Visionário, idealizador do DataESPN quer ajudar o futebol brasileiro a evoluir

Divulgação/ESPN

No Brasil, o futebol é tratado como paixão não só por torcedores, mas especialmente por diretores dos clubes. E essa paixão excessiva muitas vezes faz com que a análise sobre determinado time, ou jogador, seja contaminada por fatores que não deveria.

Leia Mais: “China brasileira”, Palmeiras prevê superávit em 2016, ao contrário de rivais
“Não aceito outra luta que não seja pelo cinturão”, diz José Aldo
Em busca de zagueiro, Lazio tem interesse em Jemerson, Réver e Rodrigo Caio
Como um telefonema de Guardiola mudou o rumo da carreira de Messi, e dele próprio

Foi em busca de uma mudança na cultura futebolística nacional que surgiu o DataESPN. Idealizado pelo jornalista Renato Rodrigues, que passou pelo jornal Lance! e também foi analista de desempenho do Corinthians, o departamento da emissora chega para dar mais embasamento aos comentaristas do canal na hora de analisar não só equipes, como também atletas individualmente.

“Quero que o DataESPN não seja apenas o primeiro departamento de análise de desempenho da TV brasileira, mas sim uma referência em estudo e conceitos de futebol. Acho que, qualificando o conteúdo que nós debatemos, temos tudo para ajudar na revolução que o futebol no nosso país tanto precisa”, diz Renato, em entrevista ao Torcedores. Confira abaixo o bate-papo com o inovador Renato Rodrigues.

Torcedores: Como surgiu a ideia de criar o DataESPN?

Renato Rodrigues: Eu ainda estava no Corinthians, onde eu era analista de desempenho, mas mantive sempre meu vínculo com o jornalismo. Por ser formado na área, manter amizades da época que fui repórter do LANCE! por quatro anos. Em uma destas conversas, falei do meu trabalho dentro do clube para uma amiga que na época estava na ESPN, a Camila Mattoso. Ela achou que os tipos de conceitos que eu trabalhava teria muito espaço dentro da emissora, que sempre buscou discutir futebol de forma mais aprofundada. Depois de pensar muito na ideia e ver que a TV brasileira não tinha nenhuma ideia como o DataESPN ainda, resolvi apresentar um projeto de departamento para a ESPN. Os editores daqui gostaram muito e passamos a conversar por vários meses para desenvolver todo esse plano. Tinha comigo que, se fosse para voltar ao “jornalismo” – entre aspas porque eu sigo sendo um analista de desempenho, mas dentro da mídia -, tinha que ser usando todo esse conhecimento que tive na minha passagem pelo Corinthians, onde aprendi muito com todos: diretoria, comissão técnica, o próprio CIFUT que me recebeu e ajudou na minha adaptação.

Aos poucos tudo foi saindo do papel. Vi na ESPN um local com abertura para isso. Não foi uma decisão fácil, mas hoje fico feliz pelo departamento estar crescendo e tendo reconhecimento, tanto internamente quanto externamente, já que às vezes recebo mensagens por email e redes sociais elogiando a nossa iniciativa. Ainda estamos no começo de tudo, ainda há muita coisa para se ajustar e desenvolver. Trata-se de um departamento que tem muita margem de expansão. Quero que o DataESPN não seja apenas o primeiro departamento de análise de desempenho da TV brasileira, mas sim uma referência em estudo e conceitos de futebol. Acho que, qualificando o conteúdo que nós debatemos, temos tudo para ajudar na revolução que o futebol no nosso país tanto precisa. Acredito que a falta de qualidade não está apenas nas estruturas dos clubes, confederações e o restante que participa do dia a dia do futebol, nós da imprensa também deixamos a desejar há muito tempo. Precisamos nos qualificar mais para criar opiniões melhores nos nossos leitores, ouvintes ou telespectadores. A minha grande missão aqui no DataESPN é essa, trazer mais conhecimento e entendimento de futebol a quem nos assiste.

Torcedores: Quantos jogos você assiste para poder encontrar o padrão de uma equipe?

RR: Geralmente uso como base de qualquer análise os últimos quatro jogos de cada equipe. Claro que, quando há troca de treinador ou uma desfiguração muito grande nos 11 que vem jogando, acaba sendo situações atípicas, e que seria até leviandade apontar isso ou aquilo na forma de jogar. Acabo levando mais em consideração sempre o primeiro tempo, já que, na segunda etapa, às vezes já existe alguma alteração no cenário do jogo, substituições, conversa de vestiário. Com tudo isso, alguns padrões acabam mudando, já que o jogo também passa a ser outro. Como você disse, o mais importante é buscar padrões nas equipes, sejam eles no momento ofensivo, defensivo, transições ou mesmo bolas paradas. Aqui no DataESPN queremos levar ao telespectador muito mais que lances curiosos ou plásticos, queremos aprofundar as análises e levar conceitos de futebol que são trabalhados no dia a dia dos grandes clubes. Essa busca com padrões relevantes e qualitativos nas análises, inclusive, é a função dos analistas de desempenho que trabalham pelo Brasil e mundo afora. Por isso digo que aqui sou muito menos jornalista e muito mais analista de desempenho.

