Mortes e violência ainda assombram o futebol brasileiro

Crédito da foto: Reprodução/ Youtube

A agressão entre torcedores rivais é um obstáculo nas arenas do Brasil. Segundo o levantamento do jornal esportivo Lance, de 1988 a 2014, 251 pessoas morreram vítimas da selvageria das organizadas. Para “Botelio” (o entrevistado pediu para ter o nome completo ocultado por razões de segurança), 35 anos, integrante de uma dessas organizações, envolver-se em confusões com pessoas de torcidas rivais é algo honroso. “É como um soldado que luta por seu país numa guerra”, relata.

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De acordo com a pesquisa Lance Ibope, 66% dos brasileiros citaram as torcidas organizadas e a violência delas como o principal fator de ter prejudicado o esporte mais popular do país. A psicóloga e psicopedagoga Rita de Cássia Moreli, 44 anos, afirma que, para diminuir a hostilidade nos estádios nacionais, deveriam ser mudadas as regras, tornando-as mais claras, como nos países europeus. “Deveriam ser mais educativas e uma lei mais rígida em relação a essas torcidas, tinham que ter um código diferente, talvez de como se comportar. É necessário você saber qual vai ser a consequência dos seus atos, de como você vai responder por eles, quando você não responde, a impunidade te faz sentir mais forte para realiza-los”, conclui.

A maior demonstração de hostilidade não ocorreu em solos brasileiros. Em 1985, durante a final da Taça dos Campeões Europeus, entre o Liverpool, da Inglaterra, e a Juventus, da Itália, os hooligans (torcedores violentos) ingleses mataram 38 pessoas e feriram um número indeterminado. Assim, esses torcedores foram proibidos de acompanhar as competições europeias durante cinco anos.

Segundo o sociólogo e pesquisador de violência no futebol Maurício Murad, em entrevista à BBC Brasil, uma minoria de indivíduos pratica agressividades nas arenas do Brasil, algo entre 5% a 7% do total de membros das organizadas. “Botelio” afirma que não se importa com a morte de alguém nesses “encontros”. “Para eu ferir ou matar um torcedor rival é como eliminar um soldado do exercito inimigo”, declara.

Para a psicóloga, assistir à um jogo de futebol é uma catarse coletiva. “Muita coisa que você não faria sozinho, em grupo você libera certos comportamentos porque você está protegido. Quando você está no meio de todos você tende a se sentir mais forte”. E complementa: “Essas pessoas não admitem uma provocação, não sabem lidar com frustrações e acham que a violência é sempre o melhor caminho. É só um jogo de futebol que deveria ser um momento de lazer, de você ir lá apreciar o esporte”, orientou a especialista.

A estudante de Administração Ana Carolina Ciconelo Módolo, 20 anos, vai frequentemente ao estádio assistir aos jogos do seu time do coração com sua família e já presenciou muitas brigas de torcidas rivais. “A última observada foi Palmeiras x Corinthians (03/04/2016); estava indo ao estádio com meu pai e meu irmão, quando vimos um confronto dentro da estação de metrô. Tivemos que nos esconder atrás da escada rolante, esperar a torcida rival ir embora e o próximo metrô chegar para poder embarcar. Um segurança nos acompanhou até a estação Clínicas, pois o jogo era no Pacaembu”, relatou a torcedora.

Muitas famílias deixam de levar seus filhos para assistir às partidas de futebol com medo de serem vítimas da brutalidade de alguns cidadãos. Ana Carolina deixou uma mensagem aos opressores: “Estádio não é lugar para brigas. Estádio é um ambiente onde famílias e amigos vão para se divertir e acompanhar o seu time do coração. Deveria ser um passeio realizado com segurança e alegria, o que infelizmente muitas vezes não acontece”, adverte.