Copa do Brasil: De tradição à ”confusão”

Divulgação/Facebook oficial Copa do Brasil

A Copa do Brasil, um torneio de grande prestígio nacional, passou a sofrer com o futebol moderno. As mudanças ainda não agradaram como se era esperado.

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A partir de agora, 16 equipes lutarão pelo segundo caneco mais cobiçado do país. O torneio mata-mata começara a demonstrar o seu poderio emocional na pele de cada torcedor. Para o sorteio, os clubes foram postos em dois potes, que foram definidos pela regra da qualificação geral no RNC (Ranking Nacional de Clubes) da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

Entre os 16 times, dez deles vieram após obterem sucesso na terceira fase da própria competição (Santos, Atlético-PR, Botafogo-RJ, Botafogo-PB, Cruzeiro, Fortaleza, Juventude, Ponte Preta, Fluminense e Vasco), cinco destes vieram após participação da Copa Libertadores (Atlético-MG, Grêmio, Palmeiras, Corinthians e São Paulo), além do Internacional, o melhor colocado do Campeonato Brasileiro do ano de 2015, descontando os quatro primeiros, que disputaram o torneio continental. Estes seis últimos entram na competição a partir dessa fase.

Com a distribuição dos potes para a escolha dos confrontos, nota-se de imediato que não haverá clássicos estaduais de forte repercussão, uma vez que foram encaixados em um mesmo pote. Como exemplo, todos os paulistas, gaúchos e mineiros estão no Pote A e todos os cariocas no Pote B. Os clássicos estaduais são possíveis caso a Ponte Preta ou o Juventude enfrentem um conterrâneo. O sorteio acontece por volta das 10 horas da manhã, na sede da CBF, no Rio de Janeiro.

Os Potes ficaram desta forma:

DISTRIBUIÇÃO DOS POTES – EQUIPE (POSIÇÃO RNC)
POTE A POTE B
CORINTHIANS (1º) FORTALEZA (42º)
ATLÉTICO-MG (7º) BOTAFOGO-PB (56º)
GRÊMIO (2º) BOTAFOGO-RJ (13º)
CRUZEIRO (3º) ATLÉTICO-PR (12º)
INTERNACIONAL (9º) FLUMINENSE (10º)
PALMEIRAS (8º) VASCO (11º)
SANTOS (4º) JUVENTUDE (59º)
SÃO PAULO (5º) PONTE PRETA (17º)

 

Campanhas dos remanescentes

O torneio desse ano começou com 80 clubes dentro das chaves, agora possui 70 a menos. Os dez que se classificaram dentro do torneio passaram por três fases de jogos muito disputados e com parecer razoável em técnica e emoção, e, como sempre, com boa média de gols por jogo (2,23), sendo 294 gols em 132 partidas disputadas. Neste caminho, despontaram algumas surpresas, como Botafogo-PB e Fortaleza, além de um reencontro com a boa fase do Juventude, que não avança tanto assim na competição desde o título de 1999.

Os cearenses eliminaram, em sequência, Imperatriz-MA, Flamengo e América-MG; já os paraibanos despacharam Linense-SP, River-PI e Ceará. Os gaúchos bateram Tocantinópolis-TO. Coritiba e Paysandu, com um bom futebol, matando a saudade da torcida com a Série A do Nacional. Lembrando que estes três estão na Série C do Brasileirão e também fazem boas campanhas na competição. Logo, em totalidade, a composição das oitavas de final terá doze times que integram a elite nacional, um da Série B e três da Série C em 2016.

 Histórico do Torneio

A Copa do Brasil chega à sua 28ª edição em 2016. Com tantos anos em disputa, muitos clubes já tiveram o sonho de conquistar a taça e garantir uma vaga na Copa Libertadores do ano seguinte. Em sua história, houve diversas mudanças de regulamento. O número de equipes foi crescendo à medida que o torneio ganhava seu prestígio no calendário do futebol brasileiro, disputando tal condição com os interestaduais.  A própria CBF autorizava a evolução do número de equipes, mas até o ano de 1996, não havia estruturado o número exato de clubes participantes de cada estado, tanto que houve uma leve redução de competidores em 1998, crescendo este número no ano seguinte, e de forma significativa. Antes disso, a regra de dois gols de diferença para quem jogasse fora de casa passou a valer, a partir de 1995.

Em relação ao número de clubes participantes em cada edição do torneio, veja a cronologia abaixo:

  • 1989-1994: 32 equipes
  • 1995: 36 equipes
  • 1996: 40 equipes
  • 1997: 45 equipes
  • 1998: 42 equipes
  • 1999: 65 equipes
  • 2000: 69 equipes
  • 2001-2013: 64 equipes
  • 2013-2015: 87 equipes
  • 2016: 86 equipes

Explicando a cronologia e a lógica dos participantes: entre 1997 e 1999, o campeão da edição anterior tinha o direito de entrar nas oitavas de final diretamente, além de não haver privação de nenhuma equipe devido à participação na Libertadores, disputando ambos os campeonatos simultaneamente em um mesmo ano. Em 2000, os times que estavam na competição continental entraram também a partir das oitavas. A regra foi extinta no ano seguinte, onde os clubes que estavam na Libertadores, não disputariam a Copa do Brasil no mesmo ano, para não haver inchaço em nenhum elenco.