Torcedores: Alguma vez, na busca por esse padrão, encontrou um time onde o padrão era não ter padrão?

RR: A grande questão é que no futebol não existe certo ou errado quando eu faço alguma análise. Claro que tenho minhas opiniões e ideias do que é o mais adequado para se praticar futebol, mas a função do analista de desempenho, tanto no meu caso quanto nos que trabalham em clubes, é reportar o que acontece e filtrar o que é ou não relevante para ser passado adiante. Digo isso porque são muitos dados e situações que visualizamos dentro de um modelo de jogo. Algumas coisas são de relevância para o treinador, outras não. Fora que aqui tenho que pensar no cara que está assistindo o vídeo em casa. Tenho que fazer com que o material seja o mais didático possível, já que não adianta de nada o torcedor não entender a ideia que quis passar. E outra, o telespectador não tem a obrigação de ter um entendimento de jogo avançado. Temos que tentar mostrar o futebol para todos, da forma mais clara e simples possível.

Não há dúvidas que existem times sem padrões táticos. Mas também há equipes assim que conseguem sucesso em alguns momentos da temporada, seja pela qualidade individual dos jogadores, situação do jogo ou mesmo do campeonato. Claro que, com um coletivo fortalecido e organizado, as chances de sucesso são muito maiores, já que o individual cresce nesta hora. Mas o futebol não é certo, não é matemático.

Torcedores: Qual o time mais bagunçado taticamente da última temporada no futebol nacional?

RR: É difícil apontar isso. Em uma só temporada as equipes mudam muito, passam por altos e baixos, tanto tecnicamente quanto taticamente. Creio que o primeiro semestre do Vasco foi de muita falta de organização dentro do campo de jogo. Tanto que depois, com os mesmos jogadores, a equipe reagiu muito bem. A partir que um modelo de jogo foi bem trabalhado e os jogadores entenderam a ideia, as coisas fluíram melhor. A questão é que não se faz um time de uma hora para outra. É preciso tempo para trabalhar um jeito de jogar. Todo um trabalho no dia a dia para criar comportamentos individuais e coletivos que façam com que a engrenagem toda dê certo. No meio de um percurso assim, de uma temporada inteira, existem ajustes e mudanças que os treinadores são, muitas vezes, obrigados a fazer.

Prefiro exaltar bons trabalhos que vi no último Brasileirão. Nomes novos com o de Roger Carvalho surgindo. Gostei muito das ideias de Milton Mendes no início da competição pelo Atlético-PR, do Guto Ferreira na Ponte Preta e depois na Chapecoense. O professor Mano Menezes, que tive o prazer de trabalhar no Corinthians, também conseguiu montar uma equipe de alto nível no Cruzeiro, pena que ele não seguiu no cargo para esta temporada. A forma com que jogou o Corinthians, sem dúvida, foi o ponto alto de 2015. Estive por lá até a virada do turno e sei como trabalharam o professor Tite e todos no clube para alcançar estes resultados.

Torcedores: De onde surgiu a ideia de sugerir reforços para os times brasileiros?

RR: A ideia inicial que tivemos foi fazer um estudo de cada elenco da Série A visando a temporada 2016 e usá-lo nas semanas de Natal e Ano Novo, que geralmente não tem muito assunto no meio esportivo. Criamos telas com este estudo dos elencos, um vídeo de análise relacionado a eles e algo em texto sobre o atual panorama de cada plantel. Dentro deste estudo mais aprofundado, onde tentei entender mais a função de cada peça do que propriamente a posição, consegui chegar a algumas posições carentes ou setores que precisavam de características para dar mais profundidade e alternativas ao seu treinador.

