Libertadores, 10 anos: o que os personagens da conquista falaram ao Torcedores

Copa Libertadores da America
Foto: Site - Inter

Quando Alex Dias chutou por cima do gol de Clemer, perto da meia-noite do dia 16 de agosto de 2006, o São Paulo já não tinha tempo para mais nada. Foi só a bola cruzar a linha de fundo que mais de 57 mil colorados ajudaram o juiz argentino Horacio Elizondo a soprar o apito e determinar o título do Internacional, que enfim fazia jus ao próprio nome com a conquista da sua primeira Libertadores – que, nesta terça-feira, completa 10 anos com um jogo festivo entre os heróis daquela campanha, às 20h, no Beira-Rio.

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Desde o início de 2016, o Torcedores.com tem ouvido alguns personagens daquela conquista e oferecido aos leitores uma série de histórias marcantes da campanha do Inter na Libertadores de dez anos atrás. Começando pelo trabalho “invisível” de Sangaletti, que já não estava mais no clube em 2006, passando pelo pisão de Ediglê no então jovem desconhecido Luis Suárez, chegando no curinga Wellington Monteiro e, enfim, encerrando com Tinga, que foi herói, mas, por pouco, não terminou como vilão. Com vocês, os personagens da conquista:

Sangaletti: sentimento de dever cumprido

Fernando Carvalho jurou para si mesmo que o drama de Belém do Pará não seria mais vivido. Por um detalhe, o Inter não foi rebaixado em 2002 no emblemático jogo contra o Paysandu e o então presidente colorado conseguiu voltar a respirar. Mas, a partir disso, tudo funcionaria diferente. Já para o ano seguinte, Carvalho e a direção de futebol dispensaram medalhões de altos salários e apostaram em jovens como Daniel Carvalho, Diego e Nilmar. Faltava, no entanto, um grande líder para comandar a garotada.

Muricy Ramalho, o técnico escolhido, pegou o telefone e ligou para Sangaletti, capitão do Guarani. O convite estava feito. “Lembro que um momento bem marcante foi a minha chegada no final de 2002. Foi logo após a contratação do Muricy e do Paulo Paixão (preparador físico). Eu fui o primeiro atleta a ser contratado por esse novo Internacional. Tinha 31 anos e fui criticado por muitos, mas fui indicado pelo Muricy, que me ligou e me convidou para essa difícil missão. No fim, aceitei e acabei indo receber um salário até menor do que eu ganhava no Guarani. Já não estava na comemoração dos grandes títulos, mas estava na mudança onde tudo se iniciou”, relembra Sangaletti.

Sangaletti, um dos pilares do recomeço (Foto - Facebook Sangaletti)
Sangaletti, pilar do recomeço (Facebook Sangaletti)

Como ele mesmo lembrou, Sangaletti não estava mais no período das grandes conquistas. Deixou o clube antes de 2006 com o sentimento de dever cumprido e de ter liderado um elenco com enorme potencial de crescimento, que venceria tudo o que era possível anos mais tardes. Alguma frustração por não ter estado junto nos títulos? Que nada.

“Na verdade, bateu uma grande felicidade de receber ligação dos massagistas, amigos do clube e outros pela contribuição que eu tinha dado e também pelo prêmio que eles iriam receber, pois eu havia ajudado a mudar a premiação que os funcionários vinham recebendo no Inter. Como atleta, eu já não tinha mais condições naquele momento de jogar em alto nível e ajudar o Inter”, admite.

Ediglê: as travas que marcaram Suárez

Zagueiro de grande imposição física e virilidade, Ediglê exagerou na dose no jogo de ida das oitavas de final da Libertadores de 2006, contra o Nacional, do Uruguai, no acanhado estádio Parque Central. Chamado pelo técnico Abel Braga para reforçar o sistema defensivo durante o jogo, o defensor ficou por pouquíssimo tempo em campo. Não resistiu às provocações do jovem de 19 anos e até então desconhecido Luis Suárez e marcou o peito do rival em uma dividida na lateral. Resultado: cartão vermelho.

“As recordações que eu tenho daquele jogo são de uma partida muito dura, sendo que o Nacional era muito forte dentro da sua casa. Naquele campo pequeno tinha muita pressão. O jogo estava muito pegado e o Suárez catimbando muito. Eu ali no banco já estava me coçando, louco para entrar e dar umas nele (risos)…”, conta Ediglê.

Para a sorte do zagueiro, o Inter conseguiu segurar o placar de 2×1 e trouxe uma importante vantagem para o jogo de volta no Beira-Rio, em que o empate em 0x0 foi suficiente para colocar o colorado nas quartas de final. Anos depois, o irreverente Ediglê admite que foi “muito forte” na dividida com o uruguaio.

