfeitas e de diferenças astronômicas nos orçamentos em determinados casos, estádios bem elaborados, garantem antes de qualquer coisa público, fiel da primeira a quarta divisão, se preciso for, porque o produto oferece um espetáculo que independe dos times em campo, isso atrai parceiros, investidores.

Infelizmente, já está provado que não é possível esperar das autoridades responsáveis como a Fifa, confederações e federações locais a fórmula para que não se instaure o abismo perpetuamente como o atual modelo, mas espera-se sim dos clubes, a “irmandade” tão cantada da boca para fora para juntos instituírem condições para o aumento do nível técnico, da organização, e do espetáculo futebol que hoje nossos clubes proporcionam.

A luz está no amarelo, é necessário uma pesquisa agora para se saber qual grande jogador nacional, e que já não esteja por lá, foi negociado para uma tradicional equipe do futebol europeu, o que antes já estava na ponta da língua. É o que os clubes querem para si?

Serem meros fornecedores de “pé de obra” barato, serem apenas junto com nossos hermanos uruguaios e argentinos os responsáveis por colocar ligas e mercados emergentes aos olhos do mundo e ajudá-los a se profissionalizar? É para isso que somos pentacampeões do mundo?

Do que adianta ser o único país no mundo, com 12, 13 grandes e tradicionais clubes, se isso não reflete na qualidade de um produto que tem todas as condições de ser único? Num caminho traçado apenas para ida, a esperançosa investida do esporte interativo isoladamente não adiantará em nada, se as coisas do futebol continuarem a servir ao atual modelo, que ano após ano só faz aumentar o abismo, técnico e econômico, entre nós e eles.

Crédito da foto: Getty Images



Um torcedor apaixonado pelo Santos FC