Na minha época de Corinthians, sempre cuidei mais da parte de prospecção de jogadores. Fazia todo o filtro de competições e regiões a serem observadas, sempre tentando descobrir talentos e indicá-los à diretoria para futuras contratações. Observava um por um da Libertadores, por exemplo, indicava suas características nos relatórios e criava grupos de jogadores prontos, outros com potencial futuro. Então, eu já venho de uma base grande de conhecimento sobre atletas, principalmente da América do Sul. Inclusive eu sigo fazendo por conta própria esse acompanhamento de jogadores, já que é algo que eu gosto e que pode me abrir mais portas futuramente. Com isso, vi que, se fosse um clube e tivesse uma carência, eu teria o momento de indicar um atleta. Pensei: “Porque não fazer isso aqui no DataESPN também?”. Com a indicação vinha uma análise com a região do campo que o jogador atua, suas principais características e valor de mercado. Não foi algo direcionado aos clubes em si, mas vários nomes que apresentamos ao torcedor estão sendo sondados ou contratados por clubes brasileiros ou europeus nessa janela. Isso mostra que o olhar continua bem treinado, não é? (risos).

Torcedores: E quantos jogos de cada jogador você analisa para concluir que ele é o ideal para determinada equipe?

RR: Fazia essa prospecção de atletas mesmo antes de entrar no Corinthians, mas foi lá que fiquei mais profissional neste trabalho. E aprendi que observar um jogador vai muito além da quantidade de partidas que se deve assistir para chegar a uma conclusão. A primeira questão a ser olhada é o modelo de jogo da equipe que você quer indicar alguém. Esse é o primeiro direcionamento que você precisa ter. Existem muitas formas de se jogar e cada jogador se encaixa melhor em cada uma delas. Inclusive existem equipes que tem seu modelo de jogo enraizado na cultura do próprio clube. Esse é um conhecimento que você precisa ter e entender, não tem jeito. Por isso acredito mais na função que o atleta possa cumprir dentro de toda uma engrenagem do que propriamente a posição dele em campo.

O ideal é ver o jogador em várias situações. Em casa, fora, em clássico, com placar adverso, ganhando. Tudo isso vai te levar não só a uma conclusão técnica e tática dele, mas também psicológica. Quando você observa um jogador para um time grande, a primeira coisa que busco é o trato dele com a bola, quanto refinado ele é tecnicamente, seu primeiro toque, sua velocidade de execução. Quando você está em um Corinthians, São Paulo, Flamengo, por exemplo, em 80% das partidas da temporada você vai propor o jogo. Então você precisa de atletas que tenham a capacidade de ficar com a bola e tomar boas decisões com ela. Se você está em um time menor ou que busca mais os contra-ataques e um jogo de transição, você pode direcionar seu olhar para outras características. Por isso depende muito do “para quem” você está observando.

No geral, para se chegar à conclusão sobre um jogador leva-se um pouco de tempo. Olhar suas ações sem a bola, suas reações à perda e à recuperação da bola, sua leitura do jogo, noção de posicionamento. Por isso se trata de um trabalho mais minucioso e que é preciso investir conhecimento e tempo nele. E vale ressaltar, com tudo isso, ainda não é garantido de a contratação dar certo. Existem muitos exemplos disso, não só no Brasil, mas como na Europa, onde todas as equipes tem scouts de grande qualidade.

Divulgação/ESPN
Exemplo de análise do DataESPN

 

Torcedores: De todas as contratações deste início de ano, qual você acredita que dará mais certo?

RR: No geral, acho que esta janela de início de ano no Brasil tem sido bem explorada. Tenho visto que os clubes já têm apostado em seus respectivos departamentos de análise de desempenho e scouts. Digo isso porque alguns nomes pontuais estão se movimentando. Todos de grande qualidade e que casam bem com as necessidades dos elencos. Acho, por exemplo, que o Flamengo foi muito bem ao trazer o Mancuello. Trata-se de um meio-campista de grande qualidade. Digo o mesmo para o Rodinei, que vinha de boas temporadas na Ponte Preta. O Cruzeiro também, ao trazer o Pisano e o Sanchéz Miño. Este segundo vai dar experiência e intensidade na forma de jogar da equipe. O Erik e o Régis no Palmeiras e o Marlone no Corinthians também são grandes apostas, que acreditam que podem surpreender a todos. Outra equipe que me chamou a atenção foi o Sport, que buscou nomes pontuais e que mostra que o trabalho lá é bem feito. O Mark Gonzaléz vai trazer uma profundidade e bagagem grande ao elenco, enquanto o Reinaldo Lenis vai manter a velocidade nas transições da equipe, que foram uma das armas para fazer um bom Brasileiro.

Um nome que aposto e que me agrade muito é o de Juan Cazares, que chegou ao Atlético-MG. Trata-se de um meia de técnica refinada, com dinâmica e grande potencial futuro. Vinha crescendo muito na Argentina. Eu o acompanhava de perto e sei que, com paciência, ele tem tudo para ser um dos grandes jogadores do Galo em 2016.

