Entrevista: Jornalista e cadeirante conta como foi cobrir as Paralimpíadas

Divulgação/Facebook Pessoal

Jairo Marques é jornalista e cadeirante. Nascido em Três Lagoas (MG) é portador de poliomielite desde o nascimento. Nessa entrevista exclusiva ao Torcedores.com, o repórter da Folha de São Paulo conta como foi cobrir as Paralimpíadas do Rio.

Torcedores: Como jornalista e cadeirante, qual foi a sensação de cobrir uma paralimpíada em casa?

Jairo Marques: É uma sensação um tanto gratificante e emocionante. Unir uma pessoa com deficiência a um trabalho na grande imprensa e juntar essas duas pontas a um mega-evento mundial, é para sentir orgulho e para abrir uma janela de oportunidade para outras pessoas, para novas possibilidades de inclusão. Quando eu via as arenas cheias e eu em meio aquilo tudo, com meu computador, apurando, escrevendo e registrando fatos, sentia até uma certa emoção de estar em meio a um acontecimento histórico.

T: A organização do evento superou suas expectativas?

JM: Achava que teríamos muito mais problemas, e graves, do que os que vieram a público. Não foi tudo perfeito, houve falhas, inclusive de acessibilidade, de falta de comprometimento com a inclusão plena (como por exemplo, alambrados que ficavam mais altos que os cadeirantes, em algumas arenas). Mas, ao mesmo tempo, havia disposição para tentar minimizar danos aos prejudicados. Penso que a pressão do público imenso que foi ao Parque Olímpico fez também que tudo andasse bem, que houve atenção para transtornos. Volto a dizer, não foi tudo absolutamente perfeito, como deveria ser, mas, sem dúvida, a minha expectativa era baixa e fui surpreendido.

T:  Nas redes sociais, muito se reclamou da falta de jornalistas deficientes comentando os jogos. Em sua opinião, por que essa falta de profissionais aconteceu?

JM: Porque não faltam apenas jornalistas. Faltam advogados com deficiência, faltam professores com deficiência, faltam dirigentes com deficiência. Embora sejamos 45 milhões no Brasil, poucos ainda tem acesso digno à educação, ao trabalho e à inclusão de fato. Penso também que órgãos de imprensa brasileiros não estavam nem aí para “darem o exemplo”, para terem profissionais que tivessem uma sinergia maior com o clima. Nem mesmo o Comitê Paralímpico Brasileiro, que mantém dezenas de jornalistas dentro da competição, se deu ao trabalho de contratar profissionais com deficiência, o que considero extremamente delicado. Mas, justiça seja feita, além de mim, da Folha, havia, na imprensa brasileira, a Carla Maia, que é tetraplégica, da TV Brasil, e o Fernando Fernandes, paraplégico, trabalhando pela SPORTV.

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T: Após as paralimpíadas, você acredita que a mídia ‘convencional’ vai superar aqueles velhos clichês da superação de limites e dos atletas como coitadinhos?

JM: Acho que abrimos um caminho de novas possibilidades. Usar os clichês é preguiça de pensar uma maneira mais moderna e verdadeira de tratar os esportes praticados pelas pessoas com deficiência. De certa maneira, as grandes histórias estão entranhadas em alguns atletas e relatá-las é noticioso, mas dentro de um contexto, sem apelos e sem coitadismo. O público que foi às arenas, por sinal, queria medalhas, queria resultados, queria show. As pessoas não estavam ali para ver gente sem perna ou sem braço.

T: Em termos de cobertura, os jogos do Rio podem fazer o esporte paralimpíco estar mais presentes nos grandes meios?

JM: Penso que a pauta deverá voltar com mais frequência, que alguém lembrará que o brasileiro gosta também do esporte praticado por esse povo. Mas daí a imaginar que teremos uma cobertura esportiva inclusiva, acho que é um salto muito grande. Tomara que aconteça, mas não sou dos mais otimistas.

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