Opinião: sai de cena João Havelange, o vilão mais sortudo de todos os tempos

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Certos nomes são tão apegados a certos fatos ou instituições, que se tornam quase sinônimos. No futebol, principalmente quando nos referimos a FIFA, não existe nome mais forte que o de João Havelange, que faleceu na manhã de hoje (16/08). Goste ou não, essa é a verdade.

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Uma das frases que mais me marcaram assistindo a série Narcos da Netflix (e foram várias), é uma que o agente Murphy diz em relação aos vilôes: “eles precisam ter sorte o tempo todo, enquanto os heróis precisam ter sorte só uma vez”. Seguindo essa linha de raciocínio, João Havelange, que faleceu nesta manhã no Rio de Janeiro aos 100 anos de idade, foi um homem que jamais pôde reclamar da sorte: presidente da FIFA durante 24 anos, membro do COI (Comitê Olímpico Internacional) por 50 anos, transformou o futebol em uma máquina de fazer dinheiro, tornou a FIFA uma entidade poderosíssima, e apesar de todas as acusações que sofreu nos últimos anos, partiu ileso.

Não podemos ser hipócritas: se o futebol é o que é nos dias de hoje, se deve muito a Havelange. Seja no que existe de bom, seja no que existe de ruim. Como ele mesmo gostava de dizer, pegou a FIFA como uma federação amadora, sem nenhum dinheiro em caixa. A transformou em uma potência, uma empresa de lucros ilimitados que tem mais força em determinados países do que a ONU ou qualquer outra entidade mundial. Trouxe os países dos continentes sub desenvolvidos para o seu lado. Concacaf, Conmebol, Asiáticos e Africanos, todos cresceram no futebol graças a ele, e não adianta dizer o contrário.

Em compensação, fez o que muitos homens ao atingirem um certo grau de poder, gostam de fazer: se tornou o nome do jogo, o criador da regra. Dividiu poderes com aqueles que tinham sede de poder, e que se tornariam lacaios leais. Montou um esquema que por mais que fosse descoberto (e foi), jamais seria quebrado (infelizmente). É como a mitológica Hidra: corta-se uma cabeça, outra surge no lugar. Tanto é que quando saiu, já havia deixado seus sucessores: Blatter, Ricardo Teixeira, Del Nero, Marín, Grondona (outro vilão bastante sortudo) entre outros. Todos ávidos por poder, cegos pela ganância e loucos para se tornarem o “Havelange II”.

No fim, não dá para negar: se de fato Havelange foi um vilão, com certeza foi um dos melhores. Seu plano de domínio teve êxito, mesmo quando descoberto, saiu impune, deixou pupilos para seguirem seu legado, e até pode se dizer que teve uma vida quase eterna (quantos humanos vivem um século? poucos, muito poucos). O desejo de todo o vilão. E acredite: apesar de tudo que sabemos que ele possivelmente fez, ainda será muitas vezes homenageado. Com certeza, Darth Vader sentiria inveja…