Torcedores: O time mais bem montado do ano passado, o Corinthians, foi desmanchado. Em quem você aposta para ser a grande sensação de 2016?

RR: Não descarto o Corinthians como uma das forças, não. Claro que os jogadores que deixaram o clube vão fazer falta. Mas o Tite é um cara de extrema qualidade e os “reservas” do ano passado que devem assumir as posições já estão bem familiarizados à forma de se jogar da equipe. Eles já possuem comportamentos bem trabalhados para assumir as funções. Tite sempre deu muita atenção para o elenco todo, sempre fez questão de que todos entendessem a função de todos e, mais que isso, desenvolvesse o espírito coletivo.

O Grêmio, do Roger Machado, por conta da continuidade do trabalho, também deve vir forte. É um time em franca evolução e que pode chegar ao seu ápice neste ano. O Atlético-MG a mesma coisa. Gostei muito do trabalho do Aguirre no Internacional. Também tenho uma expectativa no São Paulo, por conhecer bem o trabalho do Bauza.

Num resumo, acho que o nível do nosso futebol tem crescido de uma forma geral. Este ano tem tudo para ter ainda mais equipes competitivas se enfrentando. Estamos no caminho certo, mas todos sabem que ainda falta muita coisa.

Torcedores: O São Paulo inaugurou este ano seu departamento de análise de desempenho. Qual o déficit que você acredita que o Tricolor teve por demorar tanto a criar este departamento?

RR: Acho que grande. Não digo que ter um departamento desses faz você ganhar ou não campeonatos. Existem outras coisas tão importantes quanto em um processo tão grande para se chegar a títulos. Mas obviamente, o São Paulo, como um clube grande e organizado como vinha sendo nos últimos anos, não podia ter ficado para trás neste sentido. O mais importante é que essa nova administração tem entendido a importância de se investir em tecnologia e estudo do futebol. Pelo menos é o que eu tenho visto de fora. Sei que o Bauza é um treinador que usa destes conceitos e a tendência é que a ideia se firme cada vez mais. Só que o mais importante é que o clube, de uma maneira geral, crie essa cultura dentro do seu departamento de futebol daqui para frente. Que isso não dependa só de uma administração. Trata-se de um trabalho que precisa ser permanente nos clubes, independentemente da comissão técnica que lá está.

Torcedores: Acredita que algum dia os brasileiros vão discutir tática na mesa de bar ao invés dos erros de arbitragem? O que é preciso para que isso aconteça?

RR: Eu acho o termo “tática” um pouco banalizado neste sentido. A grande questão é que o torcedor se mostra sedento por mais conteúdo, por mais conhecimento encima do esporte que tanto ama. Creio que, aumentando o nível da nossa imprensa, isso tende a acontecer de uma maneira geral. O torcedor passará ser mais crítico, mas com critério e conteúdo. Costumo dizer que, para você cobrar alguma coisa sobre algum assunto, você precisa ter um mínimo de conhecimento dele. Não adianta xingar por xingar, pedir a cabeça do técnico depois de um mês, fritar um jogador da base que acabou de subir.

A alma do DataESPN está nisso. Em trazer esse conteúdo mais aprofundado e ajudar no crescimento intelectual de quem nos assiste. Se jogarmos mais qualidade na TV teremos mais qualidade nas discussões das mesas de bar, muitas vezes nós as pautamos, inclusive. É preciso ter essa preocupação sobre o que passamos para o cara que está em casa. E digo isso não só no futebol, mas de uma maneira mais ampla. Temos uma responsabilidade grande e nem sempre fazemos jus a ela. O futebol, que é a uma paixão nacional, precisa ser mais bem tratado por nós. Enquanto perguntarmos qual o sentimento do técnico em uma coletiva após um título, a coisa não vai andar. Não tem como. Precisamos analisar mais desempenho e menos resultados. No futebol, só um ganha.

Torcedores: Se você pudesse escolher um técnico (nacional ou estrangeiro) para dirigir o seu time, quem seria e por quê?

RR: Tudo depende. Qual é a sua equipe? Qual o contexto cultural/histórico da forma de jogar dela? Como você quer que ela jogue após tomar essa decisão? Os jogadores que você tem no plantel podem jogar da forma que você espera? Esse treinador vai chegar com carta branca e orçamento alto para montar a equipe? Ou vai ter que usar a base? Tudo isso precisa ser levado em conta. Não tem jeito.

