Crônica: Quem conduz a Tocha Olímpica

Passagem da Tocha agitou o centro da cidade.
Jornalista e escritor André Farinha conduziu a Tocha Olímpica no centro de Campo Grande
Jornalista, escritor e colaborador do site Torcedores.com, André Farinha conduziu a Tocha Olímpica no centro de Campo Grande

 

E lá estava, no centro, em meio à multidão que sempre observei em silêncio, parando o mesmo trânsito que tanto crítico por sua lentidão. Na mão esquerda, a tocha com a chama sagrada, o maior símbolo dos jogos olímpicos, na outra, aberta, o espírito daqueles mais necessitados, que tanto precisam do fogo da esperança para se reerguer na vida. Gritos, buzinas, mãos de isopor, balões, aplausos, vaias, o ‘vai… vai…’, e fotos, muitas fotos. Os 15 minutos de fama de quem sempre optou por não se aparecer.

A ansiedade, mazela terrível que provoca sensações alucinógenas, atingiu o ápice dentro de mim já quando faltavam somente alguns minutos para o início do percurso, no centro da cidade. Naquela memorável tarde de sábado (25), enquanto a maior parcela da sociedade só pensava em terminar o expediente no trabalho para poder descansar até o recomeço de tudo na sempre chata segunda-feira, me preparava para um dia atípico, especial, único. Neste meio, entre a classe trabalhadora e eu, ainda tinha uns que ousaram desafiar o ardente sol das 14 horas para ver os poucos minutos que a tocha gastaria para cruzar o centro velho.

André Farinha carregou a Tocha Olímpica na Avenida Afono Pena, centro de Campo Grande
André Farinha carregou a Tocha Olímpica na Avenida Afono Pena, centro de Campo Grande

O ônibus dos condutores partiu de uma faculdade, em frente à Arquidiocese de Campo Grande. O veículo, bem caracterizado por sinal, entrou no comboio policial e dos trios elétricos na Avenida Afonso Pena, em frente ao hotel Vale Verde; a cada 200 metros um dos tripulantes (condutores) desembarcava para executar a missão que lhe foi atribuída. Meu trajeto ainda estava longe, pela janela fui observando a movimentação na tentativa de supor o que iria acontecer quando fosse a minha vez de descer.

Confesso leitor, minha doce inocência não esperava por muito tumulto. Afinal, quem sou eu neste mundo recheado de astros e estrelas, sou só mais um seguindo o ritual da vida: nascer, crescer, trabalhar e morrer. Das quadras que foram ficando para trás, pouca aglomeração, mas quando a área central chegou e a multidão surgiu, o coração disparou. Desci em frente ao Relógio Central, tão logo fui recebido com festa pela equipe de animadores do patrocinador que me indicou, além do carinho essencial da esposa, da família e amigos.

Neste ponto vale uma filosofia. É interessante como algo relevante transforma as pessoas. Ao mesmo tempo em que era eu ali o condutor da Tocha Olímpica, ainda era o mesmo que sempre perambulou pelas ruas desta cidade, que pega o ônibus (Campo Novo) todos os dias de manhã, e que concorda com a tese de que tal investimento aplicado nos Jogos Olímpicos poderia, sim, ser utilizado nos setores que amarguram os brasileiros, como saúde, educação e segurança pública.

Passagem da Tocha agitou o centro da cidade.
Passagem da Tocha agitou o centro da cidade.

Porém, meus caros, naquele momento em que estava por receber a chama, veio no pensamento àqueles que tanto sofrem dentro de suas casas, vítimas dos erros irreparáveis deste Governo corrupto, pais de família desempregados por conta da alta carga de impostos aplicada aos patrões-empresários, acamados sem médico e remédio, deprimidos e tantos outros que, por um breve momento, podem enxergar naquele símbolo olímpico a chama da esperança para reerguer a cabeça e continuar lutando como tantos atletas campeões, ora, de alguma forma somos todos atletas nessa vida, sempre superando os osbstáculos que surgem para alcançar a vitória, sela ela qual for.

Carreguei a tocha feliz, rasguei a Avenida Afonso Pena até chegar ao cruzamento com a Rua 14 de Julho. O centro parou para ver a tocha, foram pouco mais de cinco minutos naquele cenário híbrido, entre elogios e protestos, favoráveis e contrários, mas todos querendo um país melhor. A tocha então partiu, dando seguimento ao revezamento até o Rio de Janeiro, completando a viajem por esse Brasil imenso e repleto de adversidades, culturais, sociais e, principalmente, opinativas.



Escritor e jornalista, autor do romance 'O cachorro, o rato e a paixão' e do 'Projeto Demo: Histórias que viram estórias'. Formado em jornalismo pela Faculdade Estácio de Sá de Campo Grande (MS), atualmente trabalha no jornal semanário e online O Liberdade. Palmeirense mesmo após um 5 a 1.