Opinião: os brasileiros estão pensando na Olimpíada?

Crédito da foto: Site oficial Rio 2016

Faltam poucos meses para o início da Olimpíada. Os primeiros Jogos Olímpicos de Verão na América do Sul! No Brasil! No cartão-postal do Brasil, o Rio de Janeiro! Nunca o país recebeu tantos esportistas de tantos lugares! E todos os esportes olímpicos, aqui, na Cidade Maravilhosa! Os brasileiros estão realmente pensando nisso? Parece que não… Mas por quê?

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Uma das primeiras ideias que nos vem à cabeça é a que é incoerente o país que acabou de receber uma Copa do Mundo de Futebol menosprezar a chegada das Olimpíadas, o maior evento esportivo mundial, começando logo na sequência. Mas pensar por esse lado tem seu equívoco. A seguir, você verá algumas ideias que põem sob a mesma medida os dois eventos e te dão uma dica de que a empolgação de agora é menor que as vésperas do torneio da FIFA.

O futebol é do povo, já é nossa cultura e ponto. O Brasil moldou por décadas a fama de “país do futebol”, seja por ótimas seleções montadas, seja pela figura do Pelé e tantos outros após, seja pelo pentacampeonato mundial. O estímulo dado na época da ditadura militar ao esporte de fato funcionou e o futebol, com mais ou menos diferenças, regionalismos ou dificuldades, continua sendo uma parte de nossa cultura que está de Norte a Sul e não se extinguirá do imaginário popular tão cedo. O ciclismo de pista, o golfe, o rugby, o levantamento de peso, o hóquei sobre grama e o polo aquático são alguns dos exemplos que a esmagadora maioria do jornalismo esportivo não pode ou nem consegue cobrir.  Isso desincentiva o interesse do público nos Jogos, mesmo que existam outros mais populares. Ponto pro futebol.

O alcance da Copa, mesmo com todas as dificuldades e irregularidades, é maior. A Copa foi uma coisa de megalômano, isso é fato. Convenhamos: colocar doze cidades diferentes (e às vezes nem um pouco próximas entre si) de um evento que tem 64 jogos num país-continente como o Brasil é coisa de maluco. Melhorar a infraestrutura em todas elas não foi uma tarefa fácil. E esta tarefa sequer foi cumprida até hoje, dadas as obras de mobilidade inacabadas em várias cidades. Mas mesmo assim, todas elas (e suas regiões adjacentes) se mobilizaram para a novidade logo ao lado. Com a concentração dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio, esse sentimento não aflora em locais como Curitiba, Natal e Cuiabá, por exemplo. Mais uma a favor de 2014.

Há a falta de atenção da boa parte da mídia. Dada a loucura de tudo que envolvia as cidades-sede da Copa, o jornalismo não poupou esforços em cobrir algo referente ao evento do futebol. Como o mesmo não ocorre no Rio, vemos o oposto: Restando poucas semanas, nota-se que apenas os canais de TV e sites esportivos detentores de transmissões dos Jogos estão abordando o assunto, até de forma acanhada. Flashes na programação, entrevistas com ex e atuais participantes, programas especiais semanais acontecem, mas só naqueles que falam que “você vê aqui o RIo 2016”. Centenas de meios de comunicação no Brasil têm filiais, agências ou podem mandar enviados para a capital fluminense, mas é perceptível a falta de interesse de alguns em publicizar isso com antecedência e avivar na memória dos leitores/ouvintes/telespectadores/internautas. Parece que a “chave de ligar” só será virada quando estivermos em agosto, aparentando um certo receio de que a audiência seja imediatista e menospreze ou esqueça algo que “vai demorar ainda pra acontecer”.

Derrubada a ideia de aparente incoerência de comparar Copa e Olimpíadas, podemos falar que ocorre agora uma maior atenção dos cariocas e não dos brasileiros como um todo:

As Olimpíadas estão mobilizando muito mais o Rio de Janeiro do que o restante do País. “Ah, mas e as outras cidades que vão receber jogos?”, você deve se perguntar. A resposta:

São cinco capitais que já receberam jogos da Copa e que cederão seus estádios para o futebol. E só. O evento agitará esses locais, mas por pouquíssimos dias. E apenas isso.

A cidade do Rio – aí sim – respirará o evento às suas vésperas. Afinal, áreas de mais destaque como Barra da Tijuca e Copacabana são locais de trabalho da maioria da população da Região Metropolitana do Rio e atinge a todos direta ou indiretamente.

A região de Deodoro, mesmo afastada das praias, receberá vários esportes e será movimentada não só em fluxo de pessoas e veículos, mas em termos de atenção da mídia, segurança pública e comércio.

Além disso, todo o tráfego e atenção dispensados na região do Maracanã será várias vezes superior a todos os eventos lá comumente vistos. Não haverá um jogo do Gran Prix de Vôlei no ginásio do Maracanãzinho, serão os da Olimpíada. Não haverá um Fla-Flu no estádio, serão jogos decisivos do futebol na Olimpíada. O Sambódromo será palco de algo fora do Carnaval: a micareta será o atletismo, principalmente a Maratona, que com certeza receberá atenção dos curiosos.

Além disso, as obras mexeram com o Grande Rio, mas um dos maiores transtornos pré-Olímpiadas já passou. Agora, principalmente por estarem adiantadas e os eventos-testes já estarem ocorrendo, as estruturas estão mais perceptíveis aos cariocas e são eles os principais apoiadores do evento por vê-lo transformar sua cidade.

Portanto, respondendo o título desta opinião: o Rio 2016 está na cabeça dos brasileiros? Em parte. Está na dos cariocas. Mas o Rio estará na cabeça dos brasileiros? Quando a mídia despertar e passar a cobrir com mais frequência (o que deve ocorrer em cima da hora), é bem provável que sim.