“O Abel me chamou para entrar e fechar o time para garantir o resultado. Logo aconteceu o lance da dividida. Acabei dando aquela entrada nele. Fui muito forte na dividida, porque sabia que ele era maldoso. Mas a grande lembrança que eu tenho é de ter sido campeão da América”.

Wellington Monteiro: o curinga de Abel Braga

O ótimo Gauchão realizado pela equipe do Caxias credenciou o volante Wellington Monteiro a jogar no Inter. Quando surgiu a proposta, ele não pensou duas vezes. Fez as malas e correu para integrar o elenco que mais tarde venceria a Libertadores. Sabia que para ganhar espaço teria de enfrentar uma dura concorrência, mas o fato de ter facilidade em atuar em duas e até três posições no meio campo o ajudou.

O homem de confiança de Abel (Crédito: Facebook - Wellington Monteiro)
O homem de confiança de Abel (Crédito: Facebook – Wellington Monteiro)

“Sempre respeitei a todos, mas eu sempre fui focado em fazer o meu melhor. E fazer o diferente. Não queria ser mais um a fazer o mesmo. Era difícil jogar com os caras, que estavam voando. Mas eu tinha uma vantagem que comigo em campo o Abel poderia mudar o sistema tático sem fazer substituição. E eu lembro que foi tudo muito rápido. Eu cheguei com um contrato de seis meses, mas no meu sexto ou sétimo jogo no time a diretoria já renovou por mais quatro anos”, recorda Monteiro.

E se Abel Braga rapidamente teve uma identificação com Wellington Monteiro, a recíproca foi absolutamente verdadeira. Passados dez anos daquela grande conquista, o volante, que ainda não parou de jogar, só tem palavras positivas para o ex-comandante.

“Eu não tenho nem palavras para falar do Abel. Ele era o nosso pai, a nossa mãe, o nossa avô… tudo. Só que assim, quando precisava, ele repreendia mesmo. Tinha sido jogador, tem muita consciência tática. E tem um outro detalhe. O Abel não cuidava só dos 11 que estavam jogando, ele dava atenção para todo o grupo. A gente era muito unido. Tinha vezes que nosso treino estava marcado para às 16h, mas nós chegávamos umas duas horas antes apenas para estar junto, jogando um futevôlei… aquele grupo tinha prazer em estar junto. O Abel tinha as duas partes perfeitas: estrategista e motivador”, elogia.

Tinga: herói, mas quase vilão

Um dos principais jogadores durante toda a campanha colorada na Libertadores de 2006, Tinga viveu o céu e o inferno na grande decisão contra o São Paulo. Já no segundo tempo, fez o gol da vitória parcial de 2×1 e se colocou como o grande nome da vitória. Só que na hora de comemorar deixou a emoção falar mais alto e ergueu a camisa. Elizondo, implacável, aplicou o segundo amarelo e tirou o jogador de campo.

Tinga
Tinga brilhou no título da Libertadores (Foto: Site Inter)

Sem Tinga, faltando ainda mais de 15 minutos para o final do jogo, o Inter sofreu. E como sofreu. O São Paulo era só pressão e precisaria ainda de dois gols para forçar uma prorrogação. Fez aos 40 com o meia Lenílson e botou ainda mais gasolina na já incendiada partida. Tinga, do vestiário, só podia rezar. Mas o seu santo era forte.

“Olha, o futebol é sempre correr riscos. Você sempre está correndo riscos quando joga. E no momento que você está jogando no clube que torce desde pequeno, como eu naquele momento, é natural que bata um medo depois de tomar aquele cartão vermelho. Mas eu sempre procurei pensar no lado bom da história, e é isso que fica, o que fica marcado é o título. Não procurei pensar em como seria e como eu ficaria se a gente tivesse perdido para o São Paulo. Foi um aprendizado, como tudo no futebol”, admite Tinga, que certamente deixará a camisa no lugar se fizer gol nesta terça-feira.

Campanha do Inter na Libertadores de 2006:

Fase de grupos:

Maracaibo 1×1 Inter

Inter 3×0 Nacional

Inter 3×2 Pumas

Pumas 1×2 Inter

Nacional 0x0 Inter

Inter 4×0 Maracaibo

Oitavas

Nacional 1×2 Inter

Inter 0x0 Nacional

Quartas

LDU 2×1 Inter

Inter 2×0 LDU

Semi

Libertad 0x0 Inter

Inter 2×0 Libertad

Final

São Paulo 1×2 Inter

Inter 2×2 São Paulo

Melhores momentos da final:

 



Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Dupla Gre-Nal.