Desde 2013 que a história mudou de figura. A Copa sempre teve a tradição de terminar no fim do primeiro semestre, junto à Libertadores. Porém, Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, autorizou mais uma mudança na competição, alterando para 87 o numero de competidores, passando a 86 para este ano. De acordo com o cartola, a mudança visara manter o torneio ativo para que fosse possível assistir mais espetáculos, além de ter a possibilidade de integrar outras equipes que possuem calendário mais curto. Assim, a Copa do Brasil foi estendida de março a novembro, sendo que sempre se era disputada entre fevereiro e julho do ano vigente.

Valorização da Copa do Brasil

O campeonato em mata-mata tem seu charme por si só. Desde 2003, ganhou ainda mais brio devido à inclusão dos pontos corridos no Campeonato Brasileiro. Neste ano, o Cruzeiro faturou a taça, além da Tríplice Coroa, junto ao Mineiro e ao próprio Brasileiro. A Copa tem o significado de casa cheia nas partidas, já que não há segunda chance para que os times se recuperem no torneio. Como tem a participação de clubes de todos os estados do Brasil, os que possuem menor expressão aproveitam a chance de encarar gigantes e fazer história, nem que seja eliminando apenas um deles. Além de Botafogo-PB neste ano, times como Ipatinga-MG, CSA-AL, ASA-AL, Santa Rita-AL, Corinthians-AL e 15 de Novembro-RS conseguiram surpreender, mesmo não levando o título e nem sendo vice-campeões.

E por falar em vice-campeão, algumas equipes bateram na trave, onde, claro, superaram alguns limites e surpreenderam, onde o título ficou no quase e a dor foi imensa. Ceará, em 1994 e Brasiliense, em 2002, foram alguns deles, que, à época de suas finais, seriam uma novidade e tanto na Libertadores.

Lembrado mesmo é quem sobe no pódio para soltar o grito de campeão. Quem marcou história desbancando gigantes foram Criciúma (1992), Juventude (1999), Santo André (2004), Paulista de Jundiaí (2005) e Sport (2008). A participação destes clubes no torneio continental, no ano seguinte a este título, marcou a história de cada equipe.

E o futuro? O futuro no futebol é algo muito incerto como sabemos. O único clube que ainda se mantém firme de igual para igual nas competições é o Sport, que mesmo em altos e baixos, tem o seu respeito. Criciúma e Juventude não figuram entre os grandes há um bom tempo. O time catarinense foi rebaixado em 2014 e está em maus lençóis na Segundona, e o Juventude, após uma sequência de descensos, permanece na Série C, sem sequer avançar de fase, nos últimos anos. O acesso veio com o vice-campeonato da Série D, em 2013, quando o título ficou com o Botafogo paraibano. Enquanto isso, Santo André não figura em nenhuma divisão do futebol nacional e retornou para a elite paulista este ano, junto ao Mirassol. O Paulista de Jundiaí foi rebaixado para a Série A3 de 2017.

Opinião

A Copa do Brasil nunca deixará de ter uma importância maiúscula no nosso calendário, uma vez que é emocionante e é exatamente a competição onde qualquer um pode se sair campeão. Mas, para que deixá-la tão longa? Quando possuía apenas 64 equipes, a organização e a tabela eram mais compreensíveis, mas a nova ideia da extensão parecia uma grande novidade. Apenas parecia, pois o resultado de tal modificação foi vergonhoso!

Os clubes não estão conseguindo se adequar para disputar uma competição a mais, ou seja, a Sul-Americana e o Brasileirão agora passaram a ser algo coadjuvante em alguns casos, dependendo de onde cada equipe pode se ver distante na Copa do Brasil, ou até ao contrário, já sendo proferido por alguns jogadores e cartolas que o campeonato “não serve de nada”. A média de público só é salva quando entram as equipes que disputavam o torneio continental.

Além de tudo isso, a condução do torneio para o torcedor não é das mais viáveis, pois a cultura do brasileiro para futebol consiste no que vem pronto. Torcedor não gosta de cálculos ou espera para definição de confrontos, com sorteio, pois não se tem paciência para com este recurso “europeizado”.

Ainda se vê o retorno do modelo de 64 equipes o mais plausível para a Copa do Brasil, pois ninguém tinha direito nem de escolher entre um ou outro entre três competições, isso não é saudável para o calendário, nem para a arte técnica do futebol. Em 2014, São Paulo, Fluminense e Internacional fizeram o torneio de “fachada” para garantir vaga na Sul-Americana, sendo derrotados por Bragantino, América-RN e Ceará, respectivamente. Resultado: eliminações precoces no torneio que escolheram, menosprezando o caneco nacional. Isso não pode acontecer, para o bem do nosso futebol. Cada um no seu lugar, sem misturar, sem confundir clubes, nem o torcedor.