Esse é um erro que os clubes daqui costumam cometer na hora dessa escolha. Contratam encima do nome e não de um perfil de trabalho. Ainda é um passo que precisamos dar no futebol brasileiro. Alguém vê o Mourinho no Barcelona um dia? Não estou questionando as qualidades dele para tamanho desafio. Mas a cultura de se jogar do time catalão não se encaixa no que o português entente como o melhor futebol a se praticar. Ele pode mudar sua forma de ver as coisas? Pode. Mas hoje acho que não teria essa de “casamento”.

De forma geral gosto muito de dois caras: Jürgen Klopp e Carlo Ancelotti. O primeiro pelo estilo agressivo e de velocidade que gosta de colocar em suas equipes. Pressão no campo do adversário, intensidade sem a bola, transições ofensivas organizadas. Fora que é um cara que inspira futebol em mim. A sua postura. O jeito como trata o seu trabalho. Tudo isso me agrada muito. Do segundo, aprendi a gostar muito pelo que escutei do Tite em meu período no Corinthians. Pela forma equilibrada que suas equipes jogam futebol. São equipes que sabem propor o jogo, jogar de forma apoiada e ter paciência para furar bloqueios. Mas também são equipes com transições muito bem feitas, com contra-ataques bonitos de se ver. No fundo, sou meio retranqueiro (risos). Gosto de equipes rápidas e que fazem transições inteligentes, principalmente as ofensivas.

Torcedores: Na época de Corinthians, já houve caso de vocês encontrarem um padrão, mas, na hora do jogo, o técnico adversário surpreender vocês?

RR: Isso acontece, sim. Ao encontrar estes padrões e levá-los até a comissão técnica, estávamos minimizando os riscos. Isso não quer dizer que eles não existiam. Dificilmente uma equipe muda tanto de um jogo para outro. E quando isso acontece, as chances de tudo dar errado são grandes. No nosso calendário não há muito tempo para fazer longos períodos de treino, onde daria para fazer mudanças mais radicas na sua forma de jogar. Mas algumas situações são treinadas para tentar pegar você desprevenido. Um posicionamento diferente de um jogador, uma bola parada ensaiada.

Por isso que a grande questão é cobrar o máximo de concentração dos jogadores durante os 90 minutos. É uma coisa que o Tite pedia muito. Pode reparar que suas equipes são sempre muito concentradas. Acredito que isso, mas que qualquer análise, minimiza os erros. Mas no futebol só um é campeão. E isso não quer dizer que o resto não presta. É uma cultura difícil de mudar por aqui. Muitas vezes é em uma mudança de detalhes que você leva um título. Culpa do seu técnico ou mérito do outro? Essa é a questão.

Torcedores: Como era a convivência com o Tite no dia a dia?

RR: Muito boa. Aprendi muito e sou muito grato por ter tido a oportunidade de conviver não só com ele, mas com seus auxiliares (Cleber Xavier e Fábio Carille), o Edu Gaspar (gerente de futebol) que sempre apostou muito no meu trabalho e de todos do departamento. O pessoal que trabalha no CIFUT, aliás, tem muita qualidade. Fora que me receberam de braços abertos, todos. Fernando Lázaro, Leonardo Baldo, Raony Tadeu, Denis Luup e Felipe Batista, sou muito grato a todos eles. Eles ajudaram em uma transformação muito grande na forma em que eu vejo futebol. E também são responsáveis pela criação do DataESPN, porque não? (risos).

Mas voltando ao professor Tite, trata-se de um cara muito simples e trabalhador. Suas equipes ganham porque ele trabalha, treina, estuda. É um cara que faz questão de fazer com que todos que participam do processo se sintam importantes após uma vitória. Seja contra o Chelsea ou contra equipes menores do Paulistão. É um líder nato. Que gosta de passar conhecimento a todos e faz questão de escutar as opiniões de todos envolvidos para tomar suas decisões. Por isso foi tão difícil tomar a decisão de deixá-los. Apesar de eu ter iniciado um projeto inovador e que está rendendo frutos, foi bem difícil.

Torcedores: Quais os pedidos que ele fazia antes de cada jogo? Os pedidos mudavam de acordo com o adversário?

RR: Existia uma rotina mais padronizada dos materiais que produzimos, mas também alguns pedidos de acordo com os adversários. Procurávamos pontuar os momentos defensivos e ofensivos das equipes. A forma como elas se comportavam em cada um deles. Como eram as transições e como elas se comportavam na bola parada, que era muito dissecada por todos nós. Isso por ser um momento muito peculiar do jogo, muito diferente e que exige concentração e muito treino. Todo esse material era estudado com os auxiliares e usados nas reuniões pré-jogo. Era uma rotina intensa, mas muito prazerosa para todos. Principalmente após as vitórias.



Jornalista que gosta de boas histórias e grandes personagens, não importa se dentro ou fora de campo