Crônica: Um presente inesperado na minha primeira vez no jogo do Chelsea

Crédito da foto: Arquivo pessoal

Faltavam apenas 10 minutos para o início da partida entre Chelsea e Stoke City, pela Premier League 2015/2016, quando os dois ingressos finalmente estavam em minhas mãos. Presentes de Oscar e sua família. A pessoa que eu pensava em levar, a filha de uma colega, acabou não podendo ir em cima da hora.

LEIA MAIS:
Em entrevista, Felipão aconselha Conte a “aguentar a pressão” no Chelsea

Era minha primeira vez em um jogo dos Blues. Um sonho se realizando. A ansiedade de entrar logo era grande, mas algo me incomodava. Aquele ingresso a mais. Quantos não gostariam de estar ali também? E ele morreria assim, sem dono algum. Um pouco de drama admito. Quantas cadeiras devem ficar vazias, não é mesmo? Mas eu poderia tentar ao menos mudar o destino daquele, pensei.

O entorno do Stamford Bridge estava lotado de torcedores, bandeiras, e é claro todos ali certamente tinham seus bilhetes. Fui então para a loja do clube, em busca de alguém que poderia se interessar. Certamente encontraria turistas ali. Um senhor de cabelo branco me chamou a atenção, ele olhava camisas no andar de baixo da loja.

– Olá senhor, tudo bem? Você possui ingresso para o jogo?

– Tenho sim, já estou indo para lá.

– Ok, entendo. Obrigada.

Não havia tempo para maiores explicações. Oito minutos. Resolvi conversar com o segurança da loja.

– Olá, tudo bem? Estou em busca de alguém precisando de ingresso. Será que encontro aqui? Não vou cobrar nada.

– Oi, você tem ingresso? Foi isso que ouvi?

– Olá, tenho sim. Você quer ir ao jogo?

O segurança nos observa curioso.

– Sim, gostaria muito. Mas quanto custa?

Sete minutos.

– Foi um presente. Não custa nada. Se quiser, vamos lá!

Precisava ir. Estava quase na hora. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, o rapaz me seguiu até a fila de entrada. Não queria me atrasar e não entregaria o ingresso para um estranho, já que qualquer um poderia vendê-lo ao invés de usá-lo. Passamos pela catraca, e fomos em busca dos lugares marcados.

Dois minutos.

– Então, de onde você é?

– Sou de Atenas, na Grécia. E você?

– Eu sou do Brasil. Ganhei estes ingressos do jogador Oscar. Por isso não poderia vendê-lo.

– Entendi. Eu sei quem é este jogador. Já o vi jogar.

O jogo logo começou. E como uma criança, eu observava a tudo com atenção. Os cantos da torcida. Azpilicueta, Hazard, Oscar, Willian. Já havia planejado algumas vezes ir a um jogo lá. Mas os ingressos sempre se esgotavam rapidamente ainda com a venda para sócios. Tentei procurar então pacotes para turistas, mas o mais barato custava algo em torno de R$ 1.200 na época.

Gol do Chelsea, Bertrand Traoré! No intervalo da partida, o ‘turista’ me chamou para ir até mais perto do campo fazer algumas fotos.

– É um belo estádio.

– É sim.

– Veio sozinha para o jogo?

– Sim. Meu namorado está trabalhando no Brasil. E gosto muito do Chelsea. Era um sonho ver um jogo aqui.

– Legal.

No segundo tempo, o Stoke empatou. Peguei o email do ‘turista’ para que pudesse enviar as fotos do estádio. E aproveitei o contato agora para lhe fazer algumas perguntas para o blog.

O que você pensou quando falei que tinha um ingresso sem custo algum? Ficou surpreso?

Claro, eu fiquei muito surpreso. Não esperava por algo assim. Isso não voltará a acontecer. Eu pensei no início que era uma brincadeira.

Você imaginava que iria assistir um jogo no Stamford Bridge?

Não em um primeiro momento. Este é um estádio fantástico.

Acreditou quando falei que tinha sido um presente do Oscar? Você já conhecia este jogador?

No começo eu fiquei muito surpreso e não entendia muito bem. Eu já conhecia o Oscar sim, é um jogador muito bom.

Você acompanha o futebol em seu país? Qual o seu time?

Eu gosto muito de futebol. Eu torço para o Olympiakos, que já teve Rivaldo e Giovanni. Em Londres eu havia ido ao estádio do Tottenham também.

Após a partida nos despedimos, fui então para o hotel ao lado do estádio onde os jogadores estariam e agradeci pessoalmente ao Oscar e sua esposa pelo presente. Imagino que outros jogadores façam o mesmo, dando ingressos que sobram. E nem sequer devem imaginar o que acontece depois. Mas fica a lição: Gentileza gera gentileza. E você, torcedor, já passou por alguma